Cezar Santos
Cezar Santos

Petistas se espelham em Lula para “só pensar em cargos”

Ex-presidente faz de conta que não é ele o maior estímulo para a mentalidade dinheirista no PT

Lula da Silva em seminário na semana passada: “Ninguém mais trabalha de graça no PT” | Heinrich Aikawa/Instituto Lula

Lula da Silva em seminário na semana passada: “Ninguém mais trabalha de graça no PT” | Heinrich Aikawa/Instituto Lula

Cezar Santos

Um petista de baixo escalão hoje, em qualquer lugar do Brasil, tem um cargo comissionado. Ele pode até estar satisfeito com o salário que recebe, mas o desejo dele é que um parente também tenha um cargo comissionado, se já não tem.

Se o petista for de médio escalão, terá um cargo com salário bem melhor. Com maior influência no aparelho do partido local, ele já terá mais dois ou três cargos comissionados para parentes. Se o petista for de alto escalão, os cargos próprio e dos parentes serão melhores, mais bem remunerados, evidentemente.

Agora, se for um petista realmente da nomenklatura do partido, além dos cargos, vai querer fazer consultorias e tráficos de influência e aí, sim, receberá dinheiro grosso, em quantidade suficiente para se enriquecer, talvez para não precisar mais trabalhar. Estão incluídos nessa categoria, assim no sufragante, sem forçar muito a memória: José Dirceu (só de uma empresa foi R$ 1,45 milhão de propina), Antonio Palocci (R$ 12 milhões de empresas em 2010, quando coordenou a campanha presidencial de Dilma Rousseff), e Fernando Pimentel, hoje governador de Minas Gerais (R$ 2 milhões por consultorias que nem o suposto contratante consegue explicar).

Tem mais, como a ex-ministra Erenice Guerra, por exemplo. Ou a primeira-amante Rosemary Noronha, que nomeava e exonerava diretores de agências, facilitava contratos e recursos para o marido e amigos. O ex-tesoureiro Delúbio Soares, que foi condenado e preso no julgamento do mensalão.

O paranaense Henrique Pizzola­to é outro. Condenado no mensalão e hoje na cadeia na Itália, ele usou o cargo no Banco do Brasil (onde, pelo que consta, ingressou por concurso, mas alçou cargos de diretoria graças ao petismo) em benefício do PT e de si próprio.

Também o sucessor de Delúbio, Antônio Vaccari, que entre uma doação e outra de empresários para o partido, conforme consta nas investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal na operação Lava Jato, sempre achava tempo para depositar algum na conta de parentes. O ex-deputado André Vargas, está se descobrindo agora, cada vez mais fazia um robusto “pé de meia” com grana de corrupção.

Enfim, chega a ser cansativo arrolar nome de petistas que só pensam em cargo, em dinheiro. Mas o maior deles é o próprio Lula da Silva, hoje se sabe um lobista de empreiteiras, principalmente da Odebrecht. E sabe-se também, as investigações da Lava Jato não deixam dúvida, que a atividade lobística de Lula começou quando ele ainda estava na Presidência, usando o aparelho estatal para facilitar a tarefa.

Lula da Silva tornou-se um homem rico depois que chegou ao poder, igualmente seu filho Lulinha, “um craque, como Ronaldinho”, no dizer do próprio pai. Desfruta da companhia dos poderosos, tem casas luxuosas, vive um estilo de vida que só aos muito abonados é possível.

Por isso, a mentalidade de “só pensar em cargo, em emprego, em ser eleito”, como Lula reclamou na semana passada, tem razão de ser. Qualquer petista ao ver os exemplos que vêm de cima, se sente autorizado a pensar: se eles, os grandões, principalmente Lula, estão ganhando tanto, porque eu não posso ganhar um pouco?

Lula disse que os petistas só pensam em cargos. A fala se deu em seminário promovido pelo instituto que leva o nome dele, que tinha como convidado o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González. O ex-presidente pregou uma “revolução” no PT e afirmou que a sigla tem os vícios de todo partido que cresce e chega ao poder. “Não sei se o defeito é nosso, se é do governo. O PT perdeu a utopia.”

Nesse momento, ele disparou o diagnóstico de que os correligionários “só pensam em cargo, em emprego, em ser eleito”, em referência a cargos no governo federal (e nos governos estaduais e municipais, está aqui a Prefeitura de Goiânia que não nos deixa mentir) e disputas eleitorais. “Nós temos que definir se queremos salvar nossa pele, nossos cargos, ou nosso projeto.”

Ele falou mais, num exercício de autocrítica certamente muito calculado: “Hoje a gente só pensa em cargos, só pensa em emprego, em ser eleito. Ninguém trabalha mais de graça para o partido. Antiga­mente esse partido ia fazer qualquer coisa na rua e levava duas, três mil pessoas vestidas com a camiseta do partido e carregando bandeira. Hoje se os candidatos não liberarem o pessoal de seus gabinetes ninguém vai, só querem ir ganhando. É o vício de um partido que cresceu e que chegou ao poder. O PT precisa, nesse novo momento, criar uma nova utopia”.

PT não reage, ou seja, consente

Dilma Rousseff: a presidente está sob ataque do criador, mas não pode reagir para não piorar a crise | Lula Marques/Agência PT

Dilma Rousseff: a presidente está sob ataque do criador, mas não pode reagir para não piorar a crise | Lula Marques/Agência PT

O mais interessante nas declarações de Lula da Silva contra os petistas em geral é que elas não provocaram nenhuma reação efetiva, nenhuma contestação por parte dos petistas, seja de alguma pessoa física, seja do partido em si. Isso prova uma coisa: eles concordam com o que o chefão diz. Mais que nunca, o brocado da sabedoria popular é válido: quem cala consente.

No dia seguinte, certamente refletindo que não “pegaria bem” ao PT ficar totalmente inerte, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, balbuciou uma reflexão à crítica de Lula ao atual momento do PT, dizendo que ela “induz” todos os petistas a refletirem sobre a situação do partido”.

Cardozo ainda que Lula é o líder maior do partido e que ao fazer essa reflexão toma uma posição de vanguarda e coloca o tema em debate. “Lula é um dos grandes líderes do Brasil, é um líder com peso nacional e internacional. É legítimo que professe aquilo que acha que é correto para o partido que ele criou. Eu, pessoalmente, participo de uma corrente do PT que já há alguns anos acha que alguns aspectos do PT têm que ser reformulados”.

As declarações de Lula até podem ser consideradas bonitas, quando se pensa que seriam resultado de uma reflexão honesta e imparcial. Ocorre que não há nada de reflexão honesta nelas. São apenas oportunismo de um líder acuado, que tenta passar uma imagem de que ele não tem nada a ver com o que seu partido cometeu de corrupção nos últimos 14 anos. Ou, se tem um pouco, vá lá, ele humildemente está fazendo a autoexpiação e exortando os companheiros a se corrigirem.

Lula está mais do que nunca sendo Lula: joga uma cortina de fumaça na tentativa de sair ileso, como fez no processo do mensalão, do qual ele também foi o principal beneficiário. É uma tática já manjada do ex-metalúrgico. É o que ele está fazendo ao atacar o governo de Dilma, que está lá, nunca é demais lembrar, por obra e graça de Lula. Ou seja, o governo que encalacrou o país na derrocada econômica e no pântano da corrupção é culpa, em primeiro lugar, dele. Lula quer se descolar do governo ruinoso de seu poste.

É exatamente essa avaliação que uma ala mais próxima da presidente e também peemedebistas fazem. Lula, com suas últimas críticas direcionadas à petista, ensaia um descolamento de sua criatura para tentar sobreviver politicamente até 2018, quando haverá eleição presidencial. Lula está se colocando como “oposição” ao desgoverno dilmista.

Os governistas lembram que o ex vem batendo na tecla de que Dilma não ouve seus conselhos e intensificou este discurso em reunião com religiosos há cerca de dez dias, quando elevou o tom das críticas à petista e chegou a dizer que Dilma estava no “volume morto”. Ou seja, Lula estaria passando a mensagem de que a responsabilidade pela atual crise política e econômica, que jogou no chão a popularidade da presidente, é somente dela mesma.

O problema, avalia esta ala do governo, é que se esta é realmente a estratégia de Lula, há risco de naufrágio. Um assessor lembrou que o PT está numa situação pior do que o governo, que estariam unidos num processo de “corrosão”.

As críticas de Lula chegaram ao ponto de endossar uma posição dos tucanos, ao dizer que Dilma mentiu na campanha ao afirmar que não mexeria em direitos trabalhistas e não faria ajuste fiscal.

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