A forte valorização do real, a queda do dólar para R$ 4,95 e o recorde histórico da Bolsa de Valores na faixa dos 209 mil pontos refletem um ambiente de otimismo global após as eleições brasileiras e a busca de investidores por ativos de mercados emergentes em meio às incertezas fiscais observadas na Europa.

Apesar desse cenário favorável, o economista e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Julio Paschoal, avalia em entrevista ao Jornal Opção, nesta segunda-feira, 5, que os movimentos observados nos mercados têm relação mais profunda com a manutenção de juros elevados no Brasil e com a dinâmica internacional dos fluxos de capital do que propriamente com o resultado das urnas.

O especialista afirmou não considerar a valorização recente do real um fenômeno temporário ligado apenas ao ambiente eleitoral. “Eu não creio que é um movimento pontual de especulação pós-eleitoral. Porque o que, na verdade, tem feito com que haja uma valorização do Real é a manutenção de uma política monetária restritiva, em taxas Selic que vieram durante praticamente o ano inteiro na faixa de 15%, e abaixou em duas reuniões do Copom para 13,75%, que é absurdamente alta”, disse.

Economista e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Julio Paschoal

Segundo o economista, a entrada de recursos estrangeiros não foi interrompida. “Esse fluxo de capital internacional, ele não foi cortado em nenhum momento. Pelo contrário, ele vem sendo contínuo, e o Brasil é extremamente atrativo para esse tipo de capital especulativo”, apontou.

Ele afirmou a desvalorização do dólar observada também reflete uma reação positiva dos mercados ao resultado eleitoral, mas sem alterar a dinâmica estrutural do fluxo de capitais. “Essa questão da desvalorização do dólar para R$ 4,95, isso é porque o mercado gosta, vamos dizer assim, do resultado das eleições, hoje. Mas na medida que forem passando os dias, ele vai se manter aquecido da mesma forma, independente se o Flávio Bolsonaro confirma a sua vitória ou o Lula reverte isso”, explicou.

Julio sustenta que a política monetária brasileira não é diretamente determinada pelo governo federal. “A taxa Selic não é uma situação em que o governo, seja ele com o Flávio ou com o Lula, possa interferir, porque num Banco Central [BC] independente a satisfação é dada ao sistema financeiro internacional, leia-se FMI e Banco Mundial”, disse.

Na avaliação do professor, a América Latina passou a desempenhar um papel específico na dinâmica dos fluxos financeiros internacionais. “Dos anos 70 para cá, a América Latina, América do Sul, foi escolhida para o capital especulativo. O capital produtivo, de fusão, de incorporação, de abertura de novas empresas, ele está na Ásia Central e na Índia. Um pouco na Europa. O resto é capital especulativo”, apotou.

Segundo ele, os movimentos do câmbio e das bolsas seguem essa lógica. “Ora você tem uma valorização muito forte do dólar, ora você tem uma desvalorização. E toda vez que há uma queda do dólar, você tem uma melhoria das bolsas. Quando você tem um aumento do dólar, você tem uma piora das bolsas”, comentou.

Ao ser questionado sobre a influência das eleições brasileiras na percepção dos investidores internacionais, Paschoal afirmou que o cenário externo continua sendo predominante. “Eu acho que continua a mesma coisa. Até porque, se a taxa de juros fosse controlada pelo governo brasileiro, aí poderia ter uma influência. Mas como ela é controlada pelo sistema financeiro internacional via bancos centrais independentes, não muda nada”, disse.

Ele observou ainda que a demanda por moeda estrangeira oscila ao longo do mês por conta dos compromissos financeiros internacionais das empresas. “Você tem uma procura maior por dólar entre os dias 15 e 25 ou 26 de cada mês subsequente, porque você tem que pagar os contratos, mandar os recursos lá para fora. Mas em média, você mantém a Selic alta. Enquanto a Selic estiver alta, o Brasil vai ser um porto seguro para o capital especulativo”, apontou.

Ao analisar a valorização do real frente ao euro, Julio relacionou o movimento principalmente às dificuldades enfrentadas pela Europa. Segundo ele, a França vive desafios semelhantes aos observados em outros países, envolvendo demandas sociais, empresariais e controle das contas públicas.

O economista criticou o foco excessivo sobre os gastos sociais nas discussões fiscais. “Os grandes críticos do gasto público do governo são os empresários. Só que os empresários levaram o ano passado e estão levando esse ano 960 bilhões de incentivos fiscais do governo”, disse.

Ele comparou esse montante aos gastos sociais federais. “Isso representa em torno de 8% a 9% do PIB. O que representaram os gastos sociais do Brasil no ano passado? Sessenta e dois bilhões ou 0,5% do PIB”, apontou.

Na visão do professor, o debate fiscal deveria considerar outros componentes das contas públicas. “O que na verdade coloca o governo em cheque? É o gasto com programa social ou é o gasto com incentivo fiscal? É o programa social ou é o gasto com os juros da dívida que superou a casa de 1 trilhão e 300 bilhões?”, questionou

Julio defendeu que a interpretação predominante dos agentes financeiros é orientada por uma lógica específica. “A leitura que o mercado faz partindo de uma visão eminentemente financista coloca os gastos do governo como sendo o grande vilão, sendo que o grande vilão na verdade é o gasto com juros, é o gasto com incentivos fiscais”, disse.

Em relação ao recorde da Bolsa, que atingiu 209 mil pontos, o economista atribuiu o desempenho aos ativos estratégicos disponíveis no país. “A Bolsa você tem ações de várias empresas que têm condição de não só se manter no mercado, como crescer”, afirmou.

Ele destacou vantagens competitivas da economia brasileira. “O Brasil tem petróleo, o Brasil tem minério, o Brasil tem o agro, o Brasil tem terra, o Brasil tem muita coisa boa que muito país não tem”, apontou

Segundo o prefessor, o país continuará atraindo investimentos internacionais, ainda que existam diferentes visões sobre a forma de aproveitamento dessas riquezas. “Dentro da visão liberal, essas grandes potências viriam aqui para pegar o que nós temos de bom e levar para gerar emprego e renda lá fora. Dentro da concepção desenvolvimentista do governo Lula, o mercado para esse tipo de riqueza está aberto, desde que eles venham investir aqui e possam gerar emprego e renda aqui”, disse.

Para ele, o Brasil seguirá sendo alvo de interesse internacional. “O Brasil é um país para ser olhado, é um país para que as grandes potências invistam. Eu acho que o Brasil está na bola da vez”, afirmou .

Ao abordar o ambiente de negócios, o especialista citou a migração de empresas para o Paraguai em busca de menor tributação. “Muitos empresários estão indo para o Paraguai. Por que eles estão indo para o Paraguai? Porque a carga tributária lá é 1,5%”, disse.

Ao mesmo tempo, observou que a carga tributária brasileira é um fenômeno histórico. “A carga tributária no Brasil é 32% já dentro do governo Lula, do governo Bolsonaro, do governo Temer, do governo Dilma há quanto tempo”, apontou

Segundo ele, mesmo com a elevada tributação, grandes empresas continuam operando no país devido aos incentivos oferecidos. “Os incentivos fiscais funcionam como uma câmara de compensação dessa alta carga tributária”, afirmou.

O economista também destacou a necessidade da atuação estatal diante das desigualdades brasileiras. “Você tem que ter gasto com infraestrutura, você tem que ter gasto com custeio, você tem que ter gasto social. Enquanto nós tivermos uma concentração brutal de renda como nós temos aqui e uma desigualdade perene, nós temos que ter um governo que olhe o social”, disse.

Ele citou ainda a continuidade das políticas de transferência de renda. “O próprio Bolsonaro, quando foi presidente, ele não acabou com o Bolsa Família, transformou o Bolsa Família em Auxílio Brasil, só mudou o nome”, lembrou.

Na sua avaliação, a percepção do mercado varia conforme a orientação política dos governos. “Quando você tem um governo liberal, o mercado é menos agressivo. Agora, quando você tem um governo de esquerda, ele é um governo mais agressivo, porque ele já parte do princípio que o governo de esquerda vai formar menos poupança”, disse.

Ainda assim, ele acredita que a dinâmica macroeconômica tende a permanecer. “Eu acho que vai continuar do mesmo jeito, não muda nada. Tanto Lula quanto Bolsonaro, o dólar vai continuar flutuando da mesma forma, ora o real vai valorizar, ora vai desvalorizar”, apontou.

Ao ser questionado sobre a composição dos investimentos externos que chegam ao país em períodos de juros elevados, Paschoal afirmou que a predominância ainda é financeira. “Setenta por cento dos investimentos que entram no Brasil, infelizmente, é para especular. O que entra para incorporar, o que entra para fazer fusão ou mesmo você montar empresas vai girar em torno aí de 20% a 30%”, disse

O professor comparou o cenário brasileiro ao dos Estados Unidos e mencionou divergências do presidente Donald Trump com o Federal Reserve (Fed) em torno dos juros. Em sua avaliação, os bancos centrais priorizam excessivamente o combate à inflação. “Enquanto os bancos centrais enxergarem apenas um lado da obrigação deles, que é o controle da inflação, a América Latina, a América do Sul principalmente, vai conviver com esse tipo de situação”, apontou.

Ele defendeu que o desenvolvimento econômico também deve integrar os objetivos da política monetária. “Na função do Banco Central você tem o controle da inflação e o desenvolvimento econômico. Como é que você faz desenvolvimento econômico com a taxa Selic de 13,75%?”, questionou.

Ao tratar da relação entre valorização cambial, mercado financeiro e inflação, o especialista afirmou existir uma conexão direta entre câmbio e moeda. Segundo ele, a entrada de dólares, seja por exportações ou por investimentos, amplia a liquidez doméstica e exige mecanismos de controle monetário. “Se entra muito dólar aqui, a pressão sobre o mercado monetário é muito grande. Então, naturalmente você emite títulos não porque você tem um déficit governamental, mas para você segurar uma inflação de demanda”, disse.

O economista também apontou que exportar é positivo porque fortalece as reservas internacionais, mas também cria desafios para a política monetária. “Toda vez que você exporta, você tem que criar uma política monetária restritiva para você não deixar com que todo esse dinheiro que entra vá para comprar casa, fazenda, imóveis”, comentou. .

Ele considera que o desafio central está em encontrar equilíbrio entre atração de recursos e expansão produtiva. “Tem que achar um equilíbrio nessa questão. Por um lado é positivo você ter um nível de fluxo internacional positivo, seja ele via exportação ou via mesmo investimento, mas por outro você tem que controlar isso de uma forma que não te crie um problema interno”, afirmou.

Sobre a inflação, Julio atribuiu boa parte das pressões aos efeitos de conflitos internacionais. “A questão inflacionária hoje ela é muito mais vinda de fora do que propriamente de dentro”, disse.

Ele citou o impacto da guerra entre Rússia e Ucrânia sobre os fertilizantes. “Se você sobe o preço do fertilizante, você sobe o preço do alimento”, apontou.

O economista também mencionou os reflexos das tensões envolvendo o mercado de petróleo. “A Petrobras exporta o cru e traz gasolina, querosene, gás e óleo diesel. Se o Estreito de Hormuz fica naquela instabilidade, ora fecha, ora abre, isso afeta o preço do petróleo”, disse.

Segundo o economista, petróleo e fertilizantes exercem influência significativa sobre a economia brasileira. “Se você mexer com petróleo e fertilizante, você está mexendo justamente com o principal dentro do Brasil, que é transporte e agro”, apontou.

Julio argumentou ainda que juros elevados ajudam a conter pressões inflacionárias por meio da valorização cambial. “Mantendo ela elevada você traz mais dólar para cá, consequentemente valoriza o real e desvaloriza o dólar. Como mais de 95% das nossas empresas dependem de algum componente importado, se nós tivermos um dólar crescente, nós temos inflação também de custos aqui dentro”, disse.

Ao final da entrevista, o economista foi questionado sobre quais sinais políticos e institucionais poderiam sustentar a confiança dos investidores. Segundo ele, existem diferentes interpretações sobre a questão. “Na visão neoliberal que prevalece no mundo, você tem que entregar o equilíbrio fiscal para ter menos ataque especulativo aqui dentro”, afirmou.

Por outro lado, ele argumenta que a redução dos gastos públicos enfrenta limitações impostas pelas demandas sociais do país. “Fazer o equilíbrio fiscal só cortando programa social, você vai, por um lado, satisfazer o mercado externo e, por outro, criar uma crise interna aqui”, disse.

Julio também comparou a relação entre Executivo e Congresso nos governos Bolsonaro e Lula. “O Bolsonaro, para poder satisfazer o mercado, teoricamente, teve que entregar o orçamento ao Congresso. Ao passo que o Lula, para poder governar, teve que manter o orçamento no Congresso e fazer um governo de coalizão aumentando o número de ministérios”, apontou.

Na avaliação do professor, promessas de redução dos juros costumam esbarrar nos limites institucionais do Banco Central. “Dentro da concepção neoliberal como a do Flávio, ele está prometendo abaixar a taxa de juros. Como, eu te pergunto? Não é o Governo Federal que vai abaixar a taxa de juros”, afirmou.

Ele concluiu defendendo que a atração de investimentos produtivos permanece como um dos principais desafios da economia brasileira. “Há uma relação direta entre câmbio e moeda. E para você manter esse fluxo, ou você cria mecanismos para investir aqui dentro na produção, o que é difícil o Brasil conseguir fazer isso, ou você tem que trazer fluxo de capital via juros”, disse.

Na visão do economista, enquanto prevalecer o atual modelo de política monetária, o país continuará recebendo predominantemente recursos financeiros de curto prazo. “Dentro da concepção do Banco Central independente, dificilmente a gente vai atrair capital produtivo a mais do que o especulativo”, finalizou.

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