Bolsonaro, se não mudar a política de proteção ambiental, pode devastar o agronegócio do Brasil

A economia só não está pior devido à chamada âncora verde. Se o presidente não perceber isto, contribuirá para afundar o país

O presidente Jair Messias Bolsonaro, de 65 anos, é o “soldado invernal” dos trópicos. Está congelado no tempo — o da Guerra Fria, quando a batalha se dava entre capitalistas e comunistas. A luta ideológica era praticamente tão relevante quanto oxigênio e petróleo. Mas o mundo mudou, e radicalmente. Mesmo a China, que é comunista, negocia como qualquer outro país capitalista. As ideologias não estão postas à mesa, e sim um realismo brutal. Os chineses negociam com quaisquer nações — independentemente do que seus povos pensam de Karl Marx e Mao Tsé-tung ou de Friedrich Hayek e Luwwig von Mises.

Carlos Bolsonaro, Hamilton Mourão e Olavo de Carvalho: um realista, o general, no meio de dois fundamentalistas religiosos e políticos | Fotos: Reproduções

Já Bolsonaro, ideologizado por outro soldado invernal da Guerra Fria, o filósofo Olavo de Carvalho — mix de dom Marcel Lefebvre e Jean-Marie Le Pen —, parece não perceber como a economia global mudou e está mudando. No seu estilo que mistura macheza latina e ignorância com nacionalismo — o que o aproxima de parte da esquerda, paradoxalmente —, o presidente patropi ignora, por exemplo, a força dos consumidores transnacionais.

Os consumidores, potencializados pelas redes sociais, se tornaram deuses — acima das ideologias e dos países. Portanto, se articulam um movimento internacional contra a soja brasileira, independentemente do que os governantes de seus países pensam — em geral, são atropelados por movimentos espontâneos ou, por vezes, habilmente articulados —, os produtores rurais dos trópicos, e consequentemente os governos, sofrerão perdas, às vezes de ampla gravidade.

Há quem deprecie os generais que estão no governo de Bolsonaro. Ora dizem que estão imiscuindo demasiadamente na política. Ora sugerem que estão silentes demais. O fato é que tais militares são discretos, realistas e modernos. Como têm “certa” ascendência sobre Bolsonaro — pede-se ao leitor que não deixe de observar as aspas —, o governo oscila. Quando estão mais presentes, aconselhando e moderando, o governo melhora. Como agora. Quando a turma de Olavo de Carvalho e Carlos Bolsonaro passa a dar o tom, trocando o realismo pela ideologia fundamentalista de extrema direita, o governo piora. Não deixa de ser grave que Bolsonaro parece não ter uma percepção clara do que está acontecendo no Brasil e no mundo — daí sua variação de humor em relação aos fatos. O mundo dele, o da Guerra Fria, acabou, mas, como vive lá, como soldado invernal, congelado, não faz a avaliação precisa, e rápida, do tempo e do espaço no qual vive.

Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão: o país pode melhorar, em termos ambientais, se o presidente ouvir o vice-presidente | Foto: Reprodução

Mesmo um ministro jovem e eficiente, como o da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, parece não compreender o novo mundo no qual vive… fisicamente. Na sexta-feira, 10, num arroubo típico dos bolsonaretes, disse: “Não dá para admitir ou aceitar a pressão que vem sendo feita contra o Brasil de país que destrói o meio ambiente. Absolutamente. O Brasil tem a segunda maior reserva florestal do planeta, é um país que tem mais de 60% de matas nativas preservadas, tem 84% de floresta amazônica preservada, tem 42% de matriz energética renovável. A Alemanha tem 14%. E nós somos vilões do meio ambiente? Absolutamente”.

Por mais que tenha razão, pois outros países não se preocuparam em preservar suas florestas, Tarcísio de Freitas, na sua macheza bolsonariana, também não percebe o que parece óbvio a garotos de 10 a 18 anos: não se trata mais, exclusiva e necessariamente, de uma guerra entre países. Há um clamor internacional pela preservação das florestas que extrapolam os políticos que estão no poder, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e os Estados nacionais.

Entretanto, se Bolsonaro, o soldado invernal — que talvez queira reerguer o Muro de Berlim para derrubá-lo em seguida —, e seus ministros, como o do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Machado de Assis, do túmulo, certamente está a rir pelo fato de o governo ter um ministro com o nome de um de seus personagens — e o comportamento de ambos é parecido), não percebem que um mundo novo está batendo à porta, apressado e exigente, os empresários e banqueiros patropis, realistas e vivendo no mundo real, também pressionam por uma mudança da política ambiental, tornando-a mais preservadora.

Tarcisio Gomes de Freitas, da Infraestrutura: quando não incorpora a “macheza” de Jair Messias Bolsonaro, é um ministro de rara excelência| Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

O realismo do mundo empresarial

Os dirigentes da Suzano, da Cargil, da Natura, da Marfrig, do Itaú e Bradesco se tornaram, de repente, comunistas? Óbvio que não. São realistas. Empresários e banqueiros enviaram uma carta ao vice-presidente Hamilton Mourão, um general que conhece como poucos a Amazônia e os problemas geopolíticos globais, cobrando mais ação contra o desmatamento da Amazônia. Por ser vice, não tendo a voz ativa de Bolsonaro, Mourão não tem como se posicionar com mais firmeza. Mas o diálogo foi aberto e o general sabe que os empresários estão certos — pensando tanto no país quanto nos seus negócios, que podem ser prejudicados se a “insanidade” continuar.

Mourão disse aos empresários que o governo vai trabalhar para reduzir “danos” e informou que o governo vai editar uma “moratória do fogo” — que proíbe queimadas, inclusive as legalizadas, durante certo período. “Temos de reduzir o desmatamento ao mínimo aceitável e, obviamente, as pessoas também precisam entender que não podem mais desmatar. Temos duas soluções: a difícil, manter a repressão, e a fácil, o comprometimento das pessoas”, afirma o vice-presidente.

Walter Schalka, presidente da Suzano: “Precisamos demonstrar nosso compromisso com o desmatamento ilegal zero” | Foto: Reprodução

O presidente da Suzano, Walter Schalka, que participou de uma videoconferência com Mourão e outros empresários, percebeu a conversa como produtiva: “Reforça a necessidade de dialogarmos e construirmos juntos, entes públicos, iniciativa privada e sociedade em geral, um caminho que permita ao Brasil assumir um papel de protagonismo nas discussões ambientais globais. Para alcançarmos esse novo patamar na geopolítica mundial e liderarmos o mundo em direção a uma economia com menos carbono, contudo, nós, como nação, precisamos demonstrar nosso compromisso com o desmatamento ilegal zero”.

O presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, acrescenta: “No momento em que a sociedade se percebe frágil, a gente deve olhar para outros perigos. As consequências ambientais podem até vir de uma maneira mais lenta do que as da saúde, como a Covid-19, mas são mais duradouras e difíceis de reverter”. O diagnóstico é preciso, e nada tem a ver com ideologia. É de um realismo atroz. Goiás é um Estado que depende, além do setor de serviços, do agronegócio. Se a soja e a carne brasileiras sofrerem um boicote global, a economia do Estado vai sofrer radicalmente, com a queda dos negócios e, portanto, da arrecadação. Como sugere o dirigente do banco, a reconstrução do agronegócio, que levou anos para se consolidar de maneira integrada e sólida, e da economia em geral (amplamente conectada) não se faz de maneira rápida. O ministro da Economia, Paulo Guedes, sabe o que está acontecendo, mas, como só parece pensar em privatizações (que são necessárias), não está conseguindo influenciar Bolsonaro, que, sem os militares, fica à deriva.

Candido Bracher, presidente do Itaú Unibanco: “As consequências ambientais podem até vir de uma maneira mais lenta do que as da saúde, como a Covid-19, mas são mais duradouras e difíceis de reverter” | Foto: Reprodução

Voltando à questão dos consumidores. No artigo “Por que as queimadas na Amazônia preocupam os empresários brasileiros” (“Estadão”, sexta-feira, 10), Alexandre Calais frisa: “No século 21, a forma de produção mudou. A cabeça do consumidor é outra. Questões ambientais são cada vez mais levadas em conta na hora da decisão de compra e de investimentos. Em suma, promover a produção sustentável, sem agredir o meio ambiente, é sinônimo de lucro. E é essa, no fim das contas, a função das empresas — dar lucro aos acionistas”. Claro que não há mais como deixar de agredir o meio ambiente, pois a necessidade do mundo por alimentos — é preciso alimentar mais de 7 bilhões de pessoas (e não só elas) — exige a ocupação de espaços. O que se deve é agredir menos. A tecnologia permite produzir em alta escala e qualidade em espaços menores. (Sobre a “invasão internacional” da Amazônia basta contrapor que a floresta está sendo invadida, de maneira acelerada, por desmatadores… brasileiros.)

Na Europa, as maiores redes de supermercado — como Tesco, Aldi, Asda e Carrefour — sustentam que, atendendo seus consumidores, podem deixar de comprar produtos brasileiros se o desmatamento da Amazônia continuar de maneira descontrolada. Alexandre Calais relata que, em junho, “fundos de investimentos globais, responsáveis pela gestão de ativos avaliados em 4,6 trilhões de dólares, ameaçaram simplesmente parar de investir no Brasil se o governo não mudasse o rumo de sua política ambiental”.

Jair Bolsonaro e Ronaldo Caiado: o presidente poderia se inspirar no realismo do governador de Goiás, que não põe a ideologia acima da vida | Foto: Reprodução

Os empresários disseram a Mourão, coordenador do Conselho Nacional da Amazônia Legal, que o Brasil só retoma o crescimento econômico — em bases sólidas, e não na propaganda dos otimistas panglossianos — se ficar atento à questão da sustentabilidade. Mourão sabe, mas Bolsonaro parece não perceber, que parte das soluções para a retomada do crescimento está no Brasil, mas parte está no exterior. Quer dizer, os consumidores, que não querem saber se Bolsonaro é de extrema direita e se Guilherme Boulos é de extrema esquerda, pretendem comprar produtos que avaliam como, digamos, “politicamente corretos”. Pode-se não gostar disso, mas é assim que o admirável mundo novo funciona.

Se Bolsonaro continuar “comendo” ideologia, com a ressurreição de pautas atrasadas — superadas pelo conservadorismo em outros países —, o Brasil será “jantado” pelas potências econômicas globais, como Estados Unidos, China, Japão e Alemanha. Portanto, não se tornará um imenso Portugal. Governos equilibrados, que pensam em políticas de Estado — que precisam de continuidade —, e não em políticas ideológicas a serviço de setores conservadores retardatários, podem contribuir para inserir o Brasil entre os quatro países mais ricos do mundo, os citados acima. O país já está entre os dez mais ricos do mundo — e só está independente há 198 anos —, mas, ajustado e com governantes atentos, pode figurar ao lado de Estados Unidos e China, e acima de Japão (o terceiro mais rico) e Alemanha (o quarto mais rico). Mas depende de táticas e estratégias realistas.

O Brasil tem tudo. Ou melhor, quase tudo. Falta, no momento, um governante, realista e moderado, que entenda o novo circuito comercial global. O país só não está pior porque há governadores — como João Doria, de São Paulo; Camilo Santana, do Ceará; Flávio Dino, do Maranhão; Ronaldo Caiado, de Goiás; Renato Casagrande, do Espírito Santo; Rui Costa, da Bahia; Romeu Zema, de Minas Gerais; e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul — e empresários sensatos (produtores rurais e industriais) que trabalham para a economia não sair dos trilhos. No combate à pandemia do novo coronavírus, com um governo federal errático — que parece brincar de piquenique com o problema —, os governadores estaduais, uns menos e outros mais, têm se mostrado competentes e, ao mesmo tempo, realistas. Há quem queira que se comportem como “ditadores”, mas eles, no geral, têm ouvido a sociedade, mesmo quando, em nome da economia, esta começa a deixar de pensar mais na preservação de vidas.

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