Sexo, drogas e riscos fazem parte do árduo e lucrativo trabalho das profissionais do sexo em Goiânia e Região Metropolitana. O Jornal Opção foi ao encontro de garotas de programa, responsáveis por atender uma vasta quantidade de clientes na região conhecida como “Cidade dos Motéis”, às margens da BR-153, na divisa entre Goiânia e Aparecida de Goiânia. Para resguardar a identidade das mulheres, os nomes usados na matéria são fictícios.

Os relatos das entrevistadas são similares: jovens mães vindas de outras cidades e que buscam dinheiro para sustentar a casa. Tão antigo quanto a profissão, o debate em torno da legalização da prostituição é polêmico. Na prostituição, a demanda cria a oferta: como os homens querem comprar sexo, a prostituição é considerada inevitável e, portanto, é “normal” na sociedade.

Enquanto alguns especialistas argumentam que a regulamentação pode ser benéfica para a saúde e segurança dos profissionais, outros acreditam que a atividade deve ser criminalizada por motivos morais e de saúde pública. De qualquer forma, as violências na prostituição parecem ser múltiplas e constantes. As jovens relatam que conseguem se sustentar na profissão, mas que estão expostas a estupros, abusos sexuais, roubos, humilhações, ofensas verbais e morais.

Rua onde garotas de programa esperam por clientes | Foto: Pedro Moura

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Ao chegar no local, seja durante o dia ou durante à noite, é possível se deparar com mulheres e travestis nas calçadas, esquinas e principalmente na porta de motéis. Algumas são muito bem vestidas e outras aguardam a clientela seminuas. A presença de profissionais do sexo jovens é nitidamente maior do que a de mulheres maduras. 

Como uma espécie de “cardápio” a céu aberto, os clientes escolhem a dedo qual mulher ou travesti vão negociar e convidar para algum motel. Em alguns casos, o “serviço” pode ser feito dentro do próprio automóvel, conforme explica a brasiliense Esther, de 25 anos. Atuando na região há três anos, a jovem é mãe de uma criança de 2 anos, é umas das 30 profissionais do sexo abordadas pela reportagem. 

“Algumas meninas atendem dentro dos carros, seja que só para pagar um boquet*. Isso vai de cada uma, eu mesmo não costumo atender assim por conta da segurança. Alguns clientes acham que por estar pagando pode fazer qualquer coisa, como transar sem camisinha, mas não é assim que funciona. Eu não aceito”, explicou enquanto tem as falas reforçadas pela colega, Daphne, de 27 anos.

Mãe de uma menina de 9 anos, a paulista Daphne conta que mesmo expostas, as profissionais que atendem nas ruas têm mais segurança do que em casas de swing e cabarés, visto que elas atuam em conjunto, se defendendo de “predadores”. A mulher, inclusive, trabalha há dois anos na “Cidade dos Motéis”, mas está no ramo da prostituição há quase 10 anos.

“Lá (em casas de swing ou cabarés) o pessoal quer que a gente beije na boca, parece que não ligam para a saúde deles. Falam que são casados, que são limpinhos, cheirosos. Quando é novo, fala que é novinho, como se isso influenciasse em alguma coisa. A maioria até consegue transar com as trans que até tem (IST’s) assumidos”, disse. 

Perguntadas sobre o motivo de ingressarem na atividade sexual, a resposta foi a mesma: falta de oportunidades. Esther contou que começou a se prostituir por não conseguir arrumar emprego e pela dificuldade de se manter com um salário mínimo. Daphne, por outro lado, afirma que foi aliciada por amigas a ganhar dinheiro com o corpo quando chegou ao estado goiano.

Mães solteiras, elas não possuem resistência fixa e moram nos próprios motéis da região. As atividades corriqueiras são feitas nos próprios estabelecimentos, como banho e até mesmo alimentação, assim como o período de descanso durante o dia e à noite. O dinheiro normalmente é enviado para a família, responsável por criar as crianças. 

“Costumo fazer seis, sete programas por dia. O valor é R$ 100, mas pode aumentar caso o cliente queira passar a noite. Na verdade, o número de programas não afeta muito o rendimento, mas o tempo em que passa com o cliente. Eu dou sorte, tem cliente que quer passar muito tempo e gasta até R$ 4 mil ou R$ 5 mil. Na rua é mais comum, em boates e mais difícil”, afirmou Daphne.  

Essas entrevistadas também afirmam que pensam em deixar Goiás ainda em 2023 para se aventurar no garimpo no Pará ou no Mato Grosso. Conhecidos por terem grandes concentrações de ouro e, consequentemente, por giravam quantidades altas de dinheiro, elas pretendem se estabilizar financeiramente para deixar a prostituição. 

“Não somos vistas como gente, pessoas. Nem a polícia vem aqui, eles passam só para bater ponto. Quando alguma menina é agredida ou assaltada, a gente não consegue falar com a polícia. Tem umas duas semanas mesmo que uma menina foi agredida com golpes de facão dentro do motel por um cliente. Não é fácil”, disse Daphne.

Vida dupla 

Assim como Esther e Daphne, todas as garotas entrevistadas pela reportagem, com idades entre 21 e 28 anos (as com idades superiores não quiseram falar com a equipe), disseram ser mães solteiras, com um, dois e três filhos. Algumas afirmam ser estudantes do ensino superior ou ter outro emprego, levando uma vida dupla. 

Ashley, de 23 anos, é um exemplo. Mãe solteira, para conseguir criar os dois filhos, de 4 e 3 anos, a mulher se divide entre o trabalho como auxiliar de serviços gerais e garota de programa há cerca de três anos. Enquanto bola um cigarro de maconha, ela conta que trabalhava como garçonete em uma boate, mas que perdeu o emprego durante a pandemia. 

“Depois que perdi o emprego eu não procurei, me acostumei, o retorno financeiro era bom [sendo garota de programa]. Trabalho de dia porque é mais rotativo e tem mais o meu perfil. Durante o dia é mais é homem trabalhador que passa aqui rápido e vai para casa. Aqui tem de tudo, já tentaram me roubar, já peguei estuprador”, explicou.

Enquanto o diálogo flui, a mulher acende o cigarro de maconha e começa a compartilhá-lo com outras duas amigas. Uma das profissionais, de mais idade, se nega a conversar com a equipe alegando ser casada. A outra mulher, de 28 anos, sede a entrevista. 

Goiana, Micaely afirma que é nova na área e que começou a atuar na “Cidade dos Motéis” há dois dias. Perguntada se já havia realizado programas, ela disse que sim, mas não informou a quantidade, apenas o preço: R$ 100. 

“Vim pra cá por questões financeiras, tenho três filhos. Não compensa ficar trabalhando aí fora, sendo humilhada. Antes eu era vendedora em uma loja de enxoval. Ninguém sabe que eu trabalho aqui, apenas a minha irmã”, diz.

“Tiro R$ 12 mil no mês”

Erika, de 22 anos, foi uma das profissionais mais novas entrevistadas pela reportagem. A mulher, mãe de uma criança de 1 ano e dois meses, atende clientes nas ruas e nas casas de show da região desde os 18 anos de idade. Ela afirma que optou por vender o corpo devido a necessidade de ajudar em casa, onde vive com a mãe e o filho.

Segundo Erika, a matriarca é convivente com o trabalho dela, que atende de duas a três vezes na semana, recebendo cerca de R$ 12 mil mensais. Bem maquiada, a jovem conta ainda que também se aventura em plataformas de conteúdo adulto como o Privacy, vendendo pacotes de imagens.  

“Penso em sair desta área. Por mais que ganhe muito dinheiro, isso é passageiro. Acredito que quase todas as meninas que vem pra cá são para fazer isso, ganhar um dinheiro e sair. Penso em fazer psicologia, gosto muito da área e me identifico”. 

Erika explica que os atendimentos durante o dia são mais tranquilos, diferente do período noturno onde as mulheres são quase que obrigadas a beber e usar drogas com os clientes. A mulher, inclusive, diz que já passou por “perrengues” durante à noite, como tentativas de roubo, calotes e, assim como as outras profissionais, tentativas de estupro.

Questionada se pretende parar, a jovem responde: “daqui a alguns anos. Quero me assegurar de fazer um pé de meia, garantir a minha independência financeira. Tenho uma poupança minha e do meu filho onde não mexo”, concluiu. 

Tenda onde algumas garotas se escondem do sol | Foto: Pedro Moura

Estudante de administração 

Algumas profissionais já atuam na região para pagar mensalidades da faculdade, como é o caso de Juliane. A jovem estudante de administração, de 22 anos, conta que começou a atuar como garota de programa em 2022, para conseguir dinheiro rápido. 

Atualmente, a mãe de uma criança de 4 anos, trabalha durante o dia nas ruas e à noite em uma boate. A média de programas diários realizados pela profissional é de 11, conforme ela. Os atendimentos são divididos em uma média de oito durante o dia e três à noite. Os valores variam de R$ 150 a R$ 300. 

A profissional mais tímida da entrevista, diz que a família não sabe como ela ganha a vida, mas que não se importaria se eles ficassem sabendo devido a distância. São de outro estado. Perguntada se pensa em migrar para plataformas de conteúdo adulto, como Erika, a mulher conta que não quer se expor.

“Pago a faculdade com o dinheiro dos programas. Estou no terceiro período. A faculdade é online, mas preciso ir nela de vez em quando. Aqui a gente não tem parceria com motel, eles dão cartãozinhos e qualquer menina que levar dez clientes ganha R$ 100”, finalizou. 

É crime?

Em entrevista ao jornal da USP, Daniel Pacheco Pontes, que é professor de Direito Penal da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP), argumenta que a regulamentação da prostituição é controversa devido ao conflito entre direito e moral. No entanto, defende que o direito penal deve ser independente e proteger os direitos individuais. “Nesse sentido, se a pessoa está utilizando o seu corpo da forma que lhe convém, sem ser forçada, e sem passar por nenhum tipo de violência, este não seria um problema de Direito Penal.”

Pacheco afirma que, no Brasil, a prostituição é permitida, o que significa que qualquer pessoa pode se prostituir sem o risco de ser presa, mas que, no entanto, existem muitos crimes associados a essa prática, previstos no ordenamento jurídico nacional. “Um exemplo bem conhecido é o crime de exploração da prostituição, que ocorre quando alguém lucra com o trabalho de outra pessoa nesse ramo”, relata. 

Embora a prostituição não seja uma profissão regularizada no Brasil, há a possibilidade de uma assistência do Estado. Segundo Pacheco, embora a Constituição permita que a pessoa que se prostitui contribua para o INSS e se aposente como autônomo, na prática, essas pessoas acabam ficando em situações vulneráveis e precisam de ajuda para se proteger porque muitas não sabem disso.

Profissionais sentadas à esperas de clientes | Foto: Pedro Moura