Cezar Santos
Cezar Santos

PT não defende José Dirceu por saber que (mais) provas de corrupção vão aparecer

Como defender um personagem sobre quem já se tem fartas informações de que a vida de riqueza ostensiva não é resultado de trabalho duro e honesto?

José Dirceu é levado preso por policiais federais: depois do mensalão, cadeia por envolvimento no petrolão | Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

José Dirceu é levado preso por policiais federais: depois do mensalão, cadeia por envolvimento no petrolão | Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Que o ex-ministro e sempre artífice mor do PT José Dirceu seria preso a qualquer momento, ele mesmo estava consciente disso. Tanto que em sua casa não havia nenhum papel incriminador. Dirceu tratou de limpar o lugar para não dar à polícia mais nenhuma pista de seu farto envolvimento em negociatas desde o dia 1º de janeiro de 2003. Efetivamente, nada foi encontrado no local.

A novidade na nova prisão do “guerrilheiro do povo brasileiro”, como os petistas chamam Dirceu nos encontros internos, é que o partido não saiu em defesa do segundo maior líder da sigla. Com fisionomia abatida e em um tom protocolar, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, fez uma defesa genérica de José Dirceu, preso no início da semana passada, na 17ª fase da Operação Lava Lato.

Falcão — que em outras oportunidades se mostrou bem mais convicto da honra de seus correligionários presos por corrupção; aliás, desde os tempos do mensalão — falou em apoio ao combate implacável à corrupção, mas sem o que chamou de “espetáculo midiático”. Disse que, assim como em outras situações, ele defende que o ônus da prova é de quem acusa e que cabe ao “companheiro Zé Dirceu” fazer o contraditório.

Cientista social José Álvaro Moisés: “É estranho que o PT não defenda José Dirceu. Deve ser medo sobre novas revelações” | Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Cientista social José Álvaro Moisés: “É estranho que o PT não defenda José Dirceu. Deve ser medo sobre novas revelações” | Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“Pra mim, qualquer pessoa que seja acusada é inocente até que provem o contrário”, declarou. “Dirceu e todos os acusados são inocentes, não são réus, até que se prove o contrário”, emendou Rui Falcão, manifestando ainda preocupação de que os indícios precisam ser transformados em provas. “Não estamos abandonando nenhum companheiro nosso.”

Falcão tergiversou. O PT está sim abandonando José Dirceu. E o faz por uma razão muito simples: sabe que mais indícios incriminadores vão aparecer cada vez mais. Ninguém ali acredita que a riqueza ostentatória do ex-ministro da Casa Civil nos últimos anos se deu por resultado de qualquer outro trabalho honesto. Por isso, estão conscientes de que vão continuar aparecendo, mais que indícios, provas materiais corroboradas pelas delações. Como fazer defesa numa situação dessas?

Lembro palavras que um ex-petista (por sinal, um dos fundadores do partido), o cientista político José Álvaro Moisés, professor de ciências políticas da USP e editor do site Qualidade da Demo­cracia. Moisés, em entrevista ao programa “Entre Aspas” (Globo News), disse achar estranho que o PT não defenda José Dirceu, quando se sabe que ele e o presidente Rui Falcão compartilharam muitos anos na mesma articulação interna, hoje chamada Cons­truin­do um Novo Brasil. “Aliás, uma coisa estranha, porque a ideia da construção de um novo Brasil ao mesmo tempo em que há um número tão grande de petistas envolvidos com a corrupção levantam uma dúvida sobre o que seria esse novo Brasil.”

O cientista político acredita que a prisão do Dirceu tenha suscitado nos petistas o temor de que vá aparecer mais coisas que ainda não vieram à tona e que, de uma maneira menos indireta que até agora, possam envolver dirigentes do partido. “Possivelmente até o ex-presidente Lula, por causa de todas as implicações.”

Estado de Direito

Deputado Rubens Otoni: “Nós temos que fazer a defesa de José Dirceu.  O espetáculo jurídico-midiático  viola a presunção de inocência” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Deputado Rubens Otoni: “Nós temos que fazer a defesa de José Dirceu.
O espetáculo jurídico-midiático
viola a presunção de inocência” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O deputado petista Rubens Otoni diz que o partido tem sim de sair em defesa de seu segundo filiado mais importante e afirma que isso foi feito, mesmo sem citar o nome do ex-ministro. Foi o que ele afirmou em entrevista à Rádio 730, na quinta-feira, 6. “Temos que sair em defesa de José Dirceu sim, claro. Mas temos de deixar claro que quando se sai em defesa das nossas lideranças, como é o caso de José Dirceu, não se pode confundir isso — e a oposição e alguns segmentos da mídia tentam aproveitar — como se o PT fosse contrário a qualquer investigação.”

Segundo o deputado, no caso do todo-poderoso ministro do primeiro governo de Lula, ele disse ser no mínimo um despropósito fazer todo um aparato midiático como se fez, para criar um impacto em cima de alguém que já está preso. “Ele [José Dirceu] já estava sob o cuidado da Justiça. O princípio de presunção de inocência nesse caso está sendo violado, o espetáculo jurídico-midiático se sobrepõe à necessária produção de provas para inculpar previamente indiciados, o que está acontecendo em vários casos.”

Otoni afirmou que setores da população vão perceber que se está tentando construir um Estado de exceção. “E se pode enxergar nisso uma afronta à Constituição e à democracia. Isso o PT não aceita. Vamos contrapor essas ameaças de criminalizar o PT fazenda a defesa da democracia. Defendemos que todas as investigações sejam feitas dentro do Estado democrático de Direito. Fizemos uma reunião da executiva nacional e isso está presente na nota divulgada.”

Sobre o fato de a nota não citar José Dirceu, ou seja, não ter sido feita a defesa explícita do ideólogo do partido, Rubens Otoni afirmou que a nota não contempla uma situação individual e que a preocupação é com a questão geral da democracia. “E aí sim entra a questão de José Dirceu. Na nota nós falamos claramente que o PT é favorável à apuração de qualquer crime envolvendo a apropriação privada de recursos públicos, de eventuais malfeitos no governo, a punição de corruptos e corruptores, mas não admitimos que isso seja realizado fora do marco do Estado de Direito.”

Lavando as mãos

Ex-diretor da Petrobrás Renato Duque, ligado a Dirceu: delação dele assusta o mundo petista | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Ex-diretor da Petrobrás Renato Duque, ligado a Dirceu: delação dele assusta o mundo petista | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Na verdade, tanto o PT quanto o Palácio do Planalto lavaram as mãos em relação a José Dirceu. O objetivo é evitar a contaminação. A prisão do ex-ministro da Casa Civil (o homem que seria o sucessor de Lula se o estouro do mensalão não tivesse explodido os planos) abalou ainda mais o governo de Dilma Rousseff, já definhando pela incompetência e falta de articulação política no Congresso.

A segunda prisão de Dirceu, pelo simbolismo que encerra, é um golpe forte demais para o fraco governo petista que procura desesperadamente se reerguer. E para o PT em si. O desaguadouro de dinheiro roubado da Petrobrás escoava em grande parte para as contas pessoais de seu correligionário. O que aconteceu mesmo quando ele estava na cadeia condenado no processo do mensalão.

Como anotou o jornal “Correio Braziliense”, segundo um integrante da executiva petista, Dirceu deixou de ser alguém que teria recebido propina para ser o “idealizador” do esquema, como enfatizaram os procuradores e juízes na entrevista coletiva após a prisão.
O medo no mundo petista, agora, é com a delação premiada do ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque. Duque era um homem de confiança absoluta e diretamente ligado a José Dirceu na petrolífera. Isso significa dizer que ele simplesmente sabe tudo. Tudo mesmo. Quando ele começar a abrir a boca, o mundo do PT pode ruir de vez.

PS.: Convido o leitor a reler o título desse texto, que foi escrito na quinta-feira, 6. No dia seguinte, a imprensa publicou que Júlio Cesar dos Santos, um dos presos na 17ª fase da Operação Lava-Jato, afirmou que comprou a casa onde mora a mãe dde José Dirceu, Olga Guedes da Silva, de 94 anos. A residência, localizada em Passa Quatro (MG), está registrada no nome de Júlio. A Polícia Federal confirmou a informação e o delegado Márcio Adriano Anselmo declarou que se trata de uma estratégia do ex-ministro para ocultar patrimônio.

Júlio disse que o imóvel foi adquirido por R$ 250 mil entre 2004 e 2005 — época em que José Dirceu era ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula. Além da confissão de Júlio, que era sócio minoritário da JD Consultoria (empresa de Dirceu) até 2013, na busca realizada na residência do irmão do petista Luiz Eduardo de Oliveira e Silva, a PF encontrou documentos que comprovam a compra da casa.

Segundo os investigadores, Dirceu usou a estratégia de utilizar lobistas ou laranjas para ocultar patrimônio outras vezes. “É um caso de ocultação de patrimônio. A casa onde mora a mãe de José Dirceu está em nome de um laranja, o Júlio Cesar dos Santos, que foi preso. Tem um documento atestando que custou R$ 250 mil, mas com certeza vale mais. Essa aquisição é do período em que ele era ministro, por volta de 2005”, salientou o delegado.

“Não deixem minha filha me ver preso”

O apelo de José Dirceu, quando os policiais federais chegaram a sua casa para cumprir o mandado de prisão, foi que não deixassem que sua filha de 4 anos o visse preso. O ex-ministro pediu para que a criança fosse retirada de casa. Ele não queria que a menina, Maria Antônia, visse a ação. Segundo o jornal “Folha de S. Paulo”, Dirceu trocou de roupa, tomou café da manhã e agradeceu por ter sido permitido a saída da filha dele antes da nova prisão, executada durante a 17ª fase da Lava Jato.

É, em todas as circunstâncias, tocante o cuidado que um pai tem com sua filhinha. Certa­mente, a criança ficaria muito assustada se visse a cena de homens armados, vestidos com roupas escuras, algemando o pai.

Mas uma pergunta se faz inevitável nessa situação. E os filhos de milhões de brasileiros que buscam, por exemplo, tratamento em postos de saúde e hospitais no SUS; que buscam educação melhor nas escolas sucateadas por falta de recursos; que buscam vagas que faltam em creches por esse Brasil afora?

Certamente que os hospitais e as escolas públicas no Brasil poderiam oferecer melhores serviços se a corrupção não drenasse tanto recursos que caberiam a elas. E, lembremos, bilhões, isso mesmo, bilhões de reais foram desviados da Petrobrás num dos maiores esquemas de corrupção do mundo.

E, lembremos ainda, a investigação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, conduzida pelo juiz Sérgio Moro, indicam que José Dirceu foi um dos artífices do esquema na petroleira, montado por ele quando ainda era ministro do governo Lula.

Segundo a investigação, além do dinheiro para alimentar o esquema de propina para partidos, políticos e funcionários corruptos da Petrobrás, Dirceu também se beneficiou pessoalmente. No mesmo dia da segunda prisão do ídolo petista, o juiz Moro determinou o confisco de R$ 20 milhões das contas do ex-ministro.

Ninguém pode ser ingênuo de acreditar que os bilhões de reais desviados da petroleira no esquema armado por José Dirceu teriam ido para os hospitais e escolas brasileiras. Essa mesmas escolas, creches e hospitais onde milhões de pais levam suas crianças (como a pequena Maria Antônia) e muitas vezes não encontram o atendimento necessário ou a educação adequada — será coincidência o fato de termos um dos piores ensinos públicos do mundo, como atestam os pífios resultados nas aferições internacionais?

O dinheiro que o pai de Maria Antônia fez ir para o buraco negro da corrupção seria muito bem-vindo nas escolas e hospitais do Brasil.

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