Bolsonaro deve retirar o Brasil da recessão. Mas quem vai retirar o presidente da crise?

A impressão que se tem é que o líder político está se comportando como situação e, ao mesmo tempo, oposição

Jair Bolsonaro: precisa entender que tem de resolver o problema de o governo ser melhor do que o presidente| Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro, mais astuto do que parece — o que surpreende intelectuais iluministas, que cobram projetos racionalistas e orgânicos —, parece ter um olho clínico para o fenômeno político. A ideia de “presidente-em-campanha” é malvista pela maioria dos analistas, que consideram que prejudica a gestão pública. Pode até ser. Mas, do ponto de vista eleitoral, não tem atrapalhado — se se levar em conta a última pesquisa, encomendada pela revista “Veja” e pela agência FSB. Para a disputa de 2022 — que será realizada daqui a três anos —, segundo o levantamento, feito entre os 11 e 14 de outubro, Bolsonaro derrotaria Lula da Silva, Luciano Huck, Fernando Haddad, João Doria e Ciro Gomes. Só perderia para o ministro da Justiça, Sergio Moro. O ex-magistrado tem dito que não será candidato e que apoiará o presidente. O mais provável é que seja vice deste — o que tornaria a chapa, senão imbatível, muito forte.

Mesmo sem veleidades teóricas, Bolsonaro certamente está examinando pesquisas quantitativas e, sobretudo, qualitativas. Por isso, opera, com certa perspicácia, uma tática: a polarização com a esquerda. Porque a esquerda não parece ter condições de derrotá-lo, dado um desgaste que, de tão visceral, nem começou a ser superado. Polarizar com a esquerda, além de “produzir” um adversário fragilizado, é uma maneira de segurar uma possível opção do centro político — de um João Doria e de um Luciano Huck. Com menos desgaste, se consolidar a imagem de uma alternativa mais racional para debelar a crise e levar o país ao crescimento econômico, o centro pode se tornar o grande adversário de Bolsonaro em 2022. Por isso, de maneira intuitiva ou planejada, Bolsonaro, ainda que critique Doria e Huck, prefere polarizar com Lula da Silva — no momento, inelegível —, ou seu candidato, a polarizar com os postulantes que têm votos do povão, do centro e, eventualmente, na esquerda.

No primeiro governo de Lula da Silva, entre 2003 e 2006, o petismo bolou a tática de ser situação e, ao mesmo tempo, oposição. Chegou-se ao ponto de o vice-presidente, José Alencar, do PR, ocupar espaço amplo na imprensa para criticar a gestão à qual pertencia, defendendo, entre outras coisas, a redução dos juros. Bolsonaro, político de direita, repete a esquerda e está ocupando o espaço da situação e da oposição.

Com certa habilidade, como se fosse um José Alencar com caneta — a caneta, na época do político mineiro, era de Lula da Silva —, Bolsonaro governa, adotando posições rígidas, e deixa os ministros da Economia, Paulo Guedes, da Justiça, Sergio Moro, mais ou menos livres. Porém, no momento que avalia como oportuno, recua e enquadra os dois. Primeiro, enquadrou Moro — quiçá para reduzir sua força e impor a hegemonia. Segundo, como não liberal — trata-se de um nacionalista que sabe que, em termos de economia global, é preciso aceitar certas regras do liberalismo —, aqui e ali, pressiona Paulo Guedes, que, ainda que seja forte e respeitado pelo presidente, não é mais o Posto Ipiranga.

Mas o que, com um governo híbrido — liberal e, paradoxalmente, nacionalista —, Bolsonaro realmente quer? Um governo com faces diferentes, agradando diversos públicos, mas sob seu comando, rígido. Há uma tentativa de manter tanto o povão quanto as classes médias apreciando o governo — que, apesar de certo caos, sobretudo político, não tem corrupção comprovada —, sem deixar de lado as elites, que, sim, não querem a volta do PT ao poder, não por ser um partido de esquerda, e sim por ter levado o país à recessão.

No momento, cobra-se muito de Bolsonaro, às vezes deixando de observar que está no poder há apenas 10 meses — menos de um ano — e que recebeu uma herança pesada. De fato, o ex-presidente Michel Temer, sobretudo pela interveniência de seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, iniciou a recuperação da economia. O que não significa, porém, a recuperação total. O país continua com crescimento mínimo, e não por erros do governo de Bolsonaro, e sim porque a recessão, herança dos governos do PT, sobretudo dos de Dilma Rousseff, era profunda. A rigor, o governo de Bolsonaro está tentando “consertar” aquilo que o governo Temer já estava tentando “consertar”. Ou seja: tornar o Estado menos dispendioso para a sociedade e, deste modo, criar possibilidade para que seja indutor do crescimento e do desenvolvimento. Ou melhor, um Estado menor, menos pesado para o contribuinte, é, por isso, indutor da expansão econômica. As ações do governo de Bolsonaro, apesar do caos políticos — especialmente em sua própria base, com o PSL —, são tidas como positivas pelo mercado. As privatizações e a Reforma da Previdência, por exemplo, são apontadas como fatores de redução do Estado e abertura para a expansão da livre iniciativa.

A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, afirma que “a perspectiva de crescimento econômico em 2020 ainda é frágil”. A economista está tratando do crescimento mundial. “Políticas domésticas e reformas devem reforçar a resiliência e endereçar mudanças sociais para assegurar sustentabilidade, inclusive crescimento e emprego”, afirma. O Brasil deve crescer menos de 1% em 2019 e um pouco mais em 2020. Ao menos não há mais recuo da economia. Ao contrário do que se pensa, Paulo Guedes não está perdido. O ministro da Economia está fazendo a coisa certa, enxugando o Estado e criando espaço para o investimento privado. Por ser monetarista, um discípulo da Escola de Chicago, acredita-se comumente que não tem preocupações sociais e com o consumo. Não é assim. Qualquer economista, mesmo um liberal de matiz chicago-boy, entende que “represar” o consumo, longe de estabilizar a economia, pode “matá-la”. Por isso, ainda que não seja desenvolvimentista, está liberando recursos, como os do FGTS, para os trabalhadores comprarem produtos ou pagarem dívidas. É uma maneira de reduzir o impacto da recessão tanto para os consumidores quanto para os empresários. Ao mesmo tempo, o governo mantém o país com inflação baixa, o que colabora para “estabilizar” a economia.

A tendência é que, a médio prazo, as medidas do governo híbrido de Bolsonaro e Paulo Guedes deem resultados. O país tende a crescer, e mantendo a estabilidade monetária, sem inflação alta.

Entretanto, retomando a discussão política, será positivo para o país que Bolsonaro governe de maneira menos contenciosa. Ele precisa entender que as razões de Estado estão acima dos interesses familiares, especialmente de seus filhos, Flávio e Eduardo Bolsonaro. Por mais que não seja um partido com a estatura de um DEM, de um PP, de um PSDB, de um MDB, de um PT — exceto pelo número de deputados —, o PSL, se escanteado para a oposição, dará trabalho para o governo, que pode não conseguir aprovar determinados projetos. A tática de ocupar todos os espaços, de fazer o enfrentamento, de não ter medo de nada, pode agradar o eleitorado bolsonarista mais radicalizado — aquele que acha que o bolsonarismo faz tudo certo e é infalível —, mas não toda a sociedade, que é mais diversificada e, no geral, não se interessa por embates ideológicos e mesmo partidários.

Ao governar para si, protegendo os filhos, Bolsonaro pode acabar prejudicando o país. No plano internacional, sua agenda, que às vezes é mais ideológica do que comercial-econômica, também não contribui com os produtores patropis.

Bolsonaro vai entender, por realismo, que tem de resolver o problema de o governo ser melhor do que o presidente. Quando o presidente for equivalente ao governo, que está fazendo a coisa certa, é possível que gestão melhore ainda mais. Mas é preciso torná-la menos personalista, menos familiar.

Tancredo Neves, que foi promotor de justiça, ministro da Justiça do governo democrático de Getúlio Vargas, primeiro-ministro no governo de João Goulart, senador, governador e presidente da República eleito (morreu antes de assumir), era um sábio. “São as ideias que devem brigar, não os homens”, disse. “Você não pode fazer política sem emoção. Mas as decisões e política são todas cerebrais, e os que não as praticam em termos de um ato de discernimento intelectual acabam sempre fracassando”, frisou. Bolsonaro deveria estudar a vida do político mineiro. Entenderia que quem promove guerras em vários fronts pode, em algum momento, perder uma delas.

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