280 mil mortos “pedem” clemência ao empresário Sandro Mabel

O ex-deputado tem de se inspirar no exemplo da empresária Luiza Trajano, que lidera um movimento pra melhorar a saúde dos brasileiros

A saúde pública não deve ser conectada à questão político-partidária. A vida não tem partido e nem estepe (é única). Por isso chega a ser criminoso seu uso — sobretudo quando se trata de uma pandemia que já ceifou a vida de 280 mil brasileiros e vai ceifar muito mais — em termos eleitoreiros. Vários empresários decidiram contribuir para o combate à pandemia do novo coronavírus. Sem fazer discurso, e com escasso alarde, o Banco Itaú-Unibanco doou 1 bilhão de reais (por causa da “absoluta consciência da gravidade da crise). Votorantim, BTG Pactual, BRF também doaram milhões de reais.

Cemitério em Manaus | Foto: Reprodução

Há empresários conscientes de que, no lugar de fazer política — de pensar na disputa eleitoral de 2022 quando pessoas morreram em 2020 e estão morrendo em 2021 —, é preciso unir forças para combater a pandemia. No lugar de meramente formular discursos, contribuindo para conflagrar pessoas nas redes sociais — ambiente altamente contaminado por fake news —, a empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiz, lidera um grupo que trabalha para salvar vidas. Trata-se, pois, de uma pessoa exemplar — cujo exemplo precisa ser seguido em todo o Brasil, inclusive em Goiás. Desde já, merece uma estátua em praça pública, quiçá na porta dos hospitais que tratam pacientes contaminados pela Covid-19.

Luiza Trajano criou o movimento Unidos Pela Vacina, que, no lugar de pressionar por pressionar, age para tentar salvar vidas. A empresária e seus aliados querem fortalecer o sistema de distribuição de vacinas com o objetivo de imunizar todos — t-o-d-o-s — os brasileiros não daqui a dois anos, e sim até setembro de 2021.

Luiza Helena Trajado: estátua em praça pública | Foto: Reprodução

A sócia do Magazine Luiza frisa que os empresários não têm como comprar vacinas — ao menos neste momento. Por isso o grupo que lidera está atuando para facilitar a aquisição de insumos úteis à produção de vacinas, seringas e agulhas. Ao mesmo tempo, querem contribuir com a logística para o transporte dos imunizantes.

Numa entrevista, o CEO da EB Capital, Eduardo Melzer, disse que o “grande ativo” do Unidos Pela Vacina “não é a capacidade financeira, mas a capacidade de mobilização e trabalho”. Participam do movimento várias empresários e executivos, como Paulo Kakinoff, da GOL, Betania Tanure, dona de uma empresa de consultoria, e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Os empresários do Unidos Pela Vacina são proativos e querem agir agora. Apartidários, querem salvar vidas. Não pretendem promover e nem desgastar políticos do partido “A” ou do partido “B”. Repita-se: querem salvar vidas e, ao mesmo tempo, contribuir para o tratamento das pessoas contaminadas. Questiúnculas ficam para indivíduos mesquinhos e de mentalidade tacanha.

Candido Botelho Bracher: Itaú-Unibanco doou 1 bilhão para o combate à pandemia do novo coronavírus | Foto: Reprodução

O ministro da Economia, Paulo Guedes — um liberal com doutorado pela Universidade de Chicago, na faculdade de economia na qual pontificou Milton Friedman —, já disse que sem a vacinação em massa não haverá recuperação econômica. Portanto, os empresários conscientes, associados ao ministro, sabem que, neste momento, é preciso somar esforços para salvar vidas.

Não dá para empurrar os pobres — sim, os pobres (que, segundo o epidemiologista Pedro Hallal, deveriam ser vacinados prioritariamente) — para as ruas, para seus trabalhos, sabendo, de maneira consciente, que estão sendo levados para o “matadouro” e que, adiante, serão conduzidos para os cemitérios. Sem isolamento social — que é provisório —, milhares vão adoecer e muitos vão morrer (recentemente, um político, que havia se recuperado da Covid, acabou morrendo por uma sequela — uma tromboembolia). Não há mais hospitais — UTIs, por exemplo — disponíveis. Estão lotados. É provável que, daqui a pouco, os médicos tenham de fazer aquilo que se convencionou chamar, desde o romance do escritor americano William Styron, de a “escolha de Sofia”. Neste momento, mesmo os ricos estão com dificuldade de encontrar vagas em hospitais de alta qualidade como o Sírio-Libanês e o Einstein.

Sandro Mabel: empresário bem-sucedido, que fundou a Bolachas Mabel | Foto: Alexandre Malheiros

Pode-se sugerir que, daqui para frente e por algum tempo, não dá para falar em salvar empresas? Claro que, com o apoio do governo federal, as empresas precisam sobreviver. Franklin D. Roosevelt, na década de 1930, arrancou os Estados Unidos de uma depressão investindo dinheiro público maciçamente. Agora, o presidente Joe Biden anunciou um pacote financeiro para beneficiar os americanos mais pobres (o que tende a alavancar a economia). A pandemia vai exigir mesmo uma espécie de New Deal modernizado. O líder do Partido Democrata sabe que crucial é salvar a vida das pessoas, porque, agindo assim (restaurando a confiança das pessoas), a recuperação econômica se dará adiante — e encontrará as pessoas com mais ânimo tanto para o trabalho quanto para o investimento.

Neste momento, urge salvar vidas — é o que tem dito Luiza Trajano, a médica Ludhmila Hajjar e, mais recentemente, até Paulo Guedes. E tantos outros, como Natália Pasternak e Margareth Dalcolmo, Thiago Rangel, Cristina Toscano e José Alexandre Felizola. A economia só poderá ser “salva” se as pessoas forem “salvas”. Insista-se: não dá para “salvar” a economia sem “salvar” as pessoas.

Há uma frase de John Kennedy, que, trocando o nome do país, de Estados Unidos para Brasil, permanece atual: “Não pergunte o que os Estados Unidos podem fazer por você, mas o que você pode fazer pelos Estados Unidos”.

O que os empresários podem fazer pelos brasileiros? Como têm demonstrado Luiza Trajano e outros empresários, o objetivo é salvar vidas. E não dá para salvá-las sem isolamento social. E será o isolamento, circunstancial, que poderá levar as empresas a voltarem a atuar mais fortemente adiante.

Há empresários que querem que caminhões-caçambas — os automóveis das funerárias não serão mais suficientes — sejam concentrados nas portas dos hospitais para levar os mortos para os cemitérios? Certamente que não. Muitos deles estão preocupados com a sobrevivência de seus negócios — o que não é ilícito. Mas, insistindo, precisam entender que o isolamento social não é para sempre. Ao lado da vacina — que ainda não é suficiente para todos —, o isolamento social é, agora, crucial (é praticamente um “medicamento”) para reduzir o número de mortes. “Reduzir” — é o que se está dizendo.

Estátuas nas portas dos cemitérios

A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) é uma instituição respeitável. Seu presidente, Sandro Scodro Mabel — apesar da ligação com o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, que começou batendo carteira e terminou batendo caixa-forte —, tem uma história positiva como um dos gestores responsáveis pela Mabel, uma poderosa fábrica de bolachas e outros produtos hoje sob o comando de Pepsico (que a comprou por quase 1 bilhão de reais).

Sandro Mabel tem cobrado que o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, comece uma ampla campanha de vacinação. Numa longa reportagem, ancorada na fala abalizada do sanitarista Florentino Leônidas, formado pela UnB e especializado em políticas públicas pelo Insper, a BBC Brasil registra: “A compra e a distribuição de vacinas são de responsabilidade do governo federal”.

Gustavo Mendanha, prefeito de Aparecida de Goiânia| Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Florentino Leônidas acrescenta: “Campanhas estaduais de vacinação serão insuficientes, acentuarão desigualdades e potencializarão a descoordenação existente em relação à pandemia da Covid-19. Precisamos de financiamento federal para ter vacina para todos, logística adequada e os insumos necessários”.

Numa resposta a Sandro Mabel, Luiza Trajano foi enfática: “Acredite no que eu estou te falando, Sandro. Você não vai achar vacina para comprar neste momento. Nós estamos com um grupo atrás de vacina para comprar para o governo. Pensa em um laboratório lá na Índia que você nunca viu, até nele nós já fomos. Neste primeiro momento eles não abrem para compra a não ser para o governo federal. Daqui um mês nós vamos mudar essa realidade, mas nesse primeiro momento nós não conseguimos comprar”.

Portanto, Sandro Mabel, inspire-se em Luiza Trajano. Dos cemitérios do Brasil, e não só de Goiás, 280 mil brasileiros, mortos, “clamam” por sua clemência. Nem todos os brasileiros — os goianos aí incluídos — conseguem montar uma semi-UTI dentro de suas casas ou obter uma UTI no Einstein, no Sírio-Libanês ou no Orion. As realidades são bem diferentes. Pense nos pobres — naqueles que, durante anos, contribuíram para fortalecer seus negócios na Mabel e, agora, nos seus novos empreendimentos.

Não se deve surpreender se alguém, com irritação talvez justificada, colocar estátuas de Jair Bolsonaro, quando não for mais presidente, nas portas dos cemitérios. Sandro Mabel, um líder respeitável, tem de escolher: pode ter uma estátua na porta de hospitais ou nas praças ou uma estátua na porta dos cemitérios — ao lado da de Bolsonaro.

Aparecida de Goiânia e Gustavo Mendanha

Não há dúvida de que Gustavo Mendanha, um jovem de menos de 40 anos, faz uma gestão de qualidade em Aparecida de Goiânia. Mas, se medidas mais restritivas foram adotadas em Goiânia, a cidade vizinha, conurbada — no fundo, a capital e Aparecida são uma única cidade —, não pode adotar medidas mais liberais. Não dá para salvar vidas em Goiânia sem salvá-las no município ao lado.

Frise-se que Aparecida de Goiânia é a cidade goiana com maior incidência da Covid-19 — considerando-se municípios com mais de 100 mil habitantes.

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