Apoio do homem Chico Buarque a Dilma Rousseff não diminui o artista. Brasileiro precisa ser tolerante

O compositor e cantor tem o direito de apoiar a presidente petista, assim como as pessoas têm o direito de criticá-lo. O que se deve condenar é a intolerância que está tomando conta do país

Dilma Rousseff e Chico Buarque: a política é honesta, mas o governo petista é corrupto; o artista tem o direito de apoiá-la e é ilícito criticá-lo, mas ataques rasteiros não são críticas | Divulgação

Dilma Rousseff e Chico Buarque: a política é honesta, mas o governo petista é corrupto; o artista tem o direito de apoiá-la e é ilícito criticá-lo, mas ataques rasteiros não são críticas | Divulgação

A seguir, o leitor terá um pequeno painel do que parte da esquerda, no poder, fez com criadores artísticos da maior importância na União Soviética e um comentário sobre a arte do cantor, compositor e escritor Chico Buarque e sua ligação com o PT da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula da Silva.

Quando o poeta russo Sierguéi Iessiênin se matou, aos 30 anos, em 1925, o poeta Vladímir Maiakóvski lamentou e escreveu um belo poema. Cinco anos depois, quando estava prestes a completar 37 anos, Maiakóvski também se suicidou. Bardo inquieto, experimental, desde cedo acreditou na Revolução Russa de 1917 e pôs-se a serviço de sua legitimação na sociedade. Era um apóstolo de que era possível elevar a perspectiva cultural dos soviéticos — dando-lhe o que havia de melhor na cultura ocidental. Fez cartazes e pregações — era socialista de corpo e alma. Era um idealista — quiçá ingênuo. Ao descobrir que sua arte libertária, exigente, era depreciada e até rejeitada pelos bolcheviques ortodoxos — tudo que não era visto como necessariamente engajado era apontado como contrarrevolucionário —, em 1930 estava no poder o ditador sanguinário Óssip Vissariônovitch Djugachvíli, mais conhecido como Stálin (que significa homem de aço), desistiu de viver. Legou-nos uma obra poética de alta qualidade. Parte de seu acervo poético — este, sim, mais revolucionário do que os bolcheviques — pode ser apreciado no livro “Poesia Russa Moderna”, com tradução de Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.

Depois de 1930, os criadores artísticos passaram a ser, cada vez mais, alvo de uma política (não só cultural) insana, populista e, até, terrorista. Maksim Górki, admirado pelos russos, morreu em 1936 — teria sido envenenado por aliados de Stálin —, aos 72 anos. Óssip Mandelstam tinha o hábito de elaborar poemas, mas sem anotá-los. Uma vez, sem nenhuma anotação, declamou para amigos um poema sobre os bigodes de barata de Stálin e criticou sua política totalitária. Um dos ouvintes anotou e levou o poema ao KGB e a polícia secreta informou ao ditador, que mandou prender o vate. Em seguida, ligou para o poeta Boris Pasternak e perguntou se Mandelstam era um grande poeta. O futuro autor do romance “Doutor Jivago” admitiu que era, mas, sem se alongar, sugeriu que precisava conversar com Stálin… sobre a vida e a morte. O bolchevique, o sr. da vida e da morte na União Soviética, desligou o telefone e não mais atendeu o escritor. Em 1938, aos 47 anos, Mandelstam morreu num campo de trabalhos forçados. Tinha tifo e estava famélico. Deixou uma obra importante, anotada por sua mulher, Natália Mandelstam, que era dotada de uma memória extraordinária. Parte de sua história, quase do mundo do fantástico, pode ser aferida no livro “As Esposas — As Mulheres nos Bastidores da Vida e da Obra de Prodígios da Literatura Russa”, de Alexandra Popoff.

Isaac Bábel é um contista tão extraordinário, ainda que diferente, quanto Anton Tchekhov. Vale a pena ler “O Exército de Cavalaria”, brilhantemente traduzido e apresentado por Aurora Bernardini e Homero Freitas de Andrade, com o acréscimo de textos de Otto Maria Carpeaux e Boris Schnaiderman. Sem se importar com as qualidades literárias de Bábel, com sua relevância para a literatura russa e universal, Stálin e seus acólitos mandaram fuzilá-lo em 1940. Tinha apenas 45 anos e deixou uma obra ímpar, cada vez mais lembrada e estudada na e fora da Rússia.

Mikhail Bulgákov é autor de um dos mais celebrados romances do país de Púchkin, “O Mestre e Margarida”, traduzido para o português, direto do russo, por Zoia Prestes, filha de Luís Carlos Prestes. Bulgákov, dramaturgo e prosador, era admirado por Stálin, mas este impediu que publicasse o romance. Desesperado, proibido de publicar e de encenar suas peças, o escritor morreu em 1940, aos 48 anos. A poeta Marina Tsvetáieva se matou, em 1941, aos 46 anos. Seu marido, Sierguéi Efron, foi fuzilado e uma filha, Irina, morreu de fome. Ela não resistiu a tanto sofrimento e, perseguida pelo stalinismo, desistiu de continuar viva.

Em 1940, agentes de Stálin treinaram o espanhol Ramón Mercader e o enviaram para o México, onde matou o maior crítico das políticas stalinistas, Liev Trotski. Ramón Mercader, depois que saiu da prisão, viveu como herói socialista na União Soviética e em Cuba. O romance histórico “O Homem Que Amava os Cachorros”, de Leonardo Padura, ilumina a história do criminoso que matou o homem que quase sucedeu Lênin, em 1924. Só não o conseguiu porque Stálin era um organizador nato e havia tomado conta do partido. Quando Trotski “acordou”, Stálin era o dono da União Soviética.

O crítico e tradutor Boris Schnaiderman é autor de um livro, “Os Escombros e o Mito — A Cultura e o Fim da União Soviética” (espécie de “Arquipélago Gulag” da cultura), no qual mostra, com exemplos fartos, o que a esquerda stalinista fez com os criadores artísticos. O regime prendia, torturava e matava prosadores, poetas, artistas plásticos, diretores de cinema, entre outros. O realismo socialista impedia a publicação de obras literárias ou históricas que contrariavam o ideário do Partido Comunista. Boris Pasternak teve de publicar o romance “Doutor Jivago”, pela Editora Feltrinelli, na Itália. Na Rússia era proibido. O mesmo aconteceu com a obra-prima “Vida e Destino” (a Alfaguara publicou uma edição categorizada, com tradução, direta do russo, de Irineu Franco Perpétuo), de Vassili Grossman. O livro — “Guerra e Paz” do século 20 — só foi editado depois da morte do escritor e trata das agruras da Segunda Guerra Mundial.

O que se apresentou acima é o que a esquerda da União Soviética fez com alguns de seus mais importantes artistas — o que levou a União Soviética a não ter, digamos, um Tolstói e um Tchekhov no século 20. Em regimes ditatoriais, de esquerda e de direita (caso de Adolf Hitler, na Alemanha), artistas, escritores e intelectuais não são apenas xingados. São mortos e torturados.

Chico Buarque

Há quem acredite que o Brasil não deu certo. É um grande engano. Deu certo um país que gerou Machado de Assis, Monteiro Lobato, Guimarães Rosa, Graci­liano Ramos, Clarice Lispector, Bernardo Élis, Afonso Félix de Sousa, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto — na literatura —; Guiomar Novaes, Villa-Lobos, Noel Rosa, Mário Reis, Orlando Silva, Bidu Sayão, Carmen Miranda, Dolores Duran, Dorival Caymin, Ataulfo Alves, Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, João Gilberto, Tom Jobim, Nelson Freire, Arnaldo Cohen, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque — na música —; e Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Raymundo Faoro e José Guilherme Merquior — no campo intelectual.

Filho de Sérgio Buarque de Holanda, da tradição dos historiadores-pensadores, Chico Buarque é um fenômeno cultural que parecia consensual, mas, ante suas posições políticas, começou a ser “atacado” nas redes sociais e, mesmo, em textos mais elaborados de intelectuais e jornalistas da direita. Examinar sua obra musical e literária a partir de suas opiniões políticas — com um eclipse da avaliação estética e deixando de sopesar com um pouco de abertura as ideias políticas que impregnam sua arte — não dará resultado algum. A política pode ajudar a entendê-lo, mas não explica o artista-criador de maneira ampla. Aliás, o Chico Buarque político precisa também ser examinado para que se verifique de que tipo de socialista se trata. Fora as posições externadas, parece ter pouco a ver com o socialista tradicional. Seria um socialista, por assim dizer, “róseo” — um bon vivant, na prática, e um homem de esquerda em termos exclusivos de ideias ou imaginação?

Na ditadura, Chico Buarque fez uma música sofisticada, e não apenas porque tinha de driblar a censura, mas sobretudo porque é um esteta refinado. Na época, muitos esquerdistas preferiam a poesia mais crua de Geraldo Vandré e Taiguara, menestréis do balacobaco, à elaboração estética do autor de “Construção” e “Fado Tropical” (espécie de hino alternativo ao hino nacional). Ainda assim, mesmo interpretado parcialmente — quase tão-somente como o artista que, com sua música, queria fustigar e, até, derrubar a ditadura —, era amado e idolatrado pelas esquerdas e abominado pelos setores mais radicais da direita. A direita inteligente, mais liberal, sempre apreciou sua música.

O que Chico Buarque conseguiu, e com isso perenizou (se perenizou) sua arte, foi fazer arte engajada, mas não apenas engajada. Deu-lhe um revestimento experimental, uma linguagem elaborada — transformando em arte aquilo que para muitos então (e menos hoje) era apenas política. A sobrevivência de sua música, a feita durante a ditadura, se deve à sua intensa capacidade de submeter a política à estética, de fazer a política comer na mão da arte. Muitas músicas do período ficaram datadas, tragadas pela voracidade do tempo, mas a arte de Chico Buarque, ao menos grande parte de sua música, sobreviveu e, quem sabe, vai perenizar-se (talvez se torne um clássico como Villa-Lobos). O curioso é que poucos, exceto os críticos que se debruçam detidamente sobre sua música, percebem que, enquanto criticava o regime militar, o autor de “Mulheres de Atenas” e “Olhos nos olhos”, também falava de amor, de sua possibilidade em quaisquer circunstâncias. A presença do belo é constante na obra de Chico Buarque. A ditadura era um de seus temas, dos principais, mas não o único.

Com o fim da ditadura, que era a pedra bruta que o artista precisava lapidar, Chico Buarque mudou sua maneira de compor. Tornou-se mais intimista, registrando o cotidiano de maneira mais estreita. Curiosamente, faz uma música refinada, incorporando novas faturas, novas linguagens e temas, mas a maioria das pessoas ainda menciona as músicas “antigas”, o que prova que estão “novas”, “vivas”. O que se precisa é de uma nova “abertura” para entender as outras facetas de sua música mais recente.

O Chico Buarque autor de livros de literatura vai ser comentado brevemente. Vale mais ler o que Roberto Schwarz, o especialista em Machado de Assis, escreveu sobre sua literatura, percebendo, destacando e situando sua importância. Não se trata, logicamente, de um prosador da qualidade de Machado de Assis, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Por sinal, embora deva alguma coisa aos prosadores patropis, é provável que deva muito mais aos autores do noveau roman francês. Seus romances, como “Benjamin”, “Estorvo”, “Budapeste” e “O Irmão Alemão”, ainda não têm uma fortuna crítica alentada. Aqui e ali, a crítica tem apontado uma certa falta de imaginação, mas praticamente todos realçam que escreve muito bem. É um escritor consumado. Sua obra literária está em fase de avaliação, mas ainda não há consensos — sim, no plural, dos favoráveis e dos contrários — a respeito de seu lugar na literatura brasileira. Em andamento, com a possibilidade de surgir ou de não surgir grandes novidades, sua obra precisa do teste do tempo. Até agora, a qualidade é média.

Ao lado do compositor, cantor (acrescente-se que algumas de suas músicas só funcionam na sua voz, que não é das melhores) e escritor (romancista, dramaturgo), há o Chico Buarque político. Assim como o pai, Sérgio Buarque de Holanda, fundador do PT, em 1980, o artista permanece de esquerda e, volta e meia, aparece publicamente para defender suas causas. A atual é a presidente Dilma Rousseff. Ele é contra o impeachment e, provocado nas ruas, chegou a “atacar” o PSDB, que também seria “bandido” (seria uma justificativa inconsciente ou consciente para o suposto banditismo do PT?). Nada mais, tudo indica, do que uma briga de rua, na qual os conflitos perdem nuances e fica tudo muito igual.

Chico Buarque sabe que o PT criou e aprofundou uma corrupção que já existia — a turma que criou o mensalão petista ajudou a criar o chamado “mensalão mineiro” —, mas não aceita que a presidente Dilma Rousseff seja corrupta e, por isso, deva ser substituída. É provável que a petista-chefe não seja corrupta diretamente, mas seu governo é ou era corrupto — não há a menor dúvida — e conviveu bem com o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e convive sem arestas com o presidente do Senado, Renan Calheiros. Se é assim, Chico Buarque está errado e seus críticos estão certos? Na questão da corrupção, não há o que discutir: o PT comanda um dos governos mais corruptos da história do país e Chico Buarque não apresenta nenhum argumento convincente para rebater isto. Ah, o PT deu dinheiro aos pobres. Quer dizer que roubar para dar aos pobres, criando uma espécie de Robin Hood tropical, é justo? Não é, claro. E mais: não se está roubando para doar aos pobres, e sim para se produzir fortunas particulares tanto no Brasil quanto no exterior.

Apesar do equívoco de Chico Buarque, seus críticos deveriam ser mais tolerantes com sua opinião. Se ele aprecia Dilma Rousseff, além de Lula da Silva, qual mal há nisto? Nenhum. Criticá-lo é justo, mas agredi-lo — embora a crítica nem sempre seja agressão antidemocrática — não é. É importante, para o jogo democrático, que as pessoas tenham suas opiniões, que elas sejam discutidas e toleradas — o que não é o mesmo que aceitas, acatadas.

Chico Buarque e Lula da Silva numa fotografia quando os dois ainda eram mais jovens. A aliança entre o artista e o petista é antiga e, por certo, o autor de “Construção” pretende mantê-la. Ao fundo, também brindando, aparece Frei Betto, religioso de esquerda e amigo íntimo do petista | Divulgação

Chico Buarque e Lula da Silva numa fotografia quando os dois ainda eram mais jovens. A aliança entre o artista e o petista é antiga e, por certo,
o autor de “Construção” pretende mantê-la. Ao fundo, também brindando, aparece Frei Betto, religioso de esquerda e amigo íntimo do petista | Divulgação

O equívoco principal é tomar o Chico Buarque que “ama” o PT de Dilma Rousseff e Lula da Silva por sua arte, que são completamente diferentes. Sua música não é uma “merda” — ao contrário do que propalam as redes sociais. Agora, se sua posição política é equivocada, a partir do julgamento de outros avaliadores, devemos apontá-la, mas sem achincalhar o homem e o artista. Chico Buarque permanece grande, apesar de sua tolerância com os petistas e, até, com a corrupção deles. Talvez sua adesão ao petismo, e sua defesa quiçá não racionalista da presidente, diminui o homem, mas o artista continua grande e, aparentemente, ilimitado. Mas, ao criticar o homem, por sua posição política divergente, devemos insinuar que não se trata de um cidadão decente? Até onde se sabe, Chico Buarque é um cidadão da maior decência. Sua indecência, se há, é meramente política.

Apreciar a literatura do francês Louis-Ferdinand Céline significa aceitar seu fascismo antissemita? Não. Sua prosa literária, altamente inventiva, é de primeira linha e influencia, direta ou indiretamente, a prosa moderna — como a de James Joyce, a deste, é claro, mais aceita. Isto não sugere, porém, acatar e respeitar as diatribes políticas do homem.

De que precisamos em tempo de opiniões cada vez mais livres, com redes sociais poderosas e dinamitadoras? De tolerância com a divergência. Parece pouco, mas é muito. É o essencial numa sociedade democrática…

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Claudio De Oliveira Afonso

Tolerante com apoiadores de bandidos? Meio impossivel, pelo menos pra mim.Esse chico , todos consideram um gênio, pra mim ou é burro, analfabeto politico ou mal intencionado. Acho que as duas opções.Vendido, vagabundo, safado, bebado, merece uma cusparada na cara, tal como fez com o Millor Fernandes.

Augusto Cesar

Falou tudo!

Erik Jubé

A tolerância com a corrupção como esse editorial prega e incentiva é um dos maiores motivos para a nossa incapacidade de nos tornamos um pais sério e moderno. Fechar os olhos para o mal que nossos auto intitulados “intelectuais” fazem com essas posições políticas cínicas e subdesenvolvidas é nosso karma… Fidalgos mesmo no século XXI ainda são protegidos e mimados mesmo quando espalham desinformação e atraso social … Não há unanimidade na vida e no mundo das artes ajudar a propagar corrupção não é um legado que artistas milionários deveriam deixar para a História…

Amarilio Alencar

Foi por conta dessa classe de tolerância que Hitler foi escolhido Chanceler e, juntamente com seu partido, fez o que fez!

Amarilio Alencar

O apoio de apedeutas aos integrantes do PT é até compreensível, mas o de pessoas ditas inteligentes e cultas, como o Chico e o Jô é o cúmulo! A defesa de bandidos por esses ícones, com certeza, oculta motivos execráveis.