Bolsonaro perde apoio nas classes médias e alta e ganha parte do eleitorado do PT

Muito criticado, o presidente, com o investimento no social, feito recentemente, conquistou o apoio dos pobres que estavam com Lula da Silva e o petismo

O sucesso eleitoral do Partido dos Trabalhadores — quatro vitórias para presidente da República, duas com Lula da Silva e duas com Dilma Rousseff — é, por vezes, obscurecido por causa de sua debacle em função da crise econômica, a partir do governo de Dilma Rousseff, e da corrupção, que, embora não tenha criado, azeitou, ampliando seu caráter sistêmico, transformando-a quase em programa de governo.

Se o sucesso do PT não é oriundo de sua ideologia — o povão e a classe média não estão interessados no debate esquerda versus direita —, o que, afinal, explica o fato de Lula da Silva ter se tornado, em determinado momento, uma espécie de semideus político? Uma hipótese é o programa Bolsa Família, que o marketing do petismo conectou com precisão ao ex-presidente e, mesmo, ao PT. Governos anteriores, como o de Fernando Henrique Cardoso, tinham programas sociais, de caráter assistencial, mas não souberam ou não quiseram identificar um programa de Estado ao indivíduo governante. Talvez por ser sociólogo e por se preocupar com seu lugar na história, FHC rejeitou o papel de Juan Domingo Perón da pátria verde amarela. Lula da Silva, quiçá dada sua origem popular, não se importa em integrar o time dos populistas. Curiosamente, passou a se identificar mais com Getúlio Vargas, que governou o país sob ditadura por 15 anos, do que com Juscelino Kubitschek, um democrata.

Jair Bolsonaro, presidente da República | Foto: Reprodução

Sem o PT, os pobres teriam sido abandonados? É o que eles parecem pensar. Mas a crise econômica provocada pela pandemia do novo coronavírus apresenta um detalhe que está escapando ao debate político, radicalizado na direita, nas esquerdas e na imprensa. O PT encomendou uma pesquisa ao instituto Vox Populi e a “Veja” divulgou os resultados. O presidente Jair Messias Bolsonaro estava caindo, inclusive entre os pobres. Mas, se continuou perdendo votos nas classes média e alta, estabilizou-se entre os pobres e, de repente, começou a crescer — o que pode torná-lo forte em 2022, avançando num eleitorado que há anos tem votado nos candidatos do PT. A “Veja”, vulgarizando a opinião do petismo, afirma que “o presidente soube capitalizar o medo do desemprego e da falta de renda e, ao ficar com os louros do ‘coronavoucher’, o auxílio emergencial financeiro da pandemia, conseguiu reverter a tendência de queda, saltando 13 pontos porcentuais em quatro meses. Nem a saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça teve impacto, segundo o levantamento. A diferença entre a aprovação nos dias anteriores à demissão do ex-juiz da Lava-Jato e nos dias após sua saída do governo, em 24 de abril, foi de apenas 1 ponto porcentual”.

Se você assiste televisão todo dia, notadamente a TV Globo e é leitor de jornais, como “O Globo”, o “Estadão” e “Folha de S. Paulo, certamente concluirá que a situação de Bolsonaro é “muito” ruim. Até as pesquisas mostram isto. Mas o que o levantamento do Vox Populi evidencia é que aqueles que se julgam “abandonados” por todos não pensam da mesma forma. Eles parecem ter percebido em Bolsonaro o político que se preocupa com seus empregos — ainda que sejam bicos — e com suas dificuldades de sobrevivência. Por isso, na contramão dos bem-pensantes, não demonstram insatisfação com o presidente. Lula da Silva, que nada tem de néscio — é espertíssimo —, que no momento se prepara para traçar táticas e estratégia para 2022, está fazendo a coisa certa: investigando o fenômeno bolsonarista, que, gestado nas classes médias (as que se julgam sem patronos) e na classe alta, está se tornando popular. A rejeição do governo, por causa da condução errática na questão da pandemia do novo coronavírus — uma gripezinha que já matou mais de 15 mil pessoas é uma super gripezona —, não permitia verificar o que a pesquisa do Vox Populi captou. João Doria (PSDB), Luciano Huck (sem partido, talvez se filie ao Cidadania), Álvaro Dias (Podemos), Ciro Gomes (PDT), João Amoêdo (Novo), Fernando Haddad (PT), Rui Costa (PT), Camilo Santana (PT), Sergio Moro (sem partido — cobiçado pelo Podemos) e Wilson Witzel (PSC) têm de pôr as barbas de molho. O tucanato avaliou que Lula da Silva chegaria “sangrando” em 2006. Mas não chegou. O mesmo pode acontecer com Bolsonaro em 2022.

Retomando a questão dos pobres. A crise gerou uma poderosa onda de solidariedade em todo o país. Os banqueiros do Banco Itaú-Unibanco deram 1 bilhão de reais para a área de saúde. Outros bancos, como Bradesco, Safra e Santander, e empresas, como Renner e Magazine Luiza, também deram suas contribuições. Mas há uma solidariedade efetiva e direta que raramente é vista. Grupos de religiosos e não religiosos se uniram para levar assistência aos pobres. A jornalista e empresária Adriana Godinho faz parte de um dos grupos que atuam em Goiânia, capital de Goiás. Numa conversa com um repórter do Jornal Opção, contou que fazia trabalho social antes, mas que agora ficou impressionada com o “aumento” da pobreza. “As pessoas não têm nada. Às vezes nem têm documentos, como carteira de identidade e CPF; no máximo, têm uma certidão de nascimento ou de casamento. Há pessoas que não têm nada para comer e parte não recebe a bolsa família e nem sabem do que se trata ou como consegui-la. Estão abaixo da chamada linha da pobreza. Elas não se sentem representadas por ninguém e não têm interesse por política. As crianças não têm carrinhos e bonecas, vivem descalças.” O grupo de agentes sociais autônomos — não têm ligação com órgãos públicos — serve cerca de duzentas marmitas. “Não dá pra quem quer”, frisa Adriana Godinho.

Candidatos a prefeito têm de ficar de olho
na pauta da saúde e nos pobres de suas cidades

As eleições para prefeito e vereador devem ser realizadas em 15 de novembro ou 4 de dezembro, diz o próximo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso. Dará tempo? É provável que sim. A campanha oficial tem 45 dias e os candidatos terão as redes sociais — onde “navega” a maioria dos eleitores —, jornais e televisão para expor suas ideias. Com a dificuldade de se fazer a política do corpo a corpo, os postulantes terão de criar estratégias para dialogar com os eleitores — alguns, aliás, estão debatendo abertamente nas redes sociais, praticamente em campanha.

Quais serão os temas basilares da campanha de 2020? Numa eleição para prefeito e vereador, a discussão sobre segurança pública é acessória, porque os eleitores sabem que os prefeitos, chegando ao poder, não poderão melhorá-la, ao menos não em larga escala, porque quem cuida da área são os governos dos Estados, com o apoio do governo federal. Eventualmente, o prefeito de uma cidade com renda um pouco maior pode criar um banco de hora para reforçar o policiamento, gratificando policiais. Mas a maioria dos municípios não tem estrutura suficiente para bancar isto.

Pobres de Goiânia recebem alimentos de agentes sociais autônomos | Foto: Adriana Godinho

Os eleitores sabem que os prefeitos podem melhorar a educação, a saúde e suas cidades (deixando-as mais limpas, com trânsito mais organizado, e com saneamento básico de relativa qualidade, no que, aliás, também dependem dos governos estaduais). Para os próximos anos, e sobretudo no pleito de 2020, o tema saúde será central. Está ficando evidente que o SUS, embora passe por dificuldades, tem seu grau de excelência, sobretudo por sua universalidade, quer dizer, por atender todos. Mas prefeitos têm condições de contribuir para melhorar os hospitais municipais. Hoje, na maioria das cidades, o hospital funciona nas ambulâncias, tanto que há prefeitos que fazem festa ao receber ou comprar ambulâncias. Porque as pessoas são colocadas em ambulâncias e levadas para Anápolis, Aparecida de Goiânia e, principalmente, Goiânia. Na capital há dezenas de “casas de apoio”, mantidas por prefeitos e até por deputados, para acolher moradores do interior que vêm se tratar na capital (dá para criticá-los? Não. Estão fazendo o bem, ante a falta de estrutura das unidades de saúde de suas cidades). Pouquíssimas cidades do Estado têm UTIs, quer dizer, se depender de uma, e não der tempo de chegar em Goiânia, Anápolis e Aparecida, o paciente pode morrer.  Os próximos prefeitos, com o apoio do governo estadual, terão de pensar na questão.

Eis uma Goiânia que muitos não querem perceber: pobres na fila para ganhar comida | Foto: Adriana Godinho

Os próximos prefeitos (muitos do atuais parecem “anestesiados”) vão precisar ter um olhar mais atento para os pobres de suas cidades. No lugar de mais viadutos, de mais obras de infraestrutura — cujo objetivo no geral é facilitar a vida dos que têm automóveis, e o resultado é que, como mais facilidade, mais carros serão colocados nas ruas —, é o caso de investir em creches mais organizadas, com horários diferenciados, e em programas sociais que associem cursos profissionalizantes, frequência escolar dos filhos e apoio médico-odontológico. O auxílio de 600 reais concedido pelo governo federal mostra que há uma pobreza “escondida” no país, que os institutos de pesquisa, e mesmo o competente IBGE, não conseguem entender, mostrar e explicar. Há “golpistas”? Há, por certo. Mas a maioria precisa dos 600 reais, que é pouco, mas ajuda muito. Só acha pouco realmente quem não sabe como vivem os pobres de seu país.

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