Bolsonaro precisa parar de fazer oposição ao seu governo e trabalhar pela recuperação do Brasil

Discutir 2022, quando se tem seis meses de 2019 e 2020, 2021 e 2022 — três anos e seis meses —, é tarefa de amador. O astuto presidente não deve ceder ao amadorismo

Ronaldo Caiado, governador de Goiás, e Jair Bolsonaro, presidente da República: missão é olhar para frente | Foto: Divulgação

O presidente Jair Bolsonaro inventou o governo militar sem ditadura? Não é bem assim. Tanto que, ao contrário do que se pensava, está pondo generais para fora de sua equipe sem titubear. O que o integrante do PSL está inventando é o governo que faz oposição a si mesmo, quiçá com o objetivo de anular uma oposição que quase não aparece, exceto pontualmente. A falta de oposição é tanta que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, é tratado pela militância bolsonarista, nas redes sociais, como um opositor. Quando, na verdade, o líder do DEM é governista de primeira água. Com linguagem civilizada e alguns cargos, aqui e ali, o coração do parlamentar do Rio de Janeiro, uma jovem raposa política, será conquistado. Entretanto, se tratado como pária, se tornará para a gestão no poder uma pedra no caminho. Uma pedra que não poderá ser removida do caminho, de maneira democrática, pelos próximos dois anos. Numa entrevista para o “Valor Econômico”, publicada na sexta-feira, 21, o ministro da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, admite: “Sei o peso político do cargo. A pessoa que senta ali naquela cadeira tem um poder enorme. O presidente da Câmara comanda a pauta e acelera o projeto de lei. É alguém com quem você tem que ter relação, tem que dialogar bastante. Reconheço que ele tem feito um papel muito bom”. Um armistício? Mais provável uma abertura e um sinal de que, enfim, o governo, que está acima do bolsonarismo, quer restabelecer o diálogo com o Legislativo. Por quê? Porque as tentativas de enquadrá-lo — com pressões diretas ou por intermédio da militância nas redes sociais — falharam olimpicamente. Frise-se que Bolsonaro passou mais de um quarto de século no Congresso e, portanto, sabe como funciona e como não funciona.

Recentemente, Bolsonaro, que está a seis meses na Presidência, disse que poderá disputar a reeleição — depois de ter dito, várias vezes, que isto não estava em seus planos. Político astuto, está sugerindo, aos supostos adversários de seus projetos, que poderão ter de aguentá-lo, não por quatro, e sim por oito anos. É um recado. Ao mesmo tempo, para estabelecer diálogo com a sociedade — que rejeita políticos amplamente —, critica a velha política, admitindo que tem de negociar com ela para governar. Na verdade, governos que prometem muito, que querem mudar os homens e o mundo, apostam em mudanças rápidas — o que, na democracia, é uma impossibilidade. Daí o discurso de que alguém — os políticos tradicionais — está impedindo mudanças drásticas. A democracia cobra diálogo, debate de ideias e maturação na análise dos problemas, mas Bolsonaro tem pressa. Daí ter “revirado” candidato, quer dizer, está “ameaçando” ficar mais quatro anos. Esquece, porém, que, se não retirar o país da crise — recessiva —, se não houver crescimento econômico, os eleitores, inclusive alguns dos que lhe são fieis até agora, poderão abandoná-lo. Em 2022, o discurso de que a velha política não deixou a nova política governar não colará. Os eleitores vão avaliar se o governo foi bem na condição da política econômica, se contribuiu para gerar mais empregos, portanto se melhorou a vida de todos, e não meros discursos.

Luiz Eduardo Ramos e Bolsonaro: um realista chega para a articulação política | Foto: Reprodução

No final de sua entrevista à repórter Maria Cristina Fernandes, do “Valor”, Luiz Eduardo Ramos diz: “O ódio não gera nada mais que ódio. Tem gente com ódio na direita e na esquerda. O que é que isso ajuda?” Os grupos que apoiam Bolsonaro deveriam ouvir o general antes de usar as redes sociais como armas de guerra para “proteger” o presidente não se sabe de quais adversários ou inimigos.

O “Valor” publicou um perfil do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, um homem notável e democrático. Fica-se com a impressão de que moderado está cedendo aos arroubos do chefe. “O Lula é terrível, mas o Fernando Henrique Cardoso era pior, hein?”, diz, infelizmente sem explicar a contento. Pior em que sentido? Pode-se não apreciar Lula, pela corrupção, mas ao menos o primeiro governo não foi ruim, do ponto de vista global. Quanto a Fernando Henrique, como desconsiderar que contribuiu, de maneira decisiva, para estabilizar a economia patropi? Há uma tendência de se dizer que Lula da Silva e Fernando Henrique são de esquerda. Talvez se aproxime mais da verdade quem sugerir que Lula da Silva é de esquerda, socialdemocrata, e Fernando Henrique é de centro, mas igualmente socialdemocrata (daí a impressão de ser de esquerda). A socialdemocracia é uma espécie de centro cujo objetivo — um deles — é conter os arroubos exatamente da esquerda e da direita, sobretudo vezos autoritários e, não raro, totalitários. Não renega o mercado, mas não aposta que o mercado é a salvação de tudo.

Generais Hamilton Mourão (vice-presidente), Augusto Heleno e Santos Cruz são exemplo de democratas e líderes moderados. O terceiro está fora do governo | Fotos: Reproduções

A reportagem não diz, mas o general Augusto Heleno, apesar de sua ligação com Sylvio Frota (queria o prolongamento da ditadura), quem foi ajudante de ordens —, é um democrata. Ele afirma que não é conselheiro de Bolsonaro. Não quer ser visto assim, até porque o presidente é cioso de seu poder e não aceita tutela. Mas é, sim, um dos conselheiros do presidente — que, a rigor, não dá a mínima para os livros de Olavo de Carvalho; o que aprecia no filósofo é que colabora para lhe dar uma militância agressiva e gratuita, sempre ativa no enfrentamento com a esquerda. Augusto Heleno — “aluno exemplar, ele foi sempre o primeiro das turmas em todos os cursos que fez”, assinala o “Valor” — é um moderador. Assim como o general Sérgio Villas Bôas, outro democrata e um homem admirável, é uma figura moderadora no governo. Aposta que a função de um gestor é governar bem e pôr o país nos trilhos do crescimento-desenvolvimento. Na prática, o que quer é um governo eficiente, que faça mais coisas para o bem-estar do brasileiro.

Por estar fora do governo, com mais liberdade para se expressar, o general Santos Cruz, ex-titular da Secretaria de Governo da Presidência da República, concedeu, à revista “Época”, a entrevista mais sugestiva. O militar, uma referência positiva do Exército, disse ao repórter Bruno Abbud: “Tem de aproveitar essa oportunidade para tirar a fumaça da frente para o público enxergar as coisas boas, e não uma fofocagem desgraçada. Se você fizer uma análise das bobagens que se têm vivido, é um negócio impressionante. É um show de besteiras. Isso tira o foco daquilo que é importante. Tem muita besteira. Tem muita coisa importante que acaba não aparecendo porque todo dia tem uma bobagem ou outra para distrair a população, tirando a atenção das coisas importantes. Tem de parar de criar coisas artificiais que tiram o foco. Todo mundo tem de tomar consciência de que é preciso parar com bobagem”.

É um diagnóstico preciso de como o governo de Bolsonaro aparece para a sociedade. No lugar de se exibir as realizações ou que a carta de intenções está sendo posta em prática, perde-se tempo com graçolas e palavreado inútil. “Não é porque você tem liberdade e mecanismos de expressão, Twitter, Facebook, que você pode dizer o que bem entende, criando situações que atrapalham o governo ou ofendem a pessoa. Você discordar de métodos de trabalho é normal, até publicamente. Discordâncias são normais, de modo de pensar, modo de administrar, modo de fazer política, de fazer coordenação. Mas, atacar as pessoas em sua intimidade, isso acaba virando uma guerra de baixarias”, acrescenta Santos Cruz, de maneira pertinente. Mas, para o bolsonarismo, o general, que era bom (a corrente olavocarvalhiana o abomina desde antes), agora não é mais.

A solução de um governo é o próprio governo. Ficar falando do passado é perder tempo — as pessoas estão de olho unicamente no presente e o presente é Bolsonaro e seu governo — e sair do próprio eixo. No caso de Bolsonaro, com uma oposição amorfa, corre-se o risco de, aos poucos, a sociedade colocar-se como oposição. A lua de mel entre governantes e sociedade não dura para frente. Percebe-se que Bolsonaro está trabalhando para manter contato estreito com os “seus” apoiadores — evangélicos, por exemplo —, mas o presidente governa para os mais de 200 milhões de brasileiros, não apenas para os aliados.

As pesquisas, que não lhe são favoráveis — e têm a ver com a questão do baixo crescimento econômico, porque a vida do brasileiro não está melhorando —, certamente estão incentivando Bolsonaro a retomar o contato com o público. Mas o que todos querem é um governo melhor e não um governo que fala muito e faz pouco. A gestão de Bolsonaro está fazendo algumas coisas, mas, como sugere Santos Cruz, o que prevalecem são as lorotas, a linguagem chula e não civilizada.

Discutir 2022, quando se tem seis meses de 2019 e 2020, 2021 e 2022 — três anos e seis meses —, é tarefa de amador. Bolsonaro, astuto e inteligente, não deve ceder ao amadorismo.

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