Bolsonaro, se não governar e se não sair do Twitter, pode reinventar a esquerda

O presidente ou engole Rodrigo Maia ou o presidente da Câmara dos Deputados e seus aliados, profissionais da política, engolem seu governo e travam o país

Conta-se que, candidato a governador de Minas Gerais, em 1982, Tancredo Neves era aconselhado por um grupo de jovens intelectuais, reunidos por seu neto Aécio Neves, então com 22 anos. Certa feita, num encontro tipo “brainstorming” (tempestade cerebral), os garotos, verdadeiros donos do saber, pressionaram o veterano a afastar Newton Cardoso de sua campanha. Porque Newtão-Trator, um campeão de votos de Contagem, era um político tido como fisiológico.

Tranquilo, dotado de ouvidos de aço, Tancredo Neves ouviu as admoestações da garotada que sabia quase tudo de Marx, até que havia escrito “O Capital”, e de John Maynard Keynes, do qual possivelmente não lembravam os títulos de seus livros. Depois do palavreado incessante, das verdades irretorquíveis apresentadas pelos aécio-boys — o escritor Oswald de Andrade não teria pejo de chamá-los de chato-boys —, o ministro da Justiça do governo democrático de Getúlio Vargas e primeiro-ministro sob o Parlamentarismo pediu a palavra, humildemente, ante uma turma que tinha solução para todos os problemas da humanidade.

Michelle Bolsonaro, Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão: o vice, general, está tentando moderar o presidente da República, puxando-o para o governo | Foto: Reprodução

Com sua voz lenta e filosofante, Tancredo Neves teria dito: “Meus amigos, eu não quero ser candidato”. A pausa, estudada, assustou os aécio-boys. Um deles, gênio lá do Rio de Janeiro, teria perguntado, perplexo: “Como assim? O sr. não vai disputar a eleição?” Com aquele sorriso maroto, típico de quem entende as filigranas da vida, o emedebista redarguiu: “Meus filhos, não quero apenas ser candidato. Quero ganhar a eleição”. “Ufa!”, ouviu-se pela sala sem ar-condicionado, com o suor tomando conta da testa dos jovens e dos homens de meia-idade.

Ao perceber que havia deixado a juventude desnorteada e estupefata, Tancredo Neves teria acrescentado: “Pois é, caros amigos, peço-lhe uma coisinha miúda mas importante: além do Newton Cardoso, tragam-me mais dois Newtãos Cardosos. O político pode governar com intelectuais — os tecnocratas —, mas, para ganhar eleição, precisa de políticos profissionais. Porque só eles conquistam votos para eleger um governador. Em seguida ao pleito, precisamos deles para governar. Porque a Assembleia Legislativa e a Câmara dos Deputados são recheadas de políticos de comportamento não muito católico. C’est la vie”.

A história pode até ser apócrifa, mas é plausível. Há uma tendência a se falar de homens que não existem — os puros da aldeia — e a execrar aqueles que, sendo reais, não são muito admiráveis. A política se faz com os homens possíveis — não com os escolhidos por terem princípios éticos elevados. Então, o que se sugere, o que Tancredo Neves teria insinuado, é uma composição entre políticos ativos, que não são tão progressistas, mas estão aí, firmes e atuantes, e aqueles que se consideram a salvação da humanidade, dada sua pureza, mas às vezes estão distanciados do dia a dia dos homens. Nefelibatas não são governantes eficientes. Mas são ótimos para conversas em botequins, notadamente os do mundo digital, como o Twitter.

Nova política não sobrevive sem a velha política

Não se reinventa o novo de repente e, quando se pensa que se consolidou, o novo já está envelhecendo. Por isso, não existe “o novo” inteiramente novo, pois está contaminado pelo velho. Portanto, nada mais velha do que a nova política. O presidente Jair Bolsonaro é, a rigor, um Fernando Collor que, um dia, vestiu farda e parece acreditar que o país pode ser “refeito” em quatro anos — o que é absolutamente impossível.

Sergio Fernando Moro e Paulo Guedes: ministros de alta qualidade do governo de Jair Bolsonaro; o primeiro só precisa se perceber como ex-magistrado| EFE/Antonio Lacerda

O estilo Bolsonaro, determinado pela escassez de responsabilidade ao dizer as coisas, é útil na oposição, e até contribui para ganhar eleição, mas não serve para governar. A oitava economia do mundo não pode ser gerida por amadores. O ministro da Economia, o profissional Paulo Guedes (a imagem de seu rosto lembra a do quadro “O Grito”, de Edvard Munch), é uma referência tanto interna quanto externa — porque sabe o que é preciso fazer para o país retomar o crescimento econômico. Mas fica-se com a impressão de que seu governo não é o mesmo de Bolsonaro. Embora não seja articulador político, aproximou-se do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), porque a Reforma da Previdência só sai — e de maneira mais abrangente — se contar com a anuência de quem controla o Legislativo. Mas o que faz pelo esforço pessoal, o presidente desfaz pelo Twitter, com o apoio de seus filhos-mosqueteiros. De certo modo, em termos políticos, Bolsonaro é uma espécie de Penélope do mundo masculino…

Por imperícia, quiçá por inconscientemente ainda se acreditar magistrado, o ministro da Justiça, o decente Sergio Moro — sua cara de enfado sugere que está apressado (e a democracia, infelizmente, não é um regime de apressados) — também colidiu com Rodrigo Maia. Depois, por ser inteligente e prático, recuou. Se não for tolerante, comportando-se como ministro e aceitando que não é mais juiz, seu pacote Anticrime não sairá do papel, tornando-se mais uma boa intenção que não se torna prática. Sergio Moro aos poucos vai aprender que, na democracia, mesmo os projetos de alta qualidade precisam ser debatidos antes de serem aprovados. Só se chega ao consenso, em países democráticos, depois do dissenso, ou seja, do debate público das ideias e projetos. O conflito não pode assustar quem avalia que a democracia é seminal.

As análises da revista The Economist

O “Estadão” traduziu e publicou a reportagem “Jair Bolsonaro, o presidente aprendiz do Brasil”, da “The Economist”. Aqui e ali, há certo exagero e uma relativa incompreensão do Brasil. Mas serve de alerta. A trupe do dirigente patropi certamente vai vociferar: “Esquerdistas!”. Evidentemente, a revista britânica é liberal (assim como o fascismo e o nazismo são totalitarismos de direita e o comunismo é totalitarismo de esquerda. Os dois primeiros são irmãos e são primos do terceiro. Entretanto, apesar do grau de parentesco, são diferentes, como demonstram a filósofa Hannah Arendt e o historiador Richard Overy).

Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia: um precisa “engolir” o outro para destravar o país | Foto: Arquivo/Agência Brasil

“Economist” nota que, ante a estagnação gerada pelos equívocos do governo de Dilma Rousseff — espécie de Bolsonaro da esquerda do PT, diria um lulopetista —, os brasileiros decidiram votar num presidente que é o oposto do petismo. Acredita-se que, por vezes, o povão estava interessado na pauta conservadora de Bolsonaro, e certamente estava e está. Mas o que preocupa o povão de fato não é ideologia — com suas guerras culturais-religiosas —, e sim a economia, quer dizer, mais empregos e, daí, a retomada do poder aquisitivo e do consumo. Intelectuais parecem crer que as pessoas comuns se interessam por batalhas ideológicas, mas, no fundo, estão mais interessadas na sobrevivência, em mais qualidade de vida. Tanto que milhares de eleitores migraram da esquerda, representada pelos discípulos de Lula da Silva, para a direita, tipificada por Bolsonaro. Os extremos se tocam exatamente porque os indivíduos, aqueles que não se interessam pelo embate ideológico, querem tão-somente que os governos lhes proporcionem melhores condições de vida. Os radicais, de esquerda e de direita, prometem o Céu na Terra — a ideia de que o Paraíso é possível e está próximo.

A revista inglesa aponta que “os investidores começam a perceber que Guedes tem uma árdua tarefa de conseguir aprovar no Congresso a Reforma da Previdência, crucial para a saúde fiscal do Brasil. E o próprio Bolsonaro não vem colaborando”.

“Economist” assinala que “o déficit fiscal de 7% do Produto Interno tem um enorme peso sobre a economia, significando que os juros para os tomadores de empréstimo privados serão mais altos do que seriam do contrário. As pensões respondem por um terço do total das despesas públicas e são uma das razões pelas quais o Estado gasta pouco na infraestrutura fragilizada”. A revista nota que o governo prevê uma economia de 1,2 trilhão de reais durante dez anos.

Ilustração da “The Economist” se referindo ao governo de Jair Bolsonaro e ao Brasil

A Reforma da Previdência é necessária, mas não corrige todos os problemas do Estado brasileiro (um deles é que o funcionalismo público fica com quase toda a arrecadação dos governos estaduais e prefeituras e, paradoxalmente, quase todo mundo acha perfeitamente normal). “A Reforma da Previdência, por si só, não fará com que o Brasil retome um crescimento econômico robusto. Serão necessárias reformas fiscais e outras medidas para aumentar a competitividade”, pontua “Economist”. Porém é o primeiro — e grande — passo. Mas precisa ser debatida, incorporando ideias que são oriundas da diversidade de concepções da sociedade. Se a esquerda participa do jogo democrático, se não quer destruí-lo, então deve ser ouvida e assimilada. A verdade é um patrimônio coletivo — não do grupo “X” ou “Y”.

Bolsonaro parece avaliar que só militares são honestos — tanto que o civil Onyx Lorenzoni, por mais que se esforce, parece esvaziado — e, por isso, encheu o governo de generais. “Economist” os deprecia, chamando-os de “aposentados”. As fontes da revista — ou uma leitura enviesada da imprensa patropi — certamente não lhes passaram informações precisas. Na verdade, os militares, de maneira surpreendente, são forças que puxam o governo para a democracia, contra os arroubos autoritários (mas não totalitários, diga-se) de Bolsonaro. Ao mesmo tempo, são competentes e realistas. Hamilton Mourão, Heleno Augusto e Santos Cruz (crítico de Olavo de Carvalho, que pretende lançar o governo numa cruzada político-religiosa contra a esquerda — o que se caracteriza como perseguição, e não disputa política) são figuras democráticas e que cobram que o governo se torne realizador e não um papagaio do Twitter.

Ernesto Roller e Ronaldo Caiado: o governador precisa ouvir mais seu secretário de Governo | Foto: Divulgação/Facebook

Contraditando o que disse sobre os militares, “Economist” reconhece que o general Hamilton Mourão, vice-presidente da República, “tem tentado impor alguma disciplina política”. Os filhos de Bolsonaro não o toleram, porque são amadores, e o general, dada sua experiência (um repórter da “Piauí” ficou mesmerizado com seu inglês fluente), é um profissional. O que diz sobre a Venezuela, optando por uma saída diplomática, sugere seu viés democrático. Ao contrário do que afirma Olavo de Carvalho, não é um “idiota”. (Bolsonaro, por sua falta de maturidade intelectual, se persistir em exigir práticas comportamentais retardatárias, para agradar seu eleitorado evangélico e filósofos religiosos, vai perder, cada vez mais, sintonia com o Brasil real, que é mais tolerante do que comumente se pensa. Governar não é determinar o comportamento dos indivíduos, no campo sexual e outros, nem produzir conflitos artificiais. Bolsonaro precisa ter cuidado para não repetir os governos petistas.)

“Economist” conclui seu texto com uma frase do porta-voz do governo Bolsonaro — por sinal, um general de tolerância infinita: “Temos duas alternativas. Aprovar a Reforma da Previdência ou afundarmos num poço sem fundo”. A revista conclui: “Se o seu chefe pelo menos fosse assim claro”.

Retomando Tancredo Neves: ou Bolsonaro “engole” Rodrigo Maia, uma espécie de Newton Cardoso modernizado — a turma da Operação Lava Jato o conhece como Botafogo —, ou Rodrigo Maia e seus aliados travam seu governo e a vida dos brasileiros, no lugar de melhorar, vai piorar, abrindo espaço, quem sabe, para uma volta da esquerda ao poder. Paradoxalmente, se fracassar como alternativa de direita, Bolsonaro pode “reinventar” a esquerda. Chegou a hora de dar um basta ao radicalismo da campanha e governar. O mesmo vale para Ronaldo Caiado, a rigor, um político mais moderado, articulado e moderno do que Bolsonaro. Frise-se que o governador tinha um deputado praticamente eleito para a presidência da Assembleia Legislativa e assistiu, de uma hora para outra, Lissauer Vieira, do PSB, ser eleito para o cargo. Caiado articulou mal ou, possivelmente, nem articulou. Se tivesse ouvido Ernesto Roller, ex-deputado e um político profissional, talvez tivesse contribuído para a eleição de Álvaro Guimarães.

Ouvido pela “Economist”, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com quase 88 anos, afirma: “Ninguém sabe para onde ele [Bolsonaro] vai, qual o curso que está tomando. Ele avança, depois recua, o tempo todo”. Como a oposição não incomoda Bolsonaro, dados sua tibieza e seu desgaste moral, o próprio presidente parece que decidiu fazer oposição ao seu governo.

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Arthur de Lucca

Brilhante editorial, digno de nosso Caro Euler de França.
Pecou em apenas um detalhe.
Só um detalhezinho.
Dizendo que ou o Capitão “engole” Rodrigo Maia ou abrir-se-á espaço para a esquerda.
Fez-nos lembrar do todo poderoso Eduardo Cunha! Quando estava naquela poltroninha. Hoje está no lugar que sempre severia estar.
Para dar um certificado de verdades ao dito/escrito, precisaria contratar os “serviços” do IBOPE verificando se o povo – o povo está com o Capitão ou com Maias, Alcolumbre e Gilmares.
Esquerda voltar? Aqui no Brasil? Agora? Sem chances!
Um abraço do leitor Arthur de Lucca – Goiânia. Go. 31/março/19.