Bolsonaro não se preocupa com vidas porque está numa guerra particular contra a democracia?

Filósofo da Unicamp avalia que sim, que o presidente planeja instaurar um projeto autoritário e por isso ataca todos que não o seguem

Não há duas vidas. Do ponto de vista físico, se o indivíduo morre, acabou. É o fim. Religiosos têm, porém, o direito de ter suas interpretações, e suas visões são poderosos fenômenos culturais a considerar, não são meras alienações.

O presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, raciocina como o mais feroz economicista. O que importa, para ele, é manter a economia “saudável” — não as pessoas. Por que isto? Talvez pela escassa importância que atribui às vidas dos indivíduos, mas há também o componente político.

Eduardo Bolsonaro e Jair Bolsonaro: o deputado e o presidente têm discursos autoritários |
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agencia Brasil

O marqueteiro americano Chester James Carville Jr., de 75 anos, cunhou uma frase — “É a economia, estúpido!” — que o tornou quase tão famoso quanto o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, a quem auxiliou numa campanha eleitoral. A tese sugere que, se a economia estiver mal, quem estiver na Presidência pode não ser reeleito. Entretanto, se estiver bem, a tendência é que vença outra vez. Para se contrapor à tese, governismo e oposições têm de trabalhar a questão com inteligência. Porque, na vida como na política, o fatalismo quase sempre é um adversário incontornável. Uma campanha bem-feita pode convencer o eleitorado de que as coisas “estão bem”, mas podem melhorar. Os indivíduos poderão consumir mais, adquirir um veículo importado de mais qualidade. É o que os eleitores às vezes querem saber. Os governos do PT incentivaram o consumo, mas, a partir de certo momento, estagnou, não soube mais o que oferecer. Aí as pessoas quiseram ir além. É provável que, mais do que a corrupção, a crise econômica tenha “derrubado” o PT e contribuído para a vitória de Bolsonaro, em 2018.

Bolsonaro é um político longevo, esperto, e entende muito mais de política do que Paulo Guedes — que talvez seja o “tolo inteligente” (aquele que, embora de fato inteligente e preparado, avalia, equivocadamente, que os outros, desde que pensem de outra maneira, são néscios). Por isso, ao trabalhar contra a quarentena, o isolamento das pessoas, está de olho mais nas eleições de 2022 do que na economia em si. Esclarecendo: a ideia de que a economia vai quebrar, se as pessoas não voltarem às ruas, não é uma defesa exatamente da economia, e sim da ideia de que, se o país afundar, Bolsonaro afundará junto, daqui a dois anos e quatro meses, nas eleições de outubro de 2022. A economia está “agregada” à continuidade do bolsonarismo no poder.

Pesquisa do instituto Vox Populi, encomendada pelo PT, informa que parte do eleitorado deste partido, sobretudo no Nordeste, está migrando para Bolsonaro. Por isso sua popularidade não caiu ainda mais. O programa que repassa 600 reais àqueles que não podem trabalhar, ou até perderam os empregos, mostra, do ponto de vista dos pobres, a face humana do presidente. É provável que, em visitas aos Estados, se mantivesse conversas, não com militantes ideologizados, e sim com familiares de pessoas que morreram de Covid-19 ou de pessoas que estão internadas, a faceta humana sairia reforçada. Mas há não ninguém que convença Bolsonaro de que a “caçada ideológica” que promove, com o desenvolvimento de teorias conspiratórias, não levará a lugar algum, sobretudo porque não atrai eleitores “novos”. Pregar para convertidos, na política, não costuma funcionar, ao menos no sentido eleitoral. Só religiosos pregam, com sucesso, para convertidos.

O que está acontecendo é que Bolsonaro está conseguindo o que a esquerda nunca conseguiu: está desmoralizando a direita em geral — o que inclui tanto liberais quanto conservadores civilizados.

A tese do projeto autoritário

Marcos Nobre, professor de Filosofia da Unicamp e presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), lança um e-book para explicar Bolsonaro para além dos rótulos. Trata-se de “Ponto Final — A Guerra de Bolsonaro Contra a Democracia”, comentado por Naief Haddad, da “Folha de S. Paulo”, no sábado, 30.

Antes de passar às ideias do filósofo, façamos uma pergunta: “O governo de Bolsonaro já não é democrático?” Trata-se de uma indagação retórica? Fica-se com a impressão de que, ao menos no momento, há um paradoxo. Há um presidente que parece planejar um governo autoritário — daí as ameaças constantes às instituições, como o Congresso e, sobretudo, o Supremo Tribunal Federal —, mas que, até agora, faz um governo democrático. O discurso é autoritário, mas a prática ainda não é. Sublinhe-se que o deputado federal Eduardo Bolsonaro, possivelmente ecoando o que diz o pai, prega abertamente uma intervenção militar, como se fosse a mais nova vivandeira das Forças Armadas patropis.

Do discurso autoritário pode-se passar à prática autoritária? É possível. As ameaças do presidente e de seus filhos são, de fato, gravíssimas. O texto implícito, e até explícito, é o seguinte, notadamente para o Supremo: recuem das investigações contra meus parentes, especialmente os filhos, e amigos, alguns antes adversários, senão a coisa vai ficar cinza. A democracia não pode, de fato, continuar com esta espada de Dâmocles sobre sua cabeça o tempo inteiro. Por isso, mais do que o Congresso — o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, vive agachado, por não ter estatura política —, o Supremo está agindo com o máximo de correção e, sobretudo, coragem. Os Bolsonaros temem a pena do ministro Celso de Mello porque, excelente constitucionalista, trabalha literalmente dentro da lei, e, portanto, suas peças são irrefutáveis. O ministro Alexandre Moraes descobriu o óbvio, mas que precisava ser documentado: a República do Fake News é uma das armas do bolsonarismo. É sua essência. O bolsonarismo não quer persuadir, e sim destruir o adversário.

Agora, voltemos ao filósofo Marcos Nobre. O professor da Unicamp frisa que Bolsonaro é “coerente”. “Só que é a coerência da morte, da guerra”, assinala. “É a encenação perfeita de um governo de guerra. Vemos o presidente como um militar treinado para aceitar que as pessoas morrem. Mas qual é a guerra ali? Não é contra a pandemia ou contra a desigualdade, é a guerra contra a democracia, por isso é revoltante.”

Porque, ao contrário de outros líderes mundiais, Bolsonaro não usa a pandemia para se tornar popular? Ele não visita, por exemplo, aqueles que estão batalhando para salvar vidas no front de uma guerra cruel e dolorosa. Marcos Nobre frisa que “a resposta curta é: por surpreendente que possa parecer, Bolsonaro agiu dessa forma por fidelidade ao seu projeto autoritário”.

Marcos Nobre diz que os críticos de Bolsonaro que o tratam como “estúpido” ou “tresloucado” estão enganados. “Ele tem um programa autoritário, não é só da boca para fora. Ao dizer que Bolsonaro é burro ou louco, ele é confirmado no papel de antipolítico e assim se deixa de discutir política. Vamos levá-lo a sério e tratá-lo dentro do contexto da política.”

Marcos Nobre, professor da Unicamp: o presidente Jair Messias Bolsonaro segue um programa autoritário e não é burro nem tresloucado| Foto: Reprodução

Na opinião do filósofo, Bolsonaro é “antissistema”. Mas o que é o sistema? A democracia. O presidente confunde, propositadamente, democracia com esquerda — como se fossem sinônimos. O gestor federal avalia, na análise de Marcos Nobre, que “esquerda significa qualquer força política que não seja ele”. Por isso seus epígonos tratam seus adversários, quase todos, como “comunistas”. “A ruptura é representada pela redemocratização, que veio romper um processo virtuoso, a ditadura militar.”

A pandemia do novo coronavírus já matou quase 30 mil pessoas. Bolsonaro não parece comovido, dando a impressão de que permanece deslumbrado com o poder, sobretudo com um poder, na sua linguagem, que pode tudo. Ele faz questão de dizer que “manda” e sugere que o Executivo está acima do Legislativo e do Judiciário — os verdadeiros guardiões da democracia. “Ele não teria como não tomar as medidas que tomou, sabotando qualquer tentativa de reorganização eficiente do sistema. Caso contrário, jogaria fora o projeto autoritário. É a fidelidade dele às convicções autoritárias que o impede de agir de outra maneira”, postula Marcos Nobre.

Os que os brasileiros podem fazer? O crescimento da rejeição de Bolsonaro pode levar, não agora, a um processo de impeachment. “Há um desespero de muita gente para que aconteça um impeachment imediatamente tamanha a sequência de barbaridades. Mas o processo de deslegitimação de um presidente sempre demora”, pontua Marcos Nobre.

O filósofo não estaria “refinando” demais as supostas ideias de Bolsonaro, não haveria um quê de não-planejamento nas suas palavras e ações? Pode ser. Mas o discurso autoritário — mais do que a prática (Congresso e, sobretudo, o Supremo são diques poderosos, até agora, à afirmação de ações autoritárias) — é cada vez mais evidente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.