Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Pesquisa eleitoral se torna matéria-prima para fake news

O descrédito na política também é alimentado pelas mentiras que usam as estatísticas eleitorais

Os indícios que teremos uma eleição atípica este ano são muitos. Além das articulações, antecipações da campanha e improváveis alianças, há os temores do que uma polarização política pode provocar no decorrer do processo eleitoral. Neste contexto, falar sobre o perigo e chamar atenção para as  fakes nunca é demais. 

Entre tantos indícios de que a eleição este ano já é atípica, está a enxurrada de pesquisas eleitorais. Há todo momento tenta-se mostrar para qual caminho o eleitorado está se intencionando. É um bom termômetro. E neste ano é possível medir a temperatura dos candidatos junto ao eleitor quase que semanalmente – a cada evento nacional há a divulgação de um novo levantamento. 

A pesquisa de opinião é algo utilizado nas eleições há mais de meio século, embora só mais recentemente é que passou a impactar o processo eleitoral. Para se ter uma ideia, já no Código Eleitoral, que é de 1965, incluiu-se dispositivo, referindo as prévias ou testes pré-eleitorais. Com o decorrer do tempo e da disseminação das pesquisas eleitorais, a legislação avançou para regulamentação, estando elas previstas em capítulo próprio na Lei Eleitoral (1997) e em resoluções expedidas pelo TSE. 

A cada temporada eleitoral há uma enxurrada de pesquisas. Acompanhar esses dados a cada dois anos virou parte das nossas vidas. Ao mesmo tempo, como tudo que envolve política, as pesquisas geram desconfianças. É daí que o eleitor deve se perguntar: será que os números estão informando ou desinformando?

Não é de hoje que institutos de pesquisas acabam por enfrentar uma crise de credibilidade. Isso é devido em parte pelas medições realizadas durante as eleições acabarem por serem mal interpretadas ou manipuladas em favor, ou desfavor de algum grupo. Esse descrédito também é alimentado fake news que usam das estatísticas para despertarem desconfiança ou inventar novos enredos políticos. Quanto mais pesquisas, mas chances delas serem maquiadas ou apresentada de forma fraudulenta em aplicativos de troca de mensagens, ou redes sociais.

Como estamos há poucos meses da eleição, já se vê a crescente propagação de números que apontam a preferência do eleitorado, muitos são resultados de metodologias que seguem regras impostas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), outros são apenas fake news.

Com a corrida à presidência do Brasil, governo estadual, senado, deputados estaduais e federais neste ano de 2022, manchetes como essa temática serão cada vez mais produzidas. Para uma leitura correta das informações publicadas nestes estudos, é necessário entender conceitos teóricos, além da área matemática que é a estatística. Mas também é preciso fazer uma leitura crítica para não cair em manipulações.

Na última semana um exemplo foi gritando. Um tuíte que dizia que o instituto Ipespe divulgou uma pesquisa em que o presidente Jair Bolsonaro (PL) teria 85 milhões de votos no 1º turno e que isso equivaleria a 70% dos votos –  ou seja, a reeleição estaria garantir ainda no primeiro turno. Para quem se atenta para discrepância dos números para a realidade, uma breve pesquisa é suficiente para derrubar a afirmação de redes sociais.

Sim, é falto que Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) tenha divulgado pesquisa eleitoral na qual o presidente Jair Bolsonaro apareça com 70% das intenções de voto. Primeiro, o levantamento não consta no site do instituto. Toda pesquisa em ano de eleição precisa estar registrada no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde não é possível encontrar nenhum levantamento com esse resultado entre os mais recentes. O tuíte também engana ao dizer que um candidato que recebesse 85 milhões de votos teria 70% do total. Dados atualizados do TSE mostram que essa alegação está errada. 70% dos eleitores equivalem a 103 milhões de votos.

O TSE mantém uma página onde é possível consultar todas as pesquisas eleitorais registradas. A pesquisa do Ipespe mais recente (registro BR-03874/2022) foi divulgada em 6 de abril. Foi divulgada pela CNN, e identificou 44% das intenções de voto para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra 30% para Jair Bolsonaro (PL).

As pesquisas conseguem influenciar nas decisões dos eleitores – mesmo havendo opiniões divergentes. Fato é, que em qualquer eleição, pode-se dividir os eleitores em dois grupos distintos: os que estão absolutamente comprometidos com o candidato (ou pré-candidato) A ou B, e os que preferem se definir quando chegar a hora. Não necessariamente indecisos, mas sem ter um candidato específico para chamar de ´seu´. É este segundo grupo que pode, casando pesquisa com propaganda eleitoral, ser alvo de alguma influência através das pesquisas. É exatamente esse eleitorado que é bombardeado por notícias falsas que tendem a dar maior crédito a um candidato ou deixar em descredito o oponente. Assim como as pesquisas reais influenciam na decisão do eleitor, os números usados de forma leviana e intencional na produção de fake news também exercem forte influência para definição de um voto. 

Um levantamento, mas que não é de intensão de votos, e sim sobre a influência das fake news nas eleições. A circulação de notícias falsas em aplicativos de mensagens e em redes sociais pode influenciar muito o resultado das eleições deste ano, afirmaram 60% dos entrevistados pelo Datafolha. Outros 22% acham que deve impactar um pouco, 15% dizem que não vai interferir e 3% não souberam responder. No total, 84% dos participantes do levantamento têm conta em alguma plataforma digital, sendo 82% no WhatsApp, 61% no Facebook, 56% no Instagram, 30% no TikTok, 20% no Telegram e 16% no Twitter.

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