Cezar Santos
Cezar Santos

Se Mantega fez o que Eike delata, então ele foi achacador para o PT

A corrupção sistêmica engendrada pelos governos petistas vai sendo escancarada nas delações dos próprios sócios do lulopetismo

Eike Batista e Lula, com outras pessoas, se dirigem a jatinho: ex-presidente diz que teve pouca relação com o empresário que foi altamente beneficiado nos esquemas do BNDES

Eike Batista e Lula, com outras pessoas, se dirigem a jatinho: ex-presidente diz que teve pouca relação com o empresário que foi altamente beneficiado nos esquemas do BNDES

Uma comoção fora de foco ocorreu nos últimos dias, com a prisão, na quinta-feira, 22, do ex-ministro Guido Mantega na sequência das investigações da operação Lava Jato. O problema “grave”: Mantega teria sido preso na sala de cirurgia do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde sua mulher estaria passando por uma cirurgia. O problema estaria exatamente no fato de a prisão ter sido feita quando a mulher do ministro estava sendo operada.

Não resta dúvida de que uma prisão nessas circunstâncias, seja de quem for, extrapola o que se considera ser um comportamento com humanidade. Será que o procedimento policial não poderia esperar algumas horas e fazer a prisão na casa do acusado?

Claro, poderia ser esperar um pouco mais, sem dúvida. Mas houve explicações plausíveis para o fato. O procurador da República Carlos Fernando Lima disse que “Infelizmente, coincidências como essa são tristes quando acontecem, mas não há como não se cumprir uma ordem judicial”. Poucas horas depois, o juiz Sérgio Moro mandou soltar o ex-ministro.

Os petistas trataram de ressaltar sua indignação. Afinal, Guido Mantega é um filiado ao partido. O presidente nacional do PT, Rui Falcão, falou em pirotecnia. O advogado de Mantega, José Roberto Batochio, disse esperar que a ação da PF não atrapalhasse a cirurgia da mulher do ex-ministro, dando uma conotação de que a ação policial poderia resultar até em morte da paciente.

Houve uma versão de que Guido Mantega teria sido avisado de sua prisão e planejou nos mínimos detalhes para ficar como vítima da ação da PF diante da imprensa. A filha do ex-ministro, Marina Mantega, em entrevista à rádio Jovem Pan, disse que a madrasta foi fazer uma endoscopia no hospital. “Não sabia que a Eli estava no hospital, fiquei sabendo porque liguei lá em casa. Não moro com meu pai desde meus 22 anos. O que sei é que ela foi fazer uma endoscopia, não estava operando. Ela tem câncer desde 2011 e estava fazendo um procedimento”, contou.

Depois, à revsita Época, Marina teria dito que versão de que a madrasta teria se submetido a uma endoscopia lhe foi passada pela empregada. “Meu pai não queria contar para o meu irmão, que tem 16 anos, que a mãe dele retiraria uma parte de um tumor novamente. Nem para a família, para nos acalmar”

O vice-líder do PT na Câmara dos Deputados, Paulo Pimenta (RS), classificou como “covardia” a prisão de Mantega no hospital. A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) chamou a ação de “espetáculo”, cravando: “E não podia faltar o espetáculo e a humilhação, característicos de Moro e PF”, colocou a petista no Twitter.

A indignação seletiva ganhou espaço. Jornalistas ecoaram essa indignação. Mas, afinal, por que a Polícia Federal prendeu o ex-homem forte da economia nos governos de Lula e, principalmente, de Dilma? Nessa altura todos sabem, mas não custa recordar.

O ex-presidente do Conselho de Administração da OSX Eike Batista tinha prestado depoimento ao Ministério Público Federal (MPF) no dia 20 de maio passado e declarado que, em 1º de novembro de 2012, recebeu pedido do então ministro e presidente do Conselho de Administração da Petrobras, Guido Mantega, para que fizesse um pagamento de R$ 5 milhões, no interesse do PT. Essa quantia serviria para quitar dívidas de campanha da legenda.

A prisão de Mantega se deu na deflagração da 34ª fase da Operação Lava ¬Jato. A prisão temporária do ex-ministro foi decretada pelo juiz Sergio Moro. Questionado pelo procurador Roberson Pozzobon sobre se a reunião foi entre Eike e Mantega, o empresário confirmou, pelo que se lembrava.

Eike explicou que Mantega não pediu o dinheiro de modo direto. Contou que o pedido “explícito” foi feito depois, em outra oportunidade, por intermédio de Mônica Moura, mulher do marqueteiro do PT João Santana.

O procurador perguntou se antes do pedido de Mônica, Guido Mantega pediu “que seria dinheiro para a campanha do partido, do Partido dos Trabalhadores?”. “Isso”, respondeu Eike.

A delação de Eike Batista se deu de forma voluntária, antecipando e prevenindo uma possível prisão. Como se sabe, Eike foi um dos maiores beneficiários dos esquemas de assalto aos cofres públicos que o PT armou na Petrobrás e nos empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Pelo que se está apurando, o empresário devolvia em propinas ao PT parte do que ganhava nesses esquemas propinados.

A questão é: a se confirmar a delação de Eike Batista, Guido Mantega agiu como um achacador a serviço do PT, a mando de quem tinha poder para mandar num ministro, no caso o presidente da República. E qual empresário resistiria a um “pedido” de dinheiro do ministro de Estado mais poderoso do governo?

Negar seria praticamente fechar as portas para fazer negócios com o governo federal. Os brasileiros esperam que a Lava Jato prossiga e que os fatos sejam esclarecidos. Que a delação de Eike Batista tenha âncora em provas e sejam mostradas.

No curso das investigações Guido Mantega vai ter que explicar muitas coisas. Um detalhe interessantíssimo: é claro e evidente que ele não agiu de moto próprio. Acima dele, na cadeira de presidente da República, estava Lula, primeiro, e depois Dilma Rousseff. Se Eike já deu com a língua nos dentes, outros empresários também poderão delatar.

Quanto à indignação seletiva dos petistas e de alguns jornalistas que, declaradamente ou enrustidamente se põem a serviço dos interesses do PT, nada considerou sobre os assaltos aos cofres públicos cometidos sistematicamente pelo partido e seus aliados. É o que se chama de inversão do foco.

Como é de sua natureza nos casos de corrupção, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva minimizou sua ligação com Eike Batista. Na sexta-feira, 23, Lula disse que teve “pouca relação” com o empresário durante todo seu mandato, lembrando que, na época, ele “era tido como mais bem-sucedido empresário brasileiro, uma figura bajulada”.

Há fotos de Eike Batista com Lula embarcando em jatinhos do empresário. Lula, certamente, não se lembra disso.

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