Allan dos Reis matou Fernanda para roubar e por rejeitar sua identidade de mulher bem-sucedida

Aos 33 anos, Fernanda de Souza Silva era gerente de um hipermercado, uma mulher independente e estruturada. O homem que a matou era desocupado e mau

As mudanças tecnológicas, cada vez mais rápidas — o que permite o permanente aquecimento do mercado, o que deixaria Karl Marx surpreso com o processo veloz de obsolescência dos produtos —, sugerem uma modernização geral e global da sociedade. Mas, em termos de mentalidade, não é bem assim. Para além das questões de Estado — que envolvem disputas territoriais e por controle de, por exemplo, petróleo —, há os crimes cometidos, de maneira brutal, por organizações criminosos e, também, por indivíduos isolados. Mata-se muito, apesar do avanço dito civilizatório das comunidades. Há um certo exagero no que se vai sugerir, mas, de alguma maneira, há uma “guerra” não declarada contra as mulheres. Homens — maridos e namorados, ex-maridos e ex-namorados — matam milhares de mulheres todos os anos, em todos os lugares do mundo, não apenas no Brasil, é claro.

Numa contenda física, as mulheres são, às vezes, mais frágeis, principalmente são bem mais pacíficas. Entretanto, mesmo que não fossem, os homens são, no geral, mais hábeis e agressivos no uso de facas e revólveres. Quando se trata de agredir uma mulher, avaliam que não têm limites e que podem tudo. Julgam-se donos delas, de seus corpos e, por isso, “podem” fazer o que quiserem — inclusive queimar, mutilar e matar. Depois, quando presos, arranjam as desculpas de praxe: “traiu”, “xingou”. Mesmo agredidas e violentadas, é como se algumas mulheres não pudessem sequer abandonar seus algozes. Recentemente, um motorista de aplicativo assediou uma adolescente, que explicou que era “menor” e se disse incomodada com seu comportamento. Ela gravou a conversa e o denunciou. Ao ser entrevistado, o homem disse que a jovem estava vestida com um short tão curto quanto os da cantora Anita. Explicação mais estapafúrdia certamente não há. Mas é assim que muitos homens — felizmente, não mais a maioria — pensam, ou seja, que as mulheres, se estiverem com roupas curtas, estão sugerindo que querem “transar”. Transformam seu desejo em “fato”. Porque seu desejo — ou tara — é o que importa.

As mulheres são cada vez mais bem-sucedidas no campo profissional. Resulta que se tornaram independentes. Não precisam pensar e agir como os maridos e namorados. Ganharam autonomia num mundo em que a força bruta não é, no mais das vezes, mais tão necessária. As máquinas, que inclusive podem ser dirigidas por mulheres, transformaram o trabalho, que era pesado, acessível a todos. A autonomia das mulheres, tanto em termos financeiros quanto de pensamento, incomoda alguns homens, que, na melhor das hipóteses, tentam depreciá-las com piadinhas, e, na pior das hipóteses, partem para a agressão, chegando a agredi-las e, até, a matá-las. O que certos homens parecem não entender é que a mudança de mentalidade — que colocou a mulher em igualdade de condições — é incontornável, não há como impedi-la. E, mais, a mudança vai avançar ainda mais, porque, em regra, as mulheres são mais abertas às inovações e menos contenciosas. O mundo masculino tem duas opções: suaviza-se — conectando-se ao avanço feminino, entendendo que um mundo civilizado é útil para todos — ou continua irmanado à barbárie. No momento, ocorre que as mulheres — a maioria delas — já vivem num mundo mais tolerante e solidário. Mas parte dos homens ainda não aceita que um novo mundo está se tornando hegemônico. Agredir e matar mulheres não vai “segurar” a mudança…

Allan dos Reis e Fernanda de Souza Silva

Matando a diferença

Na terça-feira, 12, Allan Pereira dos Reis, de 25 anos, matou Fernanda de Souza Silva, de 33 anos. Ela era gerente do hipermercado BIG, em Goiânia. Ocupava um cargo importante e era uma pessoa respeitada na sua família, na cidade de Bela Vista de Goiás e na empresa na qual trabalhava. Era uma executiva bem-sucedida e admirada pelos colegas de trabalho e amigos. Era uma chefe que se impunha pela competência e pelo respeito. No dia a dia, era uma pessoa de rara candura. Os amigos dizem que era bonita, delicada e modesta, sempre tratando bem as pessoas. Para economizar, saía de sua casa em Bela Vista em seu automóvel, um Uno vermelho, e o deixava nas proximidades de um ponto de ônibus. Em seguida, pegava um ônibus para trabalhar em Goiânia — cidade que fica a poucos quilômetros de Bela Vista.

Dada sua simplicidade e simpatia, Fernanda aceitou namorar com Allan dos Reis, que, inicialmente, era carinhoso. Aos poucos, passou a se mostrar ciumento. Há quem acredite que ter ciúme é demonstrar interesse — amor — pela outra pessoa. Em parte, pode ser. Na maioria das vezes, é sinônimo de desejo de posse. (Aceitar que Allan dos Reis matou a jovem por ciúme é praticamente uma justificativa para o crime. Um desrespeito a Fernanda e ao bom senso.) É possível que, ao perceber o caráter de Allan dos Reis — um jovem que não parava em empregos, e era até suspeito de roubar seus patrões —, Fernanda tenha se manifestado pelo fim do relacionamento.

É provável que — um amigo conta que tinha o hábito de postar-se nas margens do lago de Bela Vista à procura de mulheres para paquerar, mesmo quando era casado (a mulher o deixou, com dois filhos, um deles de quatro meses, por causa de adultério) —, Allan dos Reis tenha visto Fernanda como uma espécie de seu “pote de ouro” ou seu “banco”. Só que, atenta e perspicaz — “de bem com a vida”, dizem os amigos e familiares —, a jovem deve ter percebido, aos poucos, que o don juan de beira de lago não era a pessoa adequada para si.

Possivelmente desmascarado, Allan dos Reis decidiu matar Fernanda. Na sua boa-fé — era um “livro aberto”, disse uma amiga —, Fernanda aceitou acompanhá-lo, no dia do crime. Ele enforcou-a e, em seguida, matou-a pauladas (queimou e enterrou o corpo, no dia seguinte ao assassinato, para que não fosse descoberto e, se encontrado, dificultar a identificação). Quer dizer, o assassino tratou um ser humano como “lixo”.

Depois de matar Fernanda, o que prova sua frieza e periculosidade, Allan dos Reis usou seu carro para levar a ex-mulher e dois filhos — ele era pai de quatro filhos, que não sustentava de maneira ampla— a um shopping, onde fez compras. Sim, compras com o cartão de Fernanda. Chegou a usar seu celular. Além de matá-la, roubou-a. Feminicídio? Latrocínio? O crime precisa ser tipificado, é claro. Mas a palavra precisa, mesmo se fora do campo jurídico-judicial, é assassinato (e premeditado), acompanhado das palavras “brutal” e “bestial”.

Ao ser preso, o don juan de beira de lago decidiu se passar por vítima — e ainda, possivelmente, sem a orientação de advogados. Ele disse que Fernanda havia chamado seus filhos de “bastardos”. Curiosamente, Allan dos Reis praticamente não ajudava os filhos. Fernanda adorava crianças e certamente não chamou os filhos do criminoso de “bastardos”. Allan dos Reis estava tentando “criminalizar” quem morreu, arranjando uma justificativa fajuta para justificar o assassinato — quando, na verdade, não há nenhuma plausível. Ele sequer foi “agredido” por Fernanda.

Preso, por saber que ficaria quase duas décadas numa penitenciária, Allan dos Reis disse à polícia: “Eu tô arrependido, acabei com minha vida”. Suas palavras foram objetivas e abjetas: não estava “arrependido” porque matou Fernanda, e sim porque “acabou” com sua própria vida e perderia parte de sua juventude na cadeia. Quer dizer, na prática, o don juan de beira de lago e ponto de ônibus, não estava arrependido. Fernanda era um “empecilho” e Allan dos Reis o eliminou. Tratava-se de um ser egoísta e brutal. Ele só pensava em si — daí avaliar que pode “descartar” as pessoas, como “descartou” a jovem de Bela Vista. Não é porque morreu — suicídio, possivelmente — que deve ser tratado como santo e luvas de pelica.

Allan dos Reis teria matado aquilo que rejeitava, cotidianamente: decência, seriedade e amabilidade. Fernanda era tudo aquilo que ele não era. Ela era amiga, solidária, companheira. O criminoso não “perdoou” sua bondade, seu caráter sólido.

Uma irmã de Fernanda, Vilma de Souza, disse o que está na boca das pessoas: “Estamos todos inconformados”. Em seguida, de maneira simples mas filosófica, acrescentou: “Queremos que a Justiça seja feita e ele tenha consciência da monstruosidade que fez”. Consciência, Allan dos Reis tinha. O que ele não tinha é respeito pela vida humana. É daqueles que, na penitenciária, tendem a brigar e a esfaquear rivais com chucho. Ao se matar, como tudo indica, deixa a sugestão de, entre cumprir sua pena, optou por “não sofrer” (sofreu, certamente, por alguns minutos ou horas, ao se enforcar — como, aliás, havia feito com Fernanda).

Aqui e ali, ouve-se: “Como Fernanda foi se envolver com um homem como Allan dos Reis?” As pessoas dizem isto não para julgar Fernanda, e sim porque consideram que, sendo uma boa pessoa, não deveria ter se envolvido com o don juan de beira de lago. Mas Fernanda teve alguma culpa? Nenhuma. Ela era uma pessoa de boa-fé, dessas que avaliam que viver bem, de maneira entrosada com as pessoas, é não aderir a certa paranoia reinante… Era feliz e buscava mais felicidade. Queria amar e ser amada, talvez constituir uma família. Ela simplesmente confiou em quem não podia e não devia acreditar. Mas quem tem bola de cristal que realmente funcione? Ninguém. Jesus Cristo, que também morreu aos 33 anos, foi traído por Judas Iscariotes. Assim como Fernanda, de 33 anos, foi traída por Allan dos Reis.

Uma resposta para “Allan dos Reis matou Fernanda para roubar e por rejeitar sua identidade de mulher bem-sucedida”

  1. Ricardo Lopes Esteves disse:

    Excelente texto, difícil tipificar o crime entre latrocínio ou femminicidio, eu sustentaria a tese de femminicidio por todos os elementos que vocês levantaram, como as características do agressor, da vítima e da brutalidade do ato. Queria pontuar duas coisas: jornalismo com tanta qualidade não é algo fácil de se encontrar; segundo, eu não penso que as mudanças tecnológicas no capitalismo tardio estejam necessariamente em dissonância com comportamentos machistas, muito pelo contrário, o capitalismo precisou de uma estrutura patriarcal para se desenvolver e o Brasil estando na periferia do capitalismo (e Goiânia na periferia do Brasil) nada mais esperado.
    Parabéns pelo trabalho!

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