Brasil precisa de mais democracia e não de golpe de Estado

Uma democracia mais inclusiva socialmente poderia fortalecer o governo de Bolsonaro. O golpismo tende a enfraquecer o presidente

“Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.” — Winston Churchill

Se há uma frase clássica, dada sua conexão com a história global e com a história particular de seu criador, é a dita por Winston Churchill, o primeiro-ministro britânico que levantou o ânimo de sua nação e pôs os nazistas para correr — com o apoio dos soviéticos, americanos e, entre outros, brasileiros (25 mil ao todo — 111 deles eram goianos): “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”.

A democracia é tão aberta que permite que aqueles que querem “matá-la” ajam livremente, às vezes com nenhuma ou escassa penalização. Numa ditadura, pelo contrário, não se pode fazer a defesa da democracia — só do regime discricionário.

Franklin Delano Roosevelt, presidente americano, e Winston Churchill, primeiro-ministro da Inglaterra: a democracia é incontornável e inegociável | Foto: Reprodução

Na circunstância, há grupos, associados ao bolsonarismo, que pregam abertamente a necessidade de um golpe de Estado que exclua a democracia da vida política brasileira e adote uma ditadura. Os conspiradores contra a democracia agem livremente, à luz do dia — e muitos deles “bancados” pelo dinheiro público (caso de vários policiais militares).

Não há golpe político sem o apoio do Exército — a força armada mais poderosa, acima da Marinha e da Aeronáutica. No momento, há dois grupos no Exército. Um deles segue Bolsonaro, caninamente, e o apoiará no caso de qualquer tentativa golpista. Mas, ao menos na cúpula, há outro grupo que é contrário ao golpe.

Por que uma parte do Exército, a mais moderna, não quer um golpe de Estado? Primeiro, porque respeita a Constituição, quer dizer, a legalidade. Segundo, porque percebe que a sociedade organizada — as áreas chaves da indústria, como a Fiesp, do agronegócio e dos bancos (Febraban) — prefere continuar sob os marcos da democracia. Terceiro, há o problema de que, terminada a ditadura, os civis que a apoiaram se “limpam”, pactuando com os novos poderosos — como ocorreu entre 1984 e 1985, com José Sarney, Marco Maciel, Aureliano Chaves e Antônio Carlos Magalhães, que mudaram, alegremente, de lado, posicionando-se como “novos democratas” — e deixaram a má imagem, a de ditadores, para os militares.

Jair Bolsonaro e Donald Trump: o exemplo do americano não foi positivo | Foto: Reprodução

Nos últimos 36 anos, dados sua profissionalização e o respeito estrito às leis — à Constituição —, as Forças Armadas, sem necessariamente renegar o passado (com o qual muitos almirantes, brigadeiros e generais não têm a ver), reconstruíram sua imagem. Aeronáutica, Exército e Marinha são instituições respeitáveis e democráticas. Vão manchar, mais uma vez, seus nomes, desconsiderando a história, para apoiar um novo golpe de Estado? É provável que não.

A possível prova — é preciso firmar o condicional, pois não se tem certeza de nada, dado o grau de imprevisibilidade da vida — de que o Exército não esteja vinculado ao suposto “desejo” de Bolsonaro por um golpe de Estado é que o presidente tem procurado o apoio das polícias militares dos Estados. Talvez seja sinal de que não há apoio nas Forças Armadas, sobretudo no Exército. Não há golpe político na história do país sem a participação do Exército — desde a Proclamação da República, em 1889, até a derrubada de João “Jango” Goulart, em 1964. As PMs seriam, somadas, uma espécie de “Exército” — quase paramilitar.

O que unem Bolsonaro e as PMs? Primeiro, o direitismo político — de pelo menos parte significativa das polícias militares — e o anti-petismo. Segundo, a ideia de que “a polícia prende e a Justiça solta” pode ter colaborado para unir o presidente e os membros da corporação. Terceiro, o governo federal tem feito acenos positivos para os policiais, como financiamento da casa própria em melhores condições do que para o cidadão comum.

“Numa dialética que assustaria tanto Hegel quanto Marx, Bolsonaro, de direita, é o principal responsável pela ressurreição de Lula da Silva, de esquerda. Pode-se concluir que o presidente, ao ‘ressuscitar’ a esquerda, está ‘matando’ a direita”

Cientistas políticos e jornalistas parecem que fingem não perceber que há um clamor contra uma suposta “proteção” de Lula da Silva no interior da Justiça, notadamente no Supremo Tribunal Federal. Fica-se com a impressão, na avaliação de parte ampla dos eleitores, que o petista está sendo “protegido” por uma rede com o único objetivo de disputar eleição para presidente e “derrotar” Bolsonaro. Pode não ser exatamente assim. Mas é a percepção de muitos e é preciso aceitar que tal pensamento deve ser incluído no debate político. Porque, de fato, houve um carnaval de corrupção no governo de Lula da Silva e Dilma Rousseff. Não se pode fingir que não ocorreu nada. Retirar Bolsonaro do poder? Tudo bem. Mas por que transformar Sergio Moro, ex-magistrado, e Deltan Dallagnol, procurador da República, em figuras execráveis e santificar Lula da Silva? Há uma insatisfação em ebulição a respeito da suposta “rede de proteção” ao poderoso chefão do PT.

Jair Bolsonaro, à direita, e Lula da Silva, à esquerda: os mais radicalizados para presidente da República | Fotos: Reproduções

Recentemente, talvez julgando-se praticamente eleito — a um ano e um mês das eleições —, Lula da Silva disse que, se voltar a ser presidente, vai trabalhar para “regular” — eufemismo para “controlar” — a imprensa. Só a revista “Veja”, o jornal “O Globo” e o Jornal Opção condenaram a ideia autoritária do petista. A evidência de que o lobo está vivo na pele do cordeiro certamente assusta parte da sociedade. Só não assusta mais porque Bolsonaro governa mal e, para piorar, faz ameaças constantes à democracia. Aquele que fica contra a democracia, poderoso ou não, não tem espírito de cidadão.

Por que a esquerda de Lula da Silva está de volta e tão forte, ao menos no momento, quando o centro político não consegue firmar um nome contra os políticos radicalizados — o petista e Bolsonaro? O que ressuscita a oposição — no caso, a esquerda — é governo ruim. Paradoxalmente, numa dialética que assustaria tanto Hegel quanto Marx, Bolsonaro, de direita, é o principal responsável pela ressurreição de Lula da Silva, de esquerda. Pode-se concluir que Bolsonaro, ao “ressuscitar” a esquerda, está “matando” a direita.

Lula da Silva está “eleito”? Óbvio que não está. Ninguém ganha eleição por antecipação. Bolsonaro tem capital eleitoral, há setores da sociedade que o apoiam de maneira incontornável, mas, como lhe falta experiência em termos de gestão, deixa a desejar como presidente. Quem está no poder, como o presidente, faz política com gestão, ou seja, melhorando a infraestrutura do país, atraindo e potencializando investimentos, e investindo no social. Não se pode guardar as ideologias num canto direito da gaveta, é certo. Mas, dados o racionalismo e o pragmatismo, deve-se entender que a ideologia, de esquerda ou de direita, não serve tanto para governar e se relacionar com os mercados interno e externo. A China é o grande exemplo. O país é comunista — promove um híbrido de socialismo de mercado e capitalismo de Estado — mas seus dirigentes negociam, com mestria, com quaisquer outros países, desde que tenham algo de importante para vender ou tenham recursos financeiros para comprar seus produtos. Frise-se que o maior parceiro comercial da China é o Brasil, uma nação capitalista, e não Cuba, um país comunista. O discurso ideológico vale mais, quando se está na oposição, em campanhas político-eleitorais. Quando se está no poder o que se exige do presidente é que governe — e para todos os brasileiros, não só para os aliados, como os “motonauros”.

“O que a turma do PIB está tentando dizer a Bolsonaro é que não está contra seu governo. O que postula é que o presidente precisa governar e, ao mesmo tempo, respeitar a democracia, as instituições, como o Legislativo e o Judiciário”

Do ponto de vista econômico, a situação do país não é das melhores. Há o problema do PIB, que caiu 0,1% no segundo trimestre deste ano, a volta da inflação e a crise hídrico-energética. O poder de consumo das pessoas caiu, e há mais pessoas passando dificuldades e, até, fome. Qual o projeto de Bolsonaro para os que estão na base da pirâmide, vivendo com extrema dificuldade? O auxílio emergencial e a Bolsa Família (com outro nome) são importantes — o governo agiu certo ao implementar o primeiro e, agora, reforçar o segundo —, mas são necessárias medidas de inclusão mais amplas.

Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter: “O principal risco para nosso crescimento hoje está falta de confiança” | Foto: Reprodução

Entretanto, enquanto Bolsonaro passeia de moto, nas comiciatas — na verdade, são comícios nada disfarçados e extemporâneos —, o país está à beira de uma estagflação (fragilidade econômica combinada com preços em alta). O economista Armando Castelar Pinheiro, da Ibre e da FGV, afirma que, no segundo trimestre de 2021, o Brasil “teve uma estagflação no segundo trimestre, sem crescimento e com inflação alta. Hoje, a expectativa para o terceiro trimestre é de uma alta do PIB de 0,8%, ou 3,3% em valores anualizados”. O que o especialista está sugerindo é que, ao contrário da previsão de crescimento de 5%, a expansão pode ser menor. A economista Elena Landau aposta em 2%.

A economista Rafaela Vitória, do Inter, sublinha que “o principal risco para nosso crescimento hoje está na confiança, ou falta dela”.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Federação Nacional dos Bancos (Febraban) e amplos setores do agronegócio estão preocupados com o governo de Bolsonaro. Primeiro, devido ao caráter errático de suas ações. Segundo, há forte desagrado com a ideia de que o presidente planeja um golpe de Estado. Os setores que apoiaram o golpe de 1964, o mais alto grau do PIB, hoje postulam pela democracia.

O que a turma do PIB está tentando dizer a Bolsonaro é que não está contra seu governo. O que ela está postulando é que o presidente precisa governar e, ao mesmo tempo, respeitar a democracia, as instituições, como o Legislativo e o Judiciário (no caso, o Supremo Tribunal Federal). Elena Landau afirma que “a sensação que você tem é que não há ninguém segurando o leme”. Como se Bolsonaro fosse anarquista: “Hay gobierno, soy contra”.

Na terça-feira, 7, prepara-se um grande movimento de apoio a Bolsonaro, em Brasília. O que realmente acontecerá só se saberá no dia. Espera-se que não aconteça nada que fira de morte a democracia. O presidente está deixando claro que tem vocação para ditador, mas tudo indica que as Forças Armadas, principalmente o Exército, tendem a ficar no campo democrático. Prevalecendo a democracia, a tendência é que o PIB volte a crescer, pois a confiança será mantida. Bolsonaro talvez entenda, no final das contas, que a realidade de 2021 é muito diferente da de 1964 — há 57 anos. A frase de Churchill, exposta acima, continua válida.

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