Brasil bate recorde com 9,1 milhões de empresas inadimplentes; Goiás supera 250 mil CNPJs
18 agosto 2026 às 15h05

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*Em colaboração Luan Monteiro
O número de empresas brasileiras inadimplentes bateu recorde em junho deste ano. Ao todo, mais de 9,1 milhões de CNPJs estavam com dívidas em atraso, que somavam R$ 232,9 bilhões. O levantamento da Serasa Experian mostra que o número é 16,67% maior do que o registrado no mesmo mês de 2025.
O cenário preocupa, principalmente, os pequenos negócios. Do total de empresas negativadas, 8,6 milhões são micro e pequenas empresas. Juntas, elas acumulam milhões de dívidas e concentram a maior parte do volume financeiro em aberto.
Para o economista e advogado especialista em administração judicial, recuperação judicial e falência Enoque Estevão de Brito, o recorde é reflexo de uma combinação de fatores que vem aumentando a pressão sobre as empresas.
“É um conjunto de fatores. Taxa de juros elevada, inflação, a contração dos negócios no consumo. Então, as empresas estão tendo dificuldade em manter o seu custo, a despesa”, explica.

Em Goiás, mais de 250 mil empresas estão inadimplentes
Em Goiás, o cenário também chama atenção. Os dados da Serasa Experian mostram que 250.101 empresas estavam inadimplentes em junho de 2026. Juntas, elas acumulavam 1.472.763 dívidas negativadas, que somavam R$ 4,39 bilhões.
O levantamento mostra ainda que cada CNPJ inadimplente tinha, em média, 5,89 dívidas. A dívida média por empresa chegava a R$ 17,5 mil, enquanto o ticket médio das dívidas era de R$ 2.987,53. O número de empresas inadimplentes em Goiás cresceu ao longo do primeiro semestre. Em janeiro, eram 237.317 CNPJs nessa situação. Em junho, o total chegou a 250.101, um aumento de aproximadamente 5,4% em seis meses.
O volume financeiro também avançou no período. As dívidas somavam R$ 3,81 bilhões em janeiro e chegaram a R$ 4,39 bilhões em junho, alta de aproximadamente 15,4%.

A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, avalia que o desempenho de Goiás acompanha um cenário nacional de condições financeiras restritivas. Segundo ela, juros altos por um período prolongado, maior cautela na concessão de crédito e dificuldades para recompor o fluxo de caixa pressionam as empresas. Ao mesmo tempo, a desaceleração da atividade econômica reduz a capacidade de geração de receitas.
Goiás, de acordo com Camila, chegou a 250,1 mil empresas inadimplentes em junho, ante 237,3 mil em janeiro. No Centro-Oeste, o Estado possui o maior contingente de empresas nessa situação, à frente do Distrito Federal, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Os dados ajudam a dimensionar como o problema afeta não apenas grandes companhias, mas também negócios de menor porte, que costumam ter menos espaço no caixa para absorver períodos de queda nas vendas ou aumento dos custos.
Nacionalmente, o setor de serviços concentra a maior parcela dos CNPJs inadimplentes, com 55,7% do total. O comércio aparece em seguida, com 32,2%, seguido pela indústria, com 8%, e pelo setor primário, com 0,9%.
Camila afirma que a Serasa não possui, nesse levantamento, o detalhamento por porte especificamente para Goiás. No cenário nacional, porém, as micro e pequenas empresas representam 8,6 milhões dos 9,1 milhões de CNPJs inadimplentes. Para ela, esses negócios são mais vulneráveis por terem menor margem para absorver choques, maior dependência de crédito para capital de giro e menor capacidade de negociação.

Juros e queda no consumo pressionam empresas
Segundo Enoque, alguns segmentos são mais sensíveis aos ciclos econômicos, como o varejo. Quando os juros sobem, o crédito fica mais caro e o consumo tende a perder força. Com menos pessoas comprando, as empresas faturam menos e passam a ter dificuldade para manter as despesas. “Quando há o aumento da taxa básica de juros, isso traz uma contração do consumo, que, por sua vez, reduz a demanda”, afirma.
Camila também aponta o crédito como um dos fatores importantes para explicar o cenário. Mesmo com cortes recentes da Selic, as condições financeiras continuam restritivas, com juros elevados e maior cautela na concessão de crédito. Isso dificulta tanto a obtenção de novos recursos quanto a renegociação de dívidas já existentes.
“Mais do que o montante isolado, a evolução dos dados chama atenção. O estoque de dívidas em Goiás passou de cerca de R$ 3,8 bilhões em janeiro para R$ 4,39 bilhões em junho, acompanhando também o crescimento do número de empresas inadimplentes”, afirma a economista.
O problema se agrava quando a empresa já possui dívidas. Com o faturamento menor, aumenta a dificuldade para pagar fornecedores, funcionários e instituições financeiras. “Se a demanda cair, ele não fatura. Se não fatura, o custo começa a voltar contra o patrimônio”, explica Enoque.
A situação também pode atingir pequenos negócios que são fornecedores ou credores de empresas maiores. Quando uma companhia entra em recuperação judicial, parte dessas dívidas pode ser incluída no processo, fazendo com que os fornecedores tenham de esperar mais tempo para receber.
“As micro e pequenas empresas geralmente são aqueles créditos menores, de um valor menor. Demora muito tempo para se receber e a maioria das empresas acaba desistindo”, diz o economista.
Na prática, uma empresa que deixa de receber pode ter dificuldade para pagar os próprios compromissos, ampliando o problema para outros negócios. O impacto também chega aos trabalhadores. “É um efeito cascata. A empresa falindo, ela não consegue pagar. E aí tem os trabalhadores”, afirma Enoque.
Cenário ainda exige cautela
Para Camila, ainda não há sinais de uma reversão consistente da inadimplência empresarial no curto prazo. A combinação entre juros elevados e desaceleração da atividade econômica mantém o cenário desafiador. “Uma recuperação dependerá de uma combinação de condições de crédito menos restritivas, maior capacidade de geração de caixa e melhora do ambiente econômico”, afirma.
O especialista Enoque também não vê uma perspectiva clara de melhora para os próximos meses. A incerteza sobre os juros e a economia mantém empresários mais cautelosos na hora de investir ou assumir novos compromissos. A taxa Selic elevada encarece o crédito e dificulta a recuperação de negócios que já estão endividados. “O problema está sendo os custos, e os custos estão sendo inflados por conta das taxas de juros, principalmente da Selic”, afirma.
O que fazer diante das dívidas
Para as empresas que já enfrentam dificuldades, Enoque recomenda começar por um diagnóstico financeiro. A partir dele, é possível identificar quais custos podem ser reduzidos e quais compromissos precisam ser priorizados. “O primeiro passo é fazer um diagnóstico do negócio, da empresa”, orienta.
Camila segue linha semelhante e recomenda mapear as dívidas, os custos da operação e a capacidade real de geração de caixa. Segundo ela, é importante priorizar os compromissos mais críticos e buscar a renegociação com os credores antes que as pendências se acumulem ainda mais.
Outra alternativa é procurar os credores para negociar diretamente. Dependendo da situação, podem ser estabelecidos novos prazos e condições de pagamento. Para pequenos empreendedores com poucos credores, esse caminho pode evitar que a dívida avance para uma cobrança judicial. “Também é fundamental reforçar o controle do fluxo de caixa e evitar contratar um novo crédito apenas para cobrir dívidas anteriores sem avaliar o custo e a capacidade de pagamento”, alerta Camila.
Quando a negociação não funciona, a empresa pode recorrer à recuperação extrajudicial ou judicial. Na primeira, o acordo é construído diretamente com os credores e posteriormente levado à Justiça para homologação. Já a recuperação judicial ocorre por meio de um processo judicial e busca reorganizar as dívidas para permitir a continuidade da atividade.
O aumento da inadimplência ocorre em um momento de alta nos pedidos de recuperação judicial. Segundo Enoque, setores mais dependentes do consumo estão entre os mais afetados. Ele cita o varejo e lembra que até grandes empresas, como as Casas Bahia, recorreram ao mecanismo.
Diante desse cenário, a orientação é que o empresário não espere a dívida crescer para buscar uma saída. O acompanhamento das contas, a redução de gastos possíveis e a negociação com credores podem ajudar a evitar que um problema de caixa se transforme em uma crise maior.
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