Cezar Santos
Cezar Santos

O tempo novo de Paulo Garcia

Prefeito deixou de ouvir maus conselhos e adota relação cordial com o adversário — e não inimigo — Marconi Perillo, o que beneficia principalmente os goianiense

Prefeito Paulo Garcia e governador Marconi Perillo em vistoria de obras da Prefeitura de Goiânia: distensão nas relações entre gestores favorece a população | Foto: Wagnas Cabral

Prefeito Paulo Garcia e governador Marconi Perillo em vistoria de obras da Prefeitura de Goiânia: distensão nas relações entre gestores favorece a população | Foto: Wagnas Cabral

Há problemas na administração do petista Paulo Garcia em Goiânia. Ou, melhor dizendo: continua a haver problemas, como atraso em obras, potencializados por falta de recursos, gestores francamente inoperantes na equipe, sofrível articulação política no Legislativo.
Acresce-se a isso, inabilidade política flagrante em diversos momentos, como nos episódios de aumento de impostos, fortemente rejeitado pela sociedade. Com tudo isso, a gestão do petista vinha decorrendo em baixo astral. Mas agora há uma diferença de “clima”, podemos dizer. Antes, um peso, um “bode”. Agora, mais leveza.

O que causou essa diferença, considerando que ainda continua a haver problemas?

Faço aqui uma pequena digressão. Há várias definições sobre política. Escolho duas, que, de certa forma, abrangem todas. A primeira delas: “A política é a arte (ou doutrina) do possível”, disse-o o prussiano Otto von Bismarck, que ficou conhecido como o Napoleão da Alemanha.
A segunda definição: “A política é a arte de governar o (ou para) povo”, foi cunhada por Aristóteles.

Até poucos meses, Paulo Garcia não vinha fazendo política dentro desses preceitos. No rastro de problemas administrativos flagrantes, o possível não estava sendo realizado. Pela mesma razão, o petista também não estava governando para os goianienses.

A gestão estava fechada em si mesma, com a nítida preocupação de apenas satisfazer os grupos de pressão tanto de seu próprio partido, o PT, quanto do PMDB de Iris Rezende, o parceiro de primeira hora.

Paulo Garcia era o prefeito que não fazia o possível e não governava para os munícipes. E um dos problemas mais evidentes de seu governo era o isolamento em relação a uma instância crucial para qualquer administrador municipal: o governo do Estado, mais especificamente o governador Marconi Perillo (PSDB).

Um prefeito que não faz parcerias com o governo estadual pode até ter sucesso em sua gestão. Mas com parcerias, certamente terá muito mais chances de fechar bem seu período administrativo.

Após ganhar a eleição no primeiro turno, com a ajuda valiosíssima e imprescindível de Iris, Paulo foi levado a pensar que com seu próprio partido, com Iris e com a ajuda do governo federal, poderia prescindir do governo estadual. Na linguagem mais dura (e chula) dos bastidores da política se dizia: “Paulo se deixou emprenhar pelos ouvidos”.

Açulado por Iris Rezende, o prefeito adotou um comportamento francamente hostil ao Palácio das Esmeraldas e ao seu titular. Passou a agir movido pelo fígado e não pelo cérebro. Volta e meia dizia palavras ásperas contra Marconi, ao que o tucano não dava respostas diretas, tarefa que deixava principalmente ao auxiliar Jayme Rincón.

E Jayme saía-se muito bem do encargo. Rebatia Paulo e não perdia oportunidade para dizer que o Estado estava aberto ao diálogo, às parcerias com a Prefeitura de Goiânia, que não queria.

Na medida em que as dificuldades administrativas da Prefeitura de Goiânia foram se aprofundando e, em consequência, a popularidade de Paulo Garcia foi caindo, os peemedebistas foram deixando o petista meio isolado. O PMDB não queria, como não quer, o ônus do fracasso, embora não entregue os cargos que detém na prefeitura, obviamente.
E o PMDB não quer o ônus de se ver política e eleitoralmente atrelado a Paulo Garcia por temer que o contágio da baixa popularidade lhe atrapalhe os planos de voltar à prefeitura na eleição do ano que vem.

Mas e se Paulo Garcia se recuperar, se não totalmente, mas pelo menos a ponto de não comprometer a imagem de um candidato que ele apoie?  Bem, aí o PMDB continuará sendo o PMDB, não hesitaria em dar marcha à ré no que pensa agora.

E Paulo Garcia pode mesmo se recuperar. O motivo é simples: ele deixou de ficar preso aos maus conselhos que o mandavam trocar de mal com o governo de Marconi Perillo. A distensão é flagrante e chegou ao ponto de, na semana passada, Paulo convidar o tucano para vistoriar serviços na capital: canteiro de obras do Bus Rapid Transit Norte-Sul (BRT) e Parque da Vizinhança 2, do Programa Urbano Ambiental Macambira Anicuns (Puama), na divisa dos setores Vila Boa e Faiçalville.

Ao longo da vistoria, os gestores realçaram a boa convivência entre a Prefeitura de Goiânia e o governo estadual nos últimos tempos em prol da execução de obras e melhorias. O detalhe: nenhuma das obras vistoriadas tem recursos do tesouro do Estado.

Os dois conversaram no maior clima de cordialidade, aliás, como deve ser entre gestores públicos civilizados. O Opção Online registrou que Marconi Perillo fez perguntas, como o custo total das obras, a regularização de áreas e os trabalhos de drenagem do Puama. Paulo Garcia detalhou os custos, explicou o funcionamento dos serviços. Ambos se elogiaram.

Auxiliares avaliaram a visita como forma de retribuição do prefeito ao governador após a parceria firmada para o funcionamento do Hospital de Urgências de Goiânia Otávio Lage (Hugol) da Região Noroeste, inaugurado poucos dias antes, solenidade à qual Paulo Garcia compareceu e elogiou a obra.

O secretário estadual do Meio Ambiente, Recursos Hídricos, Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos, Vilmar Rocha (PSD), acompanhou o passeio de Paulo Garcia e Marconi Perillo. E Vilmar, por sinal, disse à imprensa dois dias depois que a recente boa relação administrativa entre o tucano e o petista vai continuar. “Temos vários projetos em comum em discussão e alguns já praticamente prontos para serem iniciados. Esta relação tende a só melhorar.”

Sabe-se que os dois governos discutem a realização de obras conjuntas e projetos nas áreas de cultura e social, além da realização de estudos para a integração dos eixos de transportes públicos BRT Norte-Sul (previsto para 2016) com o futuro VLT no Eixo Anhanguera (para 2017).
Vilmar lembrou que não é de agora que o governo estadual procura ter boa relação com Paulo Garcia, lembrando que isso acontece com os prefeitos oposicionistas Maguito Vilela (Aparecida) e João Gomes (Anápolis). “Tentamos no final de 2012, mas não houve avanço.

Felizmente, o prefeito de Goiânia mudou a postura e está aberto ao diálogo. O político moderno precisa ter capacidade para o diálogo, evitar o isolamento”, disse o secretário.
Paulo Garcia se abriu ao diálogo, às parcerias. A mudança de ânimo é visível no semblante do petista. Paulo está vivendo o tempo novo de sua administração. E se ele ganha com isso — e ganha muito, politicamente —, ganham mais ainda os goianienses. Os cidadãos não querem saber de brigas entre gestores, querem obras e serviços.

Na hora da campanha eleitoral, bem, aí é outra história. Cada qual que defenda o próprio trabalho, apresente suas propostas ao eleitor e aguarde o resultado nas urnas.

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