Até a semana passada, Ronaldo Caiado (UB) foi o governador mais vocal contra a reforma tributária. Munido pelos estudos de Valdivino Oliveira, o chefe do Executivo estadual afirmou em entrevista a diversos veículos que o texto em votação “fere de morte o pacto federativo”. Nos últimos dias, entretanto, outros contendores entraram no debate do tema na posição contrária à reforma, mas não exatamente em apoio a Caiado.

Em discussão sobre a reforma tributária na Câmara dos Deputados, na quinta-feira, 6, Caiado (UB) afirmou que o texto é o maior desrespeito pelo pacto federativo já visto em seus seis mandatos no Congresso, e reforçou que, em sua opinião, o ideal é jogar toda a ideia fora. Para o governador, a melhor solução é desburocratizar o ICMS, modificando a Lei Complementar 87/96 (Lei Kandir).

Na quarta-feira, 5, o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos), a quem se contava na fileira dos contra-reforma, afirmou ser, na realidade, 95% favorável a ela. A declaração foi feita ao lado do ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT). Em outras palavras, Tarcísio luta por incluir algumas de suas visões no texto – uma aspiração mais modesta e mais fácil de se conseguir. 

Para ser justo, Caiado admitiu acreditar que a medida deve ser aprovada. “Não se pode menosprezar a estrutura toda que está sendo mobilizada para que o texto passe pelo Congresso”, disse ele na Câmara. A diferença central é que, se até pouco tempo havia apenas uma corrente contrária à reforma tributária (cuja voz principal era a de Caiado), agora há outras. 

A boa notícia para o governador de Goiás é que sua postura, a de oposição total, tem mais apelo do que a posição cheia de nuances daqueles que têm críticas pontuais. Em entrevista à Globonews, nesta terça-feira, 4, o governador classificou a proposta como “coisa de venezuelano”. Não se pode negar que comparações com a Venezuela causam náuseas em um grupo selecionado do eleitorado.

Por outro lado, na quinta-feira, Tarcísio protagonizou momentos embaraçosos em reunião do PL ao tentar defender seu ponto de vista ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). No vídeo compartilhado em páginas de direita, o governador de São Paulo diz que a direita deve discutir a proposta. “Nós não podemos perder a narrativa. A direita não pode perder a narrativa de ser favorável à reforma tributária. Senão, ela acaba sendo aprovada, e quem aprovou?”. Após a fala, Tarcísio é interrompido pelo ex-presidente Bolsonaro, que diz: “Se o PL estiver unido, não aprova nada”. O governador tenta explicar, mas é interrompido por vaias dos outros participantes da reunião. 

Aos olhos bolsonaristas, o encontro entre Tarcísio e o ministro petista Fernando Haddad desagrada. A tentativa de negociar desagrada. O protagonismo que o governador assume causa ciúmes e desagrada. Desta forma, ser “derrotado” na tentativa de resistir à reforma parece mais digno para a direita do que ser vitorioso ao aprovar seus interesses. 

Há um claro equívoco em associar a reforma tributária com o governismo petista. Primeiro, porque a proposta nasceu no gabinete de Paulo Guedes, em 2019. Depois, e principalmente, porque o governo federal tomou a decisão de não investir seu capital político na defesa da reforma. Quem articulou sua aprovação foi principalmente Arthur Lira, que em mais de uma ocasião afirmou que gostaria de tê-la como marco de sua presidência da Câmara.

Por que então Bolsonaro ajudou a rotular a reforma como um projeto do governo? Por que empurrar para Lula (PT) uma eventual vitória na aprovação da proposta? Por falta de alternativa. Lula, Haddad e Padilha (ministro das Relações Institucionais) foram hábeis ao sinalizar postura favorável à reforma sem pressionar por sua aprovação. A Bolsonaro, que desempenha muito melhor na oposição, sobrou antagonizá-la.

Caiado se difere de Bolsonaro, pois sua oposição à reforma não tem cunho ideológico – o governador recebe ministros do governo de bom grado e defende que deve haver relações republicanas com todos os representantes. Sua oposição à reforma é fundamentalmente uma convicção de que ela será prejudicial para Goiás, um estado que tem no agro o seu motor e que apostou pesado na guerra fiscal em anos recentes. 

Essa é a razão pela qual a oposição de Caiado é mais pesada do que a de Tarcísio, mas sua relação com o governo federal não é pior. Em visita a Goiânia no último final de semana, o ministro da Justiça Flávio Dino afirmou sobre Caiado: “Éramos de campos políticos diferentes, eu era da bancada de apoio e ele da oposição, mas era uma oposição exemplar, uma oposição fundamentada”.