Cezar Santos
Cezar Santos

PTB-DEM, a fusão da confusão

Senador Ronaldo Caiado diz que a união das duas siglas, que o deputado Jovair Arantes chama de “monstro de duas cabeças”, foi enterrada

Senador Ronaldo Caiado e deputado Jovair Arantes: líderes goianos são firmemente contra a união de seus partidos

Senador Ronaldo Caiado e deputado Jovair Arantes: líderes goianos são firmemente contra a união de seus partidos | Fotos: Fernando Leite

“Não vai ter fusão. Essa nós já enterramos. Quem quiser ir para o governo que vá. O DEM vai continuar na oposição.” A afirmação é do senador Ronaldo Caiado, do DEM, sobre a propalada fusão entre seu partido e o PTB.

No Brasil, a história mostra que a fusão de partidos tornou-se um instrumento de casuísmo, ou seja, com objetivos localizados, na maioria das vezes em atendimento aos interesses do governo. Entre outras conversas nos bastidores, há duas fusões mais ou menos em vista: a do PPS com o PSB e do PTB com o DEM.

No caso do PPS e PSB, parece que as tratativas caminham mais tranquilas. O mesmo não ocorre entre os democratas e os trabalhistas. E é dessa que vamos falar. Se há um, digamos, namoro, o noivado ainda é dúvida. Casamento, então, já cai na área do pouco provável.

A união entre democratas e trabalhistas está emperrada principalmente porque dois dos principais líderes das duas siglas, por acaso, goianos, são peremptoriamente contra. O senador Ronaldo Caiado, presidente regional do DEM e líder dos democratas no Senado, e o deputado federal Jovair Arantes, presidente regional do PTB e líder dos trabalhistas na Câmara Federal, não querem saber dessa conversa. E já manifestaram de forma ácida suas respectivas contrariedades.

Em conversa com esse colunista, na sexta-feira, 15, Jovair classificou a união PTB –DEM como “a fusão da confusão”. Também ao colunista, Ronaldo Caiado foi além e afirmou de forma categórica: “Essa união não vai acontecer. Todos podem ficar tranquilos, o DEM vai continuar sendo oposição ao governo do PT”.

O desentendimento sobre a questão se dá exatamente nesse ponto: enquanto Jovair Arantes quer continuar sendo linha auxiliar do governo federal, obviamente com as vantagens que isso proporciona em termos de cargos, facilidade de aprovar emendas e outras, Caiado quer continuar na oposição ao governo de Dilma Rousseff.

O senador também enxerga vantagens na manutenção dessa postura: colher os dividendos de ser oposição a um governo que perde popularidade a cada dia, comandado por um partido que está mergulhado na corrupção e que teve alguns de seus cabeças já condenados e outros no olho do furacão da investigação Lava Jato.

No PTB em outros Estados e na bancada federal há quem concorde e quem discorde de Jovair Arantes. No DEM em outros Estados e na bancada federal há quem concorde e discorde de Ronaldo Caiado. Por isso mesmo a questão está em impasse, mesmo com lideranças nacionais das duas legendas manifestando que a fusão é inevitável. A presidente nacional do PTB, deputada Cristiane Brasil — filha do ex-deputado Roberto Jefferson (RJ), o delator do mensalão —, quer pôr o partido na oposição ao governo Dilma.

O líder do PTB já teve oportunidade de fazer a contabilidade do contra. Segundo ele, dos 25 deputados petebistas, 22 não querem a fusão. No Senado, segundo ele, a situação é ainda pior: “Três de três” — Douglas Cintra (PE), Elmano Férrer (PI) e o líder da bancada, Fernando Collor (AL). Conforme Jovair, a tentativa de fusão tem causado desconforto muito grande.

“Uma questão como essa, que mexe com as ideologias de dois partidos tão diferentes, precisa ser discutida com a base e não ser impositiva como está sendo. Isso é ruim para o processo democrático”, afirmou, cunhando uma definição curiosa: “Querem criar um monstro de duas cabeças, que já está dividido na gestação. É um filho indesejado e pronto para o aborto”.

Jovair lembra que os trabalhistas contrários à fusão fizeram uma consulta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tentar barrar a ação, nem que seja pela Justiça. O resultado da consulta deve sair nesta semana. Ele mostra que não está para brincadeira. Diz que vai acatar o que a bancada da qual é líder decidir.

Mas não deixa dúvida sobre o que poderá fazer: “Tenho uma conversa preliminar com o Eduardo Machado (o goiano presidente nacional do PHS), uma conversa muito boa. Ele foi muito correto, ofereceu o partido e toda a perspectiva de estarmos juntos, para criamos no PHS uma estrutura nova, uma nova formatação. Estamos esperando o que vai acontecer para depois termos uma conversa mais profunda”.

Ronaldo Caiado, por sua vez, não admite que a fusão vá acontecer, mesmo quando lembrado que outras lideranças importantes do DEM sejam favoráveis. Ele diz que tem muito chão pela frente, muita coisa para acontecer. “Vai ter vários desdobramentos, o tempo vai passando.

Esse jogo eu sei jogar bem. Os democratas poderão fazer suas eleições pelo DEM; os trabalhistas pelo PTB. Não vai ter fusão. Essa nós já enterramos. Quem quiser ir para o governo que vá. O DEM vai continuar na oposição.”

Caiado mostra que está jogando com o fator tempo, talvez ecoando o prefeito de Salvador, ACM Neto, um dos líderes nacionais do seu partido, que afirmou no mês passado, em entrevista ao jornal Tribuna da Bahia, que a fusão com o PTB tem até dois meses para ser concluída. Caso as convenções das duas legendas não aprovem a união, segundo ele, certamente a ligação não ocorrerá.

Disse ACM Neto: “Os dois partidos precisarão fazer convenção nacional, as duas convenções precisam aprovar, depois das aprovações produz a fusão jurídica, encaminha para o TSE, que tem até dois meses para decidir. Então, até junho isso terá que ser concluído, se não for concluído até junho, não haverá fusão. É simples”.

A fusão PTB-DEM não interessa nem um pouco ao governo, uma vez que a tendência é de que o novo partido seja oposicionista. Aí, em tese seriam 47 deputados e 8 senadores contra o governo Dilma, que está sofrendo horrores para aprovar medidas mais impopulares no Congresso. A nova legenda se tornaria a quarta maior bancada tanto da Câmara quanto do Senado, dificultando ainda mais a situação do Planalto no Legislativo.

Essa é a razão de o governo tentar convencer a ala governista do PTB a se manter ao menos independente, garantindo a manutenção de cargos já sob controle dos trabalhistas no segundo escalão. Há poucos dias, divulgou-se que o vice-presidente e articulador político do governo, Michel Temer (PMDB), prometeu manter na s mãos da bancada petebista a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e a Superintendência de Seguros Privados (Susep). Evidentemente, os dois lados negaram que a oferta tenha sido uma tentativa de frustrar a fusão das legendas.

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