Bolsonaro, a República dos Cemitérios e a dança mortal dos machões

Se ouvir apenas aqueles que o adulam, Bolsonaro poderá se tornar não um candidato a ser reeleito, e sim o coveiro de milhares de brasileiros

Em determinados nichos da política, há uma torcida pelo fracasso de Jair Messias Bolsonaro como presidente da República e de Paulo Guedes como ministro da Economia. A tese sugere que o gestor federal é “ruim” e, cada vez mais desgastado, tende a não ser reeleito.

Mas o fracasso de Bolsonaro, o homem público, será ruim para a sociedade — e menos para ele que, aos poucos, tende a desaparecer nas brumas do tempo.

Caronte | Foto: Reprodução

Ruim por alguns motivos. Primeiro, porque, se não houver vacinação em massa, de maneira acelerada, mais brasileiros vão morrer — possivelmente, acima de 500 mil (já morreram mais de 260 mil), talvez até mais, se seguir o ritmo atual de mortes. Por isso, a sociedade tem de pressionar Bolsonaro — porque se tornou o governo e o Estado —, de todas as maneiras possíveis, para que mostre a humanidade que aparenta não ter e compre vacinas para todos. Tão irritado quanto abúlico, o presidente contrapõe que não há vacinas para adquirir — sonegando a informação, verdadeira, de que demorou a tentar comprá-las, por duvidar de sua eficácia, quando negociações lhe foram propostas pelos laboratórios, como o da Pfizer. O Brasil, por causa de seu principal gestor, chegou tarde.

Segundo, há a questão da economia. A vacinação rápida e eficaz será a mola que contribuirá para alavancar o crescimento econômico do país e, inclusive, para fortalecer a popularidade de Bolsonaro, que pretende disputar a reeleição em 2022. Com um “currículo” de meio milhão de mortos — e até mais —, a reeleição do presidente será muito difícil, quiçá impossível. Portanto, até do ponto de vista eleitoral, o político que está tentando se filiar a um partido que tem o nome de Patriota precisa da vacinação em massa. Sem as vacinais, de quaisquer laboratórios e países, os eleitores tendem a votar — em massa — nos candidatos que avaliam que vidas humanas, todas elas, importam. A falta de vacinas pode se tornar o calvário do presidente na próxima disputa.

Um cowboy de Marlboro no Palácio do Planalto 

Explicar Bolsonaro parece fácil, pois, a rigor, pertence a uma direita retardatária, que, como Paulo Guedes está descobrindo, não tem nada a ver com liberalismo. É um populista de matiz conservador, estatista e, portanto, anti-liberal. O chicago-boy, rebento da escola do economista americano Milton Friedman, parecia acreditar que teria condições de “converter” o político corporativista ao ideário liberal. Até o momento, como ficou evidente na demissão do presidente da Petrobrás e nas pressões sobre o presidente do Banco do Brasil, é o fundamentalista, de matiz religioso, quem está “absorvendo” o técnico liberal.

Os críticos de Bolsonaro mencionam as “guerras culturais” — ideológicas — que o bolsonarismo vem (pro)movendo, com o apoio do filósofo Olavo de Carvalho, entre outros, com ampla presença e força influenciadora nas redes sociais. Tais intérpretes têm razão: o bolsonarismo, ainda que careça de definições mais precisas e agudas, não está jogando sem uma ideologização planejada. Tanto que mantém ligações com forças de direita de outros países, notadamente dos Estados Unidos. Steve Bannon, ex-guru do ex-presidente Donald Trump, mantém ligação estreita com os filhos de Bolsonaro, principalmente com Eduardo Bolsonaro e Carlos Bolsonaro (o senador Flávio Bolsonaro adota uma linha menos programática e mais pragmática, como sua recente opção por comprar uma casa de 6 milhões de reais num bairro chique de Brasília).

Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores, o filósofo Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro: três mosqueteiros da direita patropi | Foto: Reprodução

Tentemos uma interpretação mais pessoal de Bolsonaro. Nascido em Glicério (São Paulo), em 21 de março de 1955, há quase 66 anos, o presidente é um caubói de Marlboro. Uma espécie de “latin lover”, mais “latin” do que “lover”, quiçá. Apaixonado pela violência das palavras — que são facas só lâminas —, talvez pelo impacto que causa, é um John Wayne da política dirigido, a distância, pelo John Ford da filosofia e do guruísmo, Olavo de Carvalho, o “pistoleiro” verboso da Virginia. Os dois se “seguem”, às vezes com rebeldia de ambas as partes. O guru tem peso, mas muito mais quando se trata de Eduardo Bolsonaro e Carlos Bolsonaro, que são os verdadeiros discípulos das ideias fundamentalistas do filósofo conservador.

O que se tem percebido é que ninguém — nem os militares, nem o agora rebaixado a Posto Tabajara (Paulo Guedes) — controla Bolsonaro. O que une o presidente a Olavo de Carvalho é a linguagem violenta e de densa conotação sexual — o que talvez revele uma sexualidade à deriva, ou problemática — e o anticomunismo visceral. As ideias do filósofo da Virginia não são assimiladas pelo presidente, exceto quando lhe são uteis para o combate à esquerda (seria toda comunista, o que não é fato, mas passa como tal) e à Imprensa. Olavo de Carvalho é menos chucro do que parece e do que intelectuais de esquerda tentam fazer crer (a criação de uma legião altamente conectada de seguidores, um verdadeiro exército de direita, precisa ser mais estudada). Mas, como quer interferir no dia a dia da política, optou por simplificar suas ideias, sobretudo com a introdução de palavrões — com a intenção de “chocar” e “desmoralizar” possíveis oponentes e criar discurso para ser ampliado nas redes sociais — e de frases de efeito.

Cemitério em Manaus | Foto: Reprodução

Se Bolsonaro não é controlável — ou inteiramente controlável (na aproximação com o Centrão ouviu a voz da razão dos ministros militares) —, se não segue à risca o que lhe recomenda Olavo de Carvalho e outros, como verdadeiramente se orienta? Quanto do que Bolsonaro diz e faz é produto de “intuição” e de “racionalismo”? Não dá para responder sem pesquisas detidas. Há um fundamentalismo religioso e um conservadorismo político retardatário na fala do presidente que precisam ser mais bem examinados. Dá para saber o quanto ele acredita no que diz ou se diz para obter apoio político de uma parte da sociedade brasileira que não se sente representada, em termos políticos e de comportamento, nem pela esquerda nem pelo centro? A impressão que se tem é que parte é “intuição” e parte é “planejamento”. Porque Bolsonaro é uma espécie de alpinista político — que, para “subir”, vai se agarrando em determinadas ideias, que, a rigor, talvez nem compartilhe, mas são funcionais para robustecê-lo em termos de poder. Nacionalista, até por ter passado pelo Exército, o presidente certamente é. Mas a história de “Deus acima de todos”, um fundamentalismo marqueteiro, é um instrumento para obter apoio do público religioso — notadamente do evangélico, mas também dos católicos mais conservadores. E, claro, um jab de direita na esquerda — que seria ímpia.

Poucas vezes no Brasil o discurso conservador ganhou tanta repercussão social quanto com o grupo político de Bolsonaro. Em termos de comunicação, o bolsonarismo é mais moderno do que parece. Tanto que, com rara habilidade, praticamente ganhou a “luta” contra a esquerda na disputa de 2018. Isto demonstra certa elaboração, o que não significa, necessariamente, refinamento ou diplomacia civilizada. O bolsonarismo atua de maneira incisiva nas redes sociais, com ideias não muito sofisticadas, mas de grande eficácia. Pode-se sugerir que, em termos de relacionamento com o público, o bolsonarismo renovou o conservadorismo patropi.

Mas retomemos o homem Bolsonaro — um chefão, líder de uma legião. O presidente, indivíduo e líder, encarna o “machão”, o homem que pode até sofrer, mas não morre — nem esfaqueado (sua teoria conspiratória: a esquerda está por trás do atentado — quando a Polícia Federal vasculhou tudo e concluiu que um lobo solitário, maluquíssimo, foi o responsável pelo crime) nem de Covid-19. O fato de não usar máscara, de desafiar a morte, a Velha Senhora — e os mensageiros da morte —, simboliza que, acima de tudo, o político é praticamente “imortal”, portanto um exemplo para outros machões. É possível que muitos homens, quem sabe a maioria, pensem como Bolsonaro. Pode-se duvidar disto, mas é possível que, de algum modo, o presidente seja uma figura inspiradora. Nas ruas, é fácil verificar mais mulheres usando máscaras do que homens. Depreende-se que há uma identificação entre o líder máximo e as pessoas, sobretudo homens.

Levantamento do instituto Paraná Pesquisas — ouviu 2.080 eleitores, em 196 cidades dos 26 Estados e Brasília, entre 25 de fevereiro e 1º de março — indica que os homens apreciam mais Bolsonaro. Segundo a revista “Veja”, que divulgou a pesquisa, “55,1% dos homens aprovam o governo Bolsonaro e 41% desaprovam. Já entre as mulheres, apenas 38,5% aprovam, enquanto 56,1% desaprovam. Em relação à eleição presidencial de 2022, no principal cenário pesquisado, Bolsonaro tem 39,3% das intenções de voto entre os homens e apenas 25,2% entre as mulheres. No caso delas, os votos migram principalmente para Fernando Haddad (PT) — que tem 12,1% dos votos com elas e 8,8% com os homens — e para Luciano Huck, que tem 10,1% no eleitorado feminino e 5,7% no masculino”.

Os homens são mais conservadores e as mulheres mais progressistas? Talvez os homens, parte significativa deles, se identifiquem com o caubói de Marlboro — o durão, de caráter primevo, representado por Bolsonaro.

A República dos Cemitérios dos tristes trópicos

Os historiadores falam de República Velha e de Nova República. Como será vista, daqui a alguns anos, quando se tornar um rodapé da história, como o presidente Eurico Gaspar Dutra, a República de Bolsonaro? É provável que, dado o número de mortes — se nada for feito rapidamente, chegará a meio milhão —, se tornará conhecida como República dos Cemitérios.

As fotografias de cemitérios, com várias covas abertas, à espera de mais mortos, são um escândalo e refletem o caráter de escassa responsabilidade do presidente Bolsonaro com a vida das pessoas.

É provável que, devido à crise econômica — em parte provocada pela pandemia do novo coronavírus e em parte gerada pela inércia do governo federal —, muitos prefeitos, ao fim dos quatro anos de governo, terão pouco a mostrar à sociedade. Alguns deles talvez sejam lembrados por terem construído novos cemitérios ou ampliado os velhos.

Na sua guerra ideológica contra inimigos visíveis e invisíveis — a maioria —, Bolsonaro não está percebendo que se tornou um jogador contra a vida. Seus aliados, que deveriam alertá-lo a respeito do buraco que está cavando para enterrar sua história, agem de maneira equivocada, defendendo-o de maneira irracional e, até, irresponsável. Quem quiser se postar como verdadeiro aliado do presidente tem de dizer que, no combate à pandemia, ele está equivocado e que precisa adotar outra posição — a da ciência, da civilização. Alguns generais, que têm alguma ascendência sobre ele, deveriam sugerir que a vacinação em massa, uma demonstração de que a vida das pessoas importa, poderá lhe render mais apoio eleitoral em 2022.

Se ouvir apenas aqueles que o adulam, por interesse ou falta de percepção do quadro real do país, Bolsonaro poderá se tornar, em 2022, não um candidato a ser reeleito, e sim o coveiro de milhares de brasileiros. Um Caronte dos tristes trópicos.

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