O clichê “não existe vácuo na política” é o que todos os clichês são: uma aproximação. A expressão mais precisa (mas menos cativante) poderia ser: “o vácuo na política é uma oportunidade que ninguém gosta de desperdiçar”. Não é preciosismo, há diferença. Primeiro, porque o vácuo na política existe, sim, e um grande vácuo vem se formando na política goiana já há alguns anos. 

Esse vácuo começou a se construir com a saída de Marconi Perillo (PSDB) da competição estadual, cresceu com a aposentadoria de Iris Rezende, ficou maior com a morte de Maguito Vilela e estará imenso Ao fim do mandato de Ronaldo Caiado (UB), em 2026. 

Quando o governador tornar seus olhos para fora de Goiás e se dedicar à disputa nacional, a energia gasta com a articulação política no interior do Estado será dividida. Quer Caiado ganhe ou perca as eleições presidenciais, sua presença continuará fundamental na política goiana, mas, quando deixar de articular apenas em Goiás, o vácuo ficará maior. 

Daniel Vilela (MDB) é o sucessor natural de Caiado e tem uma vantagem, mas seria ingênuo acreditar que seus concorrentes planejam deixá-lo ocupar esse espaço sozinho. Nas eleições de 2026, o espaço que Caiado hoje ocupa entrará em jogo, e os jogadores mais fortes serão os que já conquistarem algum território agora, em 2024. 

Ronaldo Caiado já reserva esse espaço para seu sucessor, e o governador é tão grande que concorrente algum ousa agora disputar o vácuo que já se desenha no futuro… mas, quando o futuro chegar, o contexto será outro.  

Bruno Peixoto (UB) recentemente abriu mão da disputa pela Prefeitura de Goiânia por determinação da base governista. Se Daniel Vilela é o sucessor ao governo do Estado e quer Jânio Darrot (MDB) — há quem acredite que o ex-prefeito de Trindade está saindo do páreo — no comando da Capital, nada mais lógico. Peixoto teve de abrir mão do espaço futuro em função das condições de agora. Mas, um dia, quando não houver Ronaldo Caiado que o una na mesma base com Daniel Vilela, o contexto será diferente, e a renúncia de agora parecerá não ter rendido frutos.

Bruno Peixoto dá sinais: atualmente, ele passa o feriado de carnaval em Angra dos Reis, na casa do senador Wilder Morais (PL) — membro de outro grupo político (próximo de Ronaldo Caiado, mas distante de Daniel Vilela). No dia 4 de fevereiro, ele mediou a aproximação de Elder Galdino (MDB) com Gustavo Sebba (PSDB) em Catalão. Elder Galdino foi preterido por Daniel Vilela em função de Adib Elias (MDB), e Gustavo Sebba é do grupo de Marconi. Talvez Bruno Peixoto esteja apenas fazendo política; talvez esteja reclamando por mais espaço na base; ou, talvez, o presidente da Alego esteja buscando alternativas. 

Na última semana, Jânio Darrot (MDB) buscou apoio de Bruno Peixoto para sua candidatura. O ex-prefeito de Trindade quer evitar um racha na base e convidou Peixoto para coordenar sua campanha eleitoral. O deputado estadual respondeu que atuaria eleitoralmente apenas no período oficial de campanhas. Sua recusa em conciliar já revela que ele reluta em abrir mão da oportunidade que o vácuo político promete. 

Para que fique claro: não se trata de prever um rompimento — talvez amanhã um termo satisfatório seja encontrado para todos e a base permaneça como sempre esteve. Trata-se de dizer o óbvio: o vácuo está se formando, e ninguém gosta de desperdiçá-lo. Uma nova organização de forças começa a se desenhar para o futuro, nascida do vácuo já prometido agora.