Brasil pode superar (parte da) crise se Paulo Guedes segurar a tempestade Bolsonaro

As reformas cruciais para reduzir o impacto da recessão mundial exigem a ação de um presidente mais conciliador

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro: resta saber se o ministro da Economia tem chance de contribuir para o presidente adotar uma política mais racional e moderada

Os países estão conectados — ainda que os Estados nacionais persistam fortes e independentes. Em termos de economia as crises globais atingem todas as nações — umas mais, outras menos. Ninguém escapa incólume. Mesmo economias consolidadas são abaladas pelas tempestades internacionais — como a provocada pelo coronavírus (ou “quedavírus”, em termos de economia) e pela nova crise do petróleo. Porque, a rigor, ainda que o mundo não seja “plano”, é cada vez mais interligado. Se a China crescer menos, por exemplo, vários países, como o Brasil, serão frontalmente atingidos. Os chineses são os maiores importadores de commodities patropis (e de outras nações). Então, a saída para (tentar) conter a recessão mundial não depende inteiramente dos governos locais. Mas, se tais gestões fizerem a sua parte, enxugando os gastos dos Estados (governos, para ser mais preciso) e incentivando o mercado, a possibilidade de sair do atoleiro será menos dolorida e demorada. Quem se organizar primeiro, criando antídotos certeiros e amplos, tenderá a sair da crise primeiro. Ou pelo menos tenderá a ser menos afetado.

O primeiro país a ser abalado pelo coronavírus foi a China, segundo país do mundo e cujo crescimento gira em torno de 6% a 7% — já tendo chegado, em tempos idos, a 10%. Não se pode sugerir que a economia da China é o oxigênio da economia brasileira, porque o Brasil negocia com vários outros países, mas, de fato, é o maior parceiro comercial na nação patropi. Portanto, se a China cai, mesmo com média intensidade, afeta o país gerido pelo presidente Jair Bolsonaro. Por isso, e também devido à recessão que tende a ser mundial, o governo está revisando a sua meta de crescimento de 2,4% para 2,1%. Bancos projetam crescimento de 1,9%. E são previsões ligeiramente otimistas, porque, se a recessão se intensificar, a tendência é que o país cresça ainda menos — talvez abaixo de 1%.

Dilma da direita

O que fazer: sentar, chorar e reclamar? Não adianta. Há um primeiro passo? Há: Bolsonaro deve, a partir de agora, assumir como “presidente de fato” e deixar de ser “presidente em campanha”. Como a economia decide eleições, o gestor nacional tem de cuidar de melhorá-la, senão se tornará a Dilma Rousseff da direita, em 2022. Agora, com uma crise crescente, é hora de “parar” (se é possível, dada a radicalização) com as guerras ideológicas — que, com a tempestade que se avizinha e se agiganta, se tornaram birrinhas de crianças. Não dá mais para culpar os governos do PT. A hora é de muita responsabilidade, não de jogo para as “plateias” das redes sociais. O presidente terá de falar para a nação, não só para os “convertidos” — aqueles que o aplaudem mesmo quando equivocado (sabe-se que os piores aliados são aqueles que mais elogiam).

O ministro da Economia, Paulo Guedes, sabe, porém, que não basta Bolsonaro se comportar mais seriamente — com menos declarações intempestivas contra o Congresso e jornalistas. É preciso arranjar saídas locais que, mesmo não resolvendo o problema de maneira estrutural — porque, desta feita, a determinação da recessão é globalizada —, possam reduzir a crise.

O economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES e ex-ministro do governo de Fernando Henrique Cardoso, disse ao jornal “O Globo” que “não tem” espaço para estimular a economia. “Não tem, nem adianta. Enquanto não acalmar o pânico, não é só no Brasil, não há o que fazer. O que era para ser feito está sendo feito, como o juro americano que já está praticamente zero em dez anos. O povo está assustado, vende o que tem e compra título que não paga nada de juros. A China tem condições, mas precisa de tempo para acalmar. Talvez dentro de 90, 120 dias, se não houver outra crise de petróleo” (Arábia Saudita e Rússia estão numa espécie de guerra fria econômica).

Inquirido se a recessão mundial é inevitável, Mendonça de Barros frisa: “Já está dada. A economia americana está no pico, a Europa estava começando a se recuperar e a China, também. Veio o coronavírus, tem que remar tudo de novo. Com todo mundo apavorado, imagina hoje a sangueira nos fundos de investimento. O pior: teve um monte de brasileiro que entrou na Bolsa agora. Esse sai com prejuízo e não volta nos próximos dez anos”. O economista frisa que o dólar “deve voltar para R$ 4,20”.

Quando não incorpora o espírito de “Bolsonaro de Chicago”, Paulo Guedes é dotado de imenso bom senso, porque, além do preparo intelectual, conhece, como poucos, o mercado real. De cara, pede “conciliação” para o país sofrer menos danos com a recessão internacional — que tende a afetar a economia de países que estão em processo de recuperação, como a brasileira, de maneira mais intensa. Numa entrevista à revista “Veja”, o ministro disse: “Temos de nos unir. Precisamos proteger o Brasil”. Ele tem razão, e espera-se que Bolsonaro, quiçá perdendo protagonismo, concorde com seu auxiliar, agora, de novo, primeiro-ministro.

Paulo Guedes disse à “Veja” que há 19 medidas, em tramitação no Congresso, que, se aprovadas, podem contribuir para reforçar a economia brasileira. O ministro listou as principais medidas, sintetizadas pela revista: “Entre propostas de emendas constitucionais (PECs) e medidas provisórias, há projetos que modernizam o mercado de gás, dão autonomia ao Banco Central, permitem a privatização da Eletrobras, reestruturam o sistema tributário, abrem os setores de saneamento básico e ferroviário a investimentos privados e flexibilizam a legislação trabalhista. Uma, mais importante, impede que o país quebre em uma eventual frustração de receitas devido a um choque externo — a PEC Emergencial. Apenas essa proposta significa um alívio de 10 bilhões de reais. E a privatização da Eletrobras renderia outros 16 bilhões. ‘É um novo desafio. Por isso precisamos mais do que nunca das reformas. Para nos dar espaço fiscal’”.

O economista Marcos Lisboa, presidente do Insper, frisa que, num cenário como o atual, com o mundo semiparalisado, “o governo precisa dar clareza sobre a sua agenda, apoiar e articular as reformas. Mesmo que elas surtam efeito em cinco anos, ou sete, isso criaria uma previsibilidade para o investimento privado”. É preciso sublinhar, como sugere Paulo Guedes, que não basta que o governo seja preciso na definição de sua agenda. Também é crucial que o Congresso seja convencido de que, com uma crise tão ampla, as reformas precisam ser aprovadas. A clareza, portanto, deve ser dos dois poderes, o Executivo e do Legislativo. Por isso mesmo, o ministro da economia defende a conciliação e, portanto, que o governo de Bolsonaro reduza o confronto.

O presidente, ao contrário de Paulo Guedes, não é favorável a uma reforma administrativa ampla. Porque teme perder o apoio de parte do eleitorado. Mas há momentos em que é preciso escolher entre o país e, sim, as eleições. O estadista salva a nação, o politicozinho tenta se salvar, mas, se não salvar a nação, jamais será salvo. Urge, portanto, que Bolsonaro deixe os palanques, como os virtuais, e assuma a Presidência da República (que é de todos, pública, e não de alguns) — falando para todos os brasileiros, e não apenas para guetos que julga representar.

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