Cezar Santos
Cezar Santos

Prisão de Eduardo Cunha desmonta a narrativa petista

Ao mandar prender o ex-deputado federal peemedebista, juiz Sergio Moro liquida o argumento de que a Lava Jato só pega os filiados do PT

Ex-deputado federal que comandou o processo de impeachment de Dilma, Eduardo Cunha é escoltado por policiais federais: petistas pouco comemoraram

Ex-deputado federal que comandou o processo de impeachment de Dilma, Eduardo Cunha é escoltado por policiais federais: petistas pouco comemoraram

Com a prisão de vários petistas envolvidos nos escândalos do mensalão e do petrolão, filiados e adeptos do PT trataram de montar uma narrativa pela qual as investigações da Polícia Federal (PF), do Ministério Público Federal, do Tribunal de Contas da União (TCU) e outras instâncias tinham um alvo determinado: o próprio PT. Nas redes sociais, principalmente, essa tese sempre foi alardeada.

A questão é que os propagadores desse argumento nem se davam conta, ou fingiam não se dar conta, de que não petistas também já tinham sido engaiolados.

No mensalão, por exemplo, além de empresários e dos petistas José Dirceu, Delúbio Soares, João Paulo Cunha, José Genoino e Henrique Pizzolato (há outros), uma pá de políticos de outras siglas sócias do PT na corrupção foram ver o sol nascer quadrado: Roberto Jefferson (PTB), Valdemar Costa Neto (PR), Jacinto Lamas (PL), José Borba (PMDB), Romeu Queiroz (PTB), Bispo Rodrigues (PP), Emerson Palmiere (PTB) e Pedro Henry (PP).

Como se vê, uma confraria de gente finíssima não petista. Por isso, o discurso dos petistas não correspondia à realidade, mas isso não fazia diferença. O histórico do PT tem mostrado que para seus dirigentes, a verdade não tem diferença da mentira.

No atual processo do petrolão, em que a Polícia Federal e o Ministério Público Federal investigam o maior esquema de desvio de dinheiro público do mundo, engendrado pelo PT em conluio com o PMDB e o PP, principalmente, os petistas também esgrimiram a tese de “perseguição”. Versões as mais estapafúrdias possíveis foram assacadas na tentativa de dar sustentação a elas. Uma das teses mais delirantes foi a da filósofa Marilena Chauí, intelectual orgânica do PT.

Segundo Chauí, o juiz federal Sergio Moro, da Operação Lava Jato, foi treinado pelo FBI (a Polícia Federal dos EUA) para conduzir o caso. O objetivo da Lava Jato, segundo a filósofa, seria retirar do Brasil a soberania sobre o pré-sal. “Por que isso ficou claro para mim? Por que Sergio Moro foi treinado, nos Estados Unidos, pelo FBI. Ele recebeu um treinamento que é característico do que o FBI fez no Macarthismo [política de perseguição anticomunista adotada pelos EUA nos anos 1950] e fez depois do 11 de setembro que é a intimidação e a delação.”

Conforme a professora aposentada, os Estados Unidos teriam o objetivo de desestabilizar o Brasil. “A Operação Lava Jato é, vamos dizer, o prelúdio da grande sinfonia de destruição da soberania brasileira para o século 21 e 22.”

Mesmo embalado de belas palavras, o tortuoso raciocínio da professora monta um argumento estapafúrdio sob todos os pontos de vista. Mas esse argumento tem sido um dos que os petistas se apegaram para se dizerem “perseguidos” pelo juiz Moro.

Mas eis que na semana passada Sergio Moro manda prender o ex-deputado federal Eduardo Cunha, o algoz de Dilma Rousseff. A prisão decorre do processo que apura o recebimento de propina pelo peemedebista do contrato da Petrobrás para exploração de um campo de petróleo em Benin, na África.

A denúncia pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro foi recebida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas após a perda de foro por prerrogativa de função, o processo desceu até Curitiba, onde foi requerida e decretada a prisão.

Risco de fuga

Para o Ministério Público Federal, a prisão era necessária, uma vez que haveria risco de fuga do ex-deputado, que possui nacionalidade italiana e recursos no exterior. De acordo com o MPF, Cunha ainda exerceria influência política no governo de Michel Temer, mesmo tendo sido afastado.

Os petistas têm ódio a Cunha, lógico, mas as reações de aprovação à prisão dele não foram unanimidade nas hostes do partido. O problema é que, preso Cunha, a narrativa de que Moro “persegue” os petistas não mais se sustentava — aliás, como mostrado nas linhas anteriores, nunca se sustentou.

E agora, comemora-se a prisão de Cunha ou não?

O que fazer?

O jeito foi usar o fato para tirar dele alguma vantagem. E outro argumento foi criado na tentativa de continuar dando sustentação à narrativa de perseguição aos petistas: a prisão de Cunha se deu apenas para justificar a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, foi tudo “combinado”, uma forma de “prevenir” a detenção de um dos maiores beneficiários do esquema de corrupção na Petrobrás. Ele mesmo, Lula.

Daí para condenar a prisão de Cunha foi um pulo. Segundo alguns petistas, o pedido de prisão do peemedebista não é “legal”. Entenda-se o subterfúgio: se a prisão de Cunha não é legal, a prisão de Lula também não será.

O economista Luis Nassif, um dos comensais do lulopetismo, foi buscar a corroboração de intelectuais simpáticos ao PT. Em seu blog, escreveu que a prisão que causou alvoroço nas redes sociais pela rejeição ao político responsável pelo processo de impeachment, não comoveu juristas que não viram motivos para a decretação.

Nassif deu voz ao professor da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Salah H. Khaled Jr., “a regularidade da prisão preventiva de Cunha é tão questionável como infinitas outras barbáries recentes”.

“Parece hipócrita comemorar arbitrariedades só porque não temos simpatia pelo alvo em questão. É justamente essa impensada linha de raciocínio que permitiu que as coisas chegassem ao ponto que chegaram” – complementou.

Outro jurista, este professor da PUC-SP, Pedro Estevam Serrano, lembrou a que as prisões preventivas são dispostas no Código de Processo Penal como a última alternativa, podendo o magistrado impor outras medidas em seu lugar. “Mais uma prisão preventiva desnecessária e de legalidade duvidosa que o povo vai adorar, pessoal de esquerda incluso.”

Pois é. Nas redes sociais, terreno em que a galhofa come solta, os gozadores postaram que os petistas deram bug com a prisão de Eduardo Cunha: não sabem se comemoram, se condenam, ou se ficam indiferentes.

Eles só sabem de uma coisa: se Cunha foi preso, Lula também poderá ser preso sob os mesmos argumentos, posto que ambos são réus.

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