Bolsonaro sugere que vai criar movimento, mais do que partido, pra caminhar com escolhidos

O presidente da República parece que planeja fundar um movimento político para não soçobrar como Fernando Collor e o PRN

Há líderes políticos que só precisam de partidos para disputar eleições, mas não representam “seus” partidos e os partidos não os representam. Na década de 1960, o partido de Jânio da Silva Quadros era… era… era… Ninguém mais se lembra. O fato é que foi bancado por um grande partido, a UDN de Eduardo Gomes, Magalhães Pinto, Milton Campos, Bilac Pinto e Carlos Lacerda, para disputar a Presidência da República e foi eleito. Até ali, a UDN havia perdido para Eurico Gaspar Dutra, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Havia quem sugerisse que o “D” de UDN não significava Democrática, e sim “Derrotada”. O “N” seria sinônimo de “Nada”. Parte dos líderes do partido, de tanto perder eleições, se tornou golpista: disputava eleição, perdia e começava a propor a derrubada do vitorioso — Vargas e Kubitschek. Mas era um partido de grandes políticos, ideologicamente muito bem preparados e enraizados na sociedade patropi.

Jânio Quadros e Carlos Lacerda: grandes aliados na campanha e praticamente adversários no governo | Foto: Reprodução

Jânio Quadros era a esperança da UDN de chegar ao poder e governar o país, porque, com seus líderes (Eduardo Gomes, duas vezes, e Juarez Távora, uma vez), havia fracassado até 1961. Entretanto, uma vez eleito, Jânio Quadros não aceitou o cabresto dos udenistas — como Carlos Lacerda. Começou a governar de maneira independente, deixando a maioria das ideias da UDN de lado. Condecorou Che Guevara, por exemplo, o que não foi aprovado pelo udenistas, que eram anticomunistas. A UDN era governo, tinha certa influência, mas o líder nascido em Mato Grosso mandava de fato.

Em agosto de 1961, alegando que forças ocultas o pressionavam, renunciou. Pensou que voltaria nos braços do povo e dos militares, que não aceitariam a posse do petebista João Goulart — que, embora apenas nacionalista, era apontado como “comunista” ou controlado pelos comunistas —, e, de fato, coronéis e generais não queriam o herdeiro de Getúlio Vargas na Presidência. Mas, quiçá por não ser confiável, Jânio Quadros acabou rifado por civis, inclusive da UDN, e por militares — que acabaram aceitando a solução do Parlamentarismo. João Goulart ficou como presidente, mas esvaziado, e Tancredo Neves como primeiro-ministro.

O que concluir da ascensão e queda de um político vitorioso? Que não basta ter um político, Jânio Quadros, para sustentar um grupo no poder. Um político, mesmo popularíssimo, precisa ser amparado por um partido sólido, com um conjunto de líderes respeitáveis no Executivo e no Legislativo.

Lenda mineira sobre democracia

Conta-se uma lenda política de Minas Gerais — Estado em que os políticos são pródigos na arte de narrar lendas e formular aforismos. A história que se relatará a seguir certamente faz parte do anedotário dos mineiros. Eis, de maneira sucinta: em 1982, candidato a governador de Minas Gerais, Tancredo Neves convidou o neto Aécio Neves da Cunha para auxiliá-lo na campanha eleitoral. Tratava-se de um jovem de 22 anos, bon vivant e habitué das praias, bares, restaurantes e festas do Rio Janeiro. Um autêntico latin lover.

Tancredo Neves e Aécio Neves: na política, caminha-se com todos e não só com os escolhidos, os puros da aldeia | Foto: Reprodução

Inteligente e sagaz, mas pouco afeito aos estudos — formou-se em economia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais —, mesmo pensando nas maravilhas do Rio de Janeiro, Aécio Neves, ainda um neófito em política, decidiu participar da campanha. Teria inclusive levado um grupo de amigos do Rio — talvez para que a cidade de Belo Horizonte ficasse mais acariocada. Julgando-se um sábio, o mancebo teria convocado uma reunião e dito ao avô — que havia sido ministro da Justiça do governo democrático de Getúlio Vargas, primeiro-ministro do Brasil e um combatente da ditadura civil-militar — que não deveria aceitar uma figura fisiológica, caipira e atrasada como Newton Cardoso, o Newtão Trator, na sua campanha.

Paciente, daqueles políticos que sabem ouvir até quem não precisa ouvir, Tancredo Neves escutou a “orientação” de Aécio e dos neo-aecistas. Os jovens representavam a voz da modernidade. Eram os sabem-tudo das academias — aqueles que acreditam que, na política, é possível caminhar única e exclusivamente com os “escolhidos”, os chamados “puros da aldeia”. Depois de ouvir a voz da sabedoria da juventude, o mineirinho irrequieto indagou, humilde: “Agora, posso falar?” “Pode, claro”, autorizaram.

Tancredo Neves teria dito: “Aécio, eu não quero ser candidato a governador”. Silêncio sepulcral. Todo mundo ficou estupefato. Como? Tancredo Neves, o favorito nas pesquisas, não queira mais ser candidato a governador. Por quê?

Ante Aécio Neves e aecistas perplexos, em pânico, Tancredo Neves, com aquele sorriso maroto nos lábios, teria acrescentado: “Aécio, meu filho, não quero disputar. Eu quero ser eleito governador. Então, garotos, me façam um favor: tragam-me o Newton Cardoso e me arranjem aos menos mais um dois Newtons Cardosos para a campanha”. Irritados, os meninos dourados do Rio quiseram saber por quê.

Ante uma plateia entre assustada e aborrecida, Tancredo Neves teria comentado: “É o seguinte, meninos: eleição se ganha com todos, não com os escolhidos, os puros da aldeia. Enquanto vocês bebem uísque e vinho nos melhores bares e restaurantes e me apresentam projetos de governo sensacionais, alguém tem de ir às ruas, de casa em casa, para pedir votos”. Na época, sem redes sociais e aplicativos, era assim. E, de algum modo, permanece assim para a maioria dos políticos — exceto para os midiáticos. Para cargos majoritários, apesar da importância da internet e da televisão, não se pode descuidar do corpo a corpo com os líderes e os eleitores, sobretudo no interior. Na França, mesmo tendo feito uma campanha moderna, Emmanuel Macron mandou auxiliares visitarem eleitores em suas casas, tanto para “colher” quanto para “plantar” ideias.

Campanhas bem-sucedidas resultam de um mix de abordagens dos eleitores. É preciso unir tradição e modernidade. Observe-se que o prefeito de Goiânia, Iris Rezende, tem 86 anos e é pouco afeito às redes sociais. Mesmo assim, ganhou três eleições para prefeito e contribuiu para a vitória de Paulo Garcia, do PT, no século 21. Mas a principal lição de Tancredo Neves — sendo lenda ou não o que se comentou acima — é que não se faz política tão-somente com os escolhidos. Na política, como na vida, segue-se adiante com todos — os bons, os mais ou menos e os ruins. Não se joga gente fora. Nem Newton Cardoso. A vida é mais inclusiva do que advogam adeptos de preconceitos orgânicos ou rastaqueras.

Fernando Collor: eleito presidente em 1989, caiu em 1992, em parte por causa de PC Farias e do “empurrão” de Pedro Collor| Foto: Reprodução-montagem

Collor e Bolsonaro

Em 1989, Fernando Collor, hoje com 70 anos, foi eleito presidente da República pelo PRN. Trinta anos depois, alguém se lembra do partido? Poucos, por certo. O PRN foi constituído basicamente para uma campanha. Com o impeachment, em 1992, perdeu a razão de ser e desapareceu — praticamente sem deixar história.

Recentemente, ante o estilo contencioso do presidente Jair Bolsonaro — cujo governo é mais moderado do que suas palavras —, Fernando Collor disse que já viu o filme e, talvez pensando no seu caso, sugeriu que o final tende a não ser positivo. O político de Alagoas, embora nascido no Rio de Janeiro, brigou com a imprensa — Grupo Globo, revista “Veja” e chegou a mandar invadir a “Folha de S. Paulo” — e atacou a maioria dos políticos, os ditos tradicionais. Quando acuado, buscou-os, mas era tarde. A rigor, ficou sozinho. Quem bate esquece; quem apanha, jamais.

Jair Bolsonaro deixou o PSL, partido que, embora de direita, não tem um núcleo ideológico forte. O presidente está deixando o partido por vários motivos.

Primeiro, porque percebeu que, mesmo sendo presidente, não controla o PSL e seu fantástico fundo partidário e, nas eleições de 2020 e 2022, seu fabuloso fundo eleitoral. Porque o partido tem uma bancada de 53 deputados federais. Políticos de menor expressão, como Luciano Bivar, são controladores dos recursos do partido.

Segundo, a sujeirada eleitoral do PSL — quiçá comum à maioria dos partidos, senão a todos — pode ser, nas próximas eleições, contaminadora. Por isso, sair antes, e denunciando a falta de assepsia, pode ser politicamente mais vantajoso.

Terceiro, e se trata mais de hipótese, porque não se sabe exatamente o que pensa Bolsonaro, há a questão de que alguns indivíduos, como talvez o presidente, parecem acreditar que é possível fazer política só com os puros, e não com os seres disponíveis. Busca-se uma perfeição que não existe em nenhum lugar, nem nas proximidades dos que se julgam “puros”. É possível que o senador Flávio Bolsonaro — que já se desfiliou do PSL — não esteja envolvido nos malfeitos de Fabrício Queiroz, mas os dois eram bem próximos, até amigos. Queiroz “morava” ao lado, quer dizer, trabalhava no gabinete de Flávio Bolsonaro quando este era deputado. Por certo, na política, como na vida, não há assepsia 100%.

Jair Bolsonaro está se afastando, com urgência, de Luciano Bivar, chefão do PSL, mas a tendência é que outros Bivares apareçam | Foto: Reprodução

Bolsonaro é um político inteligente e mais estrategista do que se costuma pensar. Como não reza pela cartilha tradicional, nem da velha direita nem da esquerda, é visto apenas como “tosco”. O preconceito impede a percepção de que é hábil e joga para a plateia — a sua — com rara habilidade. Ele está em profunda conexão com um Brasil altamente conservador, que a modernidade hegemônica do país por vezes esconde. Ao mesmo tempo combina forças contrárias, como o nacionalismo dos militares com o liberalismo extremo do ministro da Economia, Paulo Guedes. A agenda liberal não inclui a pauta conservadora — até fundamentalista do governo de Bolsonaro, representado pelo presidente e, essencialmente, pelos ministros Abraham Weintraub, Damares Alves e Ernesto Araújo. Liberais em economia são em geral liberais em comportamento. Paulo Guedes, filho da Escola de Chicago — a de Milton Friedman —, é liberal e não é conservador. Mas, como está impondo sua agenda liberal na economia — Reforma da Previdência, Lei da Liberdade Econômica, Privatizações, Reforma Administrativa —, parece não se incomodar com certo fundamentalismo, aliás, até parece apoiá-lo (o que contradiz, frise-se, seu ideário liberal).

Movimento político e social

Ao criar um novo partido, é provável que, diferentemente de Fernando Collor com o PRN, Bolsonaro esteja pensando em criar um movimento político e social (o que indica uma ideologização mais ampla do que se está imaginando), com o objetivo de acomodar tantos indivíduos quanto ideias conservadoras. Aliança Pelo Brasil, portanto, não é um mero partido, para durar uma ou duas eleições. É provável que esteja sendo pensado como um partido-movimento, para perdurar e representar amplos setores da sociedade brasileira — incluindo, por exemplo, de evangélicos a católicos de centro e, sobretudo, de direita. Se realmente criado, o Aliança Pelo Brasil será, certamente, bem diverso do PRN e do PSL. Será um partido diferente (tipo a Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado. Tipo, mas não igual).

A ressalva sobre o partido é que Bolsonaro e seus novos aliados perceberão, no curto prazo, que não há partidos, movimentos e indivíduos perfeitos. Por mais que se pressione para que seja (o partido) ajustado, os problemas surgem e, às vezes, conspurcam o ideário. Bolsonaro é um realista absoluto — e estão equivocados os que pensam que é pura emoção e pilha de nervos (na verdade, é tremendamente calculista). Inteligente como é, certamente entenderá, e rapidamente, que nem o Partido Republicano dos Estados Unidos, apesar de uma corrente fundamentalista — no plano religioso mesmo —, pretende ser um movimento, pois optou por ser um partido. Porque, ao menos na democracia, determinados movimentos às vezes não sobrevivem à perda de seus líderes (o PT talvez seja mais um movimento, e talvez por isso precise tanto de Lula da Silva). O PSL, que é um partido e não um movimento, tende a virar pó, não agora, mas a partir de 2022. Porque não elegerá mais uma bancada de 53 deputados federais.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.