Bolsonaro quer ir pra ruas quando sua missão é governar um dos países mais ricos do mundo

O presidente tem de lançar o movimento #vamos governar e não deve perder tempo com o mundo irreal de aliados que pouco sabem da vida e da política

Abraham Lincoln (1809-1865 — viveu só 56 anos) talvez só tenha dois grandes rivais na história política dos Estados Unidos: Thomas Jefferson e Franklin D. Roosevelt. A palavra a reter é “talvez”. Porque há outros presidentes extraordinários, como o primeiro, George Washington, e o segundo, John Adams (de uma família excepcional).

Em termos intelectuais, Lincoln não tem, é certo, rivais. Lia os britânicos Shakespeare e Milton como se suas obras fossem a Bíblia (que, sim, também lia, e com profundo interesse). Escrevia seus próprios discursos, numa prosa clara, precisa e concisa.

Ao rastrear o estilo telegráfico de Hemingway, o crítico literário e ensaísta americano Edmund Wilson, no livro “11 Ensaios — Literatura, Política, História” (os ensaios “Abraham Lincoln” e “O aprimoramento da prosa americana” são magistrais), percebe que sua origem está no estilo de Lincoln, que também teria sido apropriado por Mark Twain. O livro saiu pela Editora Companhia das Letras, com seleção e prefácio de Paulo Francis e tradução escorreita de José Paulo Paes.

Com sua clareza luminosa, com frases secas e substantivas, Lincoln é, portanto, “pai” tanto de Twain quanto de Hemingway. Pai ou avô da moderna literatura americana. O autor do conto “Assassinos” é “neto” do homem que aboliu a escravidão nos Estados Unidos e, vá lá, “filho” dos manuais de redação dos jornais da terra do criador do belo e divertido “Huckleberry Finn”.

Entretanto, Lincoln fez um pacto faustiano com a vida: trocou a literatura pela política, para a qual, à primeira vista, não parecia tão aquinhoado. Mas o presidente tinha a capacidade rara de compreender os homens — políticos ou não. Ao montar sua equipe de governo, escolheu entre aliados, os da campanha, e entre os melhores adversários. Governou, até ser assassinado, com um time de rivais, o que, longe de prejudicar a gestão, deixou-a mais dinâmica e variegada. A história está relatada no livro “Team of Rivals — The Political Genius of Abraham Lincoln”, da notável Doris Kearns Goodwin.

Ao gerir a máquina pública com um time de rivais, Lincoln teria adotado a tese de dividir para reinar? Na verdade, não. Porque o presidente não era dado à pequenez. O que quis, de verdade, foi governar criando uma unidade a partir de diferenças (ricas mas) supostamente inconciliáveis. Governos unidimensionais, com unidades profundas, funcionam menos do que governos pluridimensionais. A questão chave é que o presidente tem de ser uma “cola”, não para eliminar as diferenças, e sim para ajustá-las aos propósitos do governo — que é o bem comum, o desenvolvimento e o crescimento.

Quando o Sul se separou dos Estados Unidos, tornando-se outro país, a Confederação, Lincoln pôde contar com um time afiado, que representava de maneira mais precisa as contradições do vasto país. O Norte venceu o Sul por ter mais recursos, financeiros e humanos, e por ser governado por um político que havia formado um governo que, feito de diferentes visões de mundo, reagiu com certa competência e não deixou a nação afundar. Sua missão — implantar um capitalismo competitivo (claro que não falava nestes termos) e abolir a escravatura — exigia uma aliança ampla com a sociedade americana, não apenas com aliados de campanha.

Abraham Lincoln: presidente americano que aboliu a escravatura e unificou o Norte e o Sul | Foto: Reprodução

Ao admitir que na guerra vence o mais letal, Lincoln não perdeu tempo com generais teóricos e pouco dados à ação. O presidente deu autonomia aos seus generais mais “sanguinários” — como Ulysses S. Grant e George Sherman. Os dois militares não hesitavam: matavam pessoas, queimavam propriedades e cidades e só depois faziam perguntas.

Ao terminar a guerra, em 1865, Lincoln foi assassinado. Ele era a esperança de uma paz mais imediata, de uma reconstrução mais civilizada, por assim dizer. Político que sabia o que era perspectiva histórica, o presidente tinha noção de que a União entre Norte e Sul, criando uma nação vencedora — e não meramente com uma parte derrotada —, era decisivo para a construção de um grande país. Quem o matou não quis entender que o guerreiro bravio, decisivo e astuto era, no fundo, um pacifista. Abe, apaixonado por Shakespeare, sabia, como poucos, que não se constrói com vingança, e sim com a paz. A rotina da democracia é a verdadeira revolução humana.

#vamosdescerdopalanque

No Brasil, faz-se uma costumeira confusão entre o que é ser “culto” e o que é ser “inteligente”. Há quem trate o presidente Jair Messias Bolsonaro como “idiota” — o que ele não é. Na verdade, não é culto — no sentido de não ter lido Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Raymundo Faoro, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Cecília Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Adélia Prado e… Olavo de Carvalho. Politicamente, parece, mas não é exatamente um biltre. Fala mal e de maneira pouco coordenada — como muitos outros seres humanos desajeitados (com a diferença de que não são o presidente do país).

O presidente da República, Jair Bolsonaro, com o ministro da Economia, Paulo Guedes (à esquerda): o que se precisa é governar mais e falar menos | Foto: Reprodução

Bolsonaro não tem a cultura política de Lincoln, porém montou um time de rivais — que, claro, não tem funcionado muito bem. Mas, de algum modo, até por ter a caneta — a que contrata e demite —, chefia. De longe, de fora do centro do poder, fica-se com a impressão de que Olavo de Carvalho comporta-se como um primeiro-ministro informal do governo patropi. Mas e se, ao contrário do que se imagina, o filósofo estiver sendo usado pelo político para dividir o poder dos outros grupos que o apoiam? Fica-se com a impressão de que o autor do livro “O Jardim das Aflições” é uma arma engatilhada e, às vezes, atirando… de Bolsonaro.

Freud, se brasileiro e se vivo, certamente faria a pergunta: “O que quer Bolsonaro?” Não se sabe exatamente, porque, como não é teórico, não expõe de maneira ampla o que pensa e o que pretende fazer. Parece perceber que, no poder, tem de fazer o jogo do real, quer dizer, não se distanciar do mercado — da máquina controladora do mundo, o setor financeiro (leia-se bancos-financeiras) — a adotar o discurso do ministro da Economia, Paulo Guedes, um liberal “formado” pela Universidade de Chicago. Quem joga contra o mercado, ainda que de maneira retórica, não consegue governar, sobretudo com a economia altamente globalizada e integrada (a poderosa China, por exemplo, é muito mais integrada do que apocalíptica).

A rigor, Bolsonaro não é liberal, mas um nacionalista que, volta e meia, contraria Paulo Guedes, este, sim, o primeiro-ministro informal do governo. Quando disse que pode pedir demissão, se a Reforma da Previdência se transformar numa Reforma da Imprevidência — uma reforminha —, Paulo Guedes deixou o mercado chocado. Porque o ministro da Economia é o sinal de máxima responsabilidade, sobretudo com o gasto público, no governo federal.

Jair Bolsonaro e o líder do governo na Câmara dos Deputados, Vitor Hugo: por enquanto, de braços cruzados | Foto: Reprodução

Ao comentar o que havia dito Paulo Guedes, o presidente admitiu que uma reforminha seria danosa, uma catástrofe para o país. Entretanto, ao menos publicamente, Bolsonaro não demonstrou preocupação com uma possível saída do primeiro-ministro. Há quem acredite que um governo acaba com a queda de um ministro poderoso como o da Economia. Mas não é assim que as coisas funcionam. Há outros economistas sensatos, que, com alguma autonomia, assumiriam o cargo e não deixariam o governo afundar.

Com quase 30 anos de Parlamento, Bolsonaro sabe disso, e de muitas outras coisas — é provável que Paulo Guedes não sabe algumas delas. Porque política é uma atividade altamente profissionalizada — e também uma vocação —, como explicou o sociólogo alemão Max Weber. A deputada Tabata Claudia Amaral de Pontes é, sem dúvida, excelente, um vento positivo, mas vai perceber, aos poucos, que a política e a ciência política não são a mesma coisa. Bolsonaro pode até parecer néscio — “inepto”, na crítica de Ciro Gomes (que comporta-se como o “burro inteligente”, quer dizer, é, de fato, inteligente, até brilhante, mas parece avaliar que os demais são estultos, e daí deixa de compreender com precisão aquele que critica, tornando-se uma espécie de, insistamos, “burro inteligente”) —, mas pode ser menos do que se imagina.

Olavo de Carvalho, o ministro da Ideologia, pode estar sendo usado por Bolsonaro, e não o contrário | Foto: Reprodução

Ao usar Olavo de Carvalho, espécie de ministro da Ideologia, para tentar conter os militares (e também intelectuais e professores ditos de esquerda), dos quais precisa para evitar um impeachment — antes um civil (que já foi militar) do que um general no poder (ainda que pareça mais democrata do que o civil) —, Bolsonaro sugere que conhece a arte de manejar o time de rivais.

Os militares estão contra Bolsonaro? De maneira nenhuma. Primeiro, porque sabem que, eleitoralmente, não têm chance alguma. Precisam, portanto, de Bolsonaro. Porque é este que tem voto, capital político-eleitoral. Segundo, os militares são realistas e sabem, como Bolsonaro — e Lula da Silva (político de inteligência fina) era mais sábio do que Dilma Rousseff —, que, até dezembro de 2022, não há outra alternativa. É Bolsonaro ou o caos ou, quiçá, Bolsonaro e o caos. E o caos, se democrático, é preferível a uma democracia “ajustada”.

Militares como Sérgio Villas-Bôas, Hamilton Mourão, Carlos Alberto dos Santos Cruz e Augusto Heleno Ribeiro Pereira, forjados na democracia, sabem que a ditadura não funciona e que, quando cai, “queima” mais militares do que civis (hoje, dado o discurso, fica-se com a impressão de que José Sarney, para citar um exemplo, não apoiou a ditadura e não se aproveitou do poder dos militares). Ciro Gomes, numa entrevista astuta ao canal MyNews, equivoca-se ao sugerir que tais militares não têm espírito democrático. Têm, ainda que sejam conservadores. Não querem a ditadura. O que querem é levar Bolsonaro para um caminho de governo realista. E, se possível, nacionalista. No momento, aceitam o discurso liberal de Paulo Guedes, mas, no fundo, não são liberais.

Augusto Heleno, Hamilton Mourão, Santos Cruz e Sérgio Villas Bôas: os generais querem democracia e realismo no governo | Fotos: Reproduções

A operação política do governo Bolsonaro — com Onyx Lorenzoni, do segundo time, e o deputado Vitor Hugo, líder do governo na Câmara dos Deputados que nada lidera, exceto a si — é fraquíssima. Por quê? Simples: aos poucos, o presidente vai chamar a liderança para si, negociando diretamente com senadores, deputados e governadores. Bolsonaro sabe como a política funciona. Onyx Lorenzoni e Vitor Hugo são “frangos de granja”. A rigor, Bolsonaro, no momento, precisa quase nada da dupla. As figuras coroadas da Câmara e do Senado querem estabelecer diálogo direto com o dono da caneta.

Se há ministros competentes e decentes — como Sergio Moro, da Justiça, Paulo Guedes, na Economia, Tarcísio Gomes de Freitas, na Infraestrutura, além dos generais Santos Cruz e Augusto Heleno —, o que falta ao governo de Bolsonaro? Duas coisas.

Primeira: Bolsonaro tem de articular o governo, em termos políticos, no sentido de não mudar de posição com frequência e de manter sintonia com o Senado e a Câmara dos Deputados. Durante os próximos três anos e sete meses é o Congresso que se terá. Não há nem haverá outro. E os políticos — Rodrigo Maia, presidente da Câmara, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, além do presidente da República, Bolsonaro — não mudarão. Terão de ajustar-se uns aos outros. Não há outra saída. O presidente terá de ceder aqui e ali, republicanamente — de preferência —, e Maia e Alcolumbre terão de ceder também, até encontrarem um denominador comum.

Segunda: Bolsonaro tem de assumir que é presidente da República e, como tal, tem de governar o país — para todos, não apenas para os escolhidos. Reformas comportamentais e a hegemonia globalizada — que parecem compor o ideário de Olavo de Carvalho — não são implantadas, de maneira ampla e em definitivo, em quatro anos de governo. A sociedade reage, com seus vários instrumentos — como o Congresso, a Imprensa, o Judiciário e as manifestações públicas —, e o governo tem de recuar. Governos democráticos mais cedem do que impõem e ninguém precisa envergonhar-se disso.

Então, no lugar de buscar o conflito e de aprofundá-lo, Bolsonaro tem de assumir que foi eleito para governar um país que figura entre os oito mais ricos do mundo. Ele é o “piloto” de uma das maiores democracias do planeta — uma nação com 210 milhões de habitantes, com uma área territorial de 8,5 milhões de quilômetros quadrados — e não pode se comportar como um pastor maluco de ovelhas supostamente desgarradas. O presidente tem de governar — o que Lincoln fazia — e precisa adotar um discurso diplomático e não virulento. Convocar populares para manifestações não é papel de presidente da República. É papel de militantes. O problema é que Bolsonaro parece duvidar de sua própria grandeza — é presidente de uma potência global, eleito por milhões de brasileiros (a maioria crente de que vai melhorar suas vidas) — e, por isso, apequena-se ao participar de “debates” infrutíferos. O problema não é que tuita muito, e sim a má qualidade de seus tuítes (demonstram um autoritarismo que, no governo, não demonstra tanto), a falta de percepção de que se trata de um presidente, e não de um vereador do Rio de Janeiro ou de um militante infanto-juvenil das redes sociais.

O movimento que os brasileiros sugerem que Bolsonaro assuma é: “#vamosgovernar”.

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Vera Silvia V. Costa

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