Cezar Santos
Cezar Santos

O ocaso do casal

O que explica o fato de o PMDB estar na bica de emplacar sua quinta derrota seguida na disputa pelo governo do Estado e mesmo assim continuar sendo a principal referência da oposição?

Iris Rezende e Iris Araújo: casal personaliza a derrocada do PMDB, o maior partido de oposição no Estado

Iris Rezende e Iris Araújo: casal personaliza a derrocada do PMDB, o maior partido de oposição no Estado

Afinal, a derrota iminente é mais do PMDB ou do casal Iris Rezende e Iris Araújo?

A pergunta é inevitável diante do fato de que o partido está ca­minhando para emplacar o quinto revés seguido na disputa pelo governo em Goiás, uma vez que seu candidato, Iris Rezende, terminou o primeiro turno em se­gundo lugar, atrás, bem atrás, de Mar­coni Perillo (PSDB). Por pouco a eleição não terminou no dia 5 passado.

Com o segundo turno, o PMDB respira. Mas, é difícil, muito difícil que Iris consiga reverter o quadro. São mais de 550 mil votos de frente que Marconi Perillo tem, considerando apenas a diferença nas urnas ao final do primeiro turno.

Para piorar a situação do peemedebista, em Anápolis, onde ele teve pífios menos de 5% dos votos, o tucano vai reinar com a saída de cena do ex-prefeito Antônio Gomide (PT). Vai ser um banho de votos pró-tucano na cidade, onde o PMDB amarga uma rejeição histórica. Só lembrando, Anápolis é o terceiro maior colégio eleitoral goiano.

Diante desse cenário, volta a pergunta inicial: é o próprio PMDB que está sendo derrotado seguidamente? Há quem diga que não. Se­gundo essa corrente, a culpa pelas sucessivas derrotas tem nome: Iris. E não se trata de uma só pessoa, mas duas, o Rezen­de e a Araújo. Para am­bos, o de­clínio pode ser contabilizado. A votação que ele obteve no primeiro turno agora, com 28,4% (898.645 votos), foi a pior desde a pri­meira derrota em pleito estadual para Marconi Perillo, em 1998.

Em 2002, o candidato do PMDB foi Maguito Vilela (contra Alcides Rodrigues apoiado por Marconi), que perdeu no primeiro turno, mas com porcentual superior ao que teve Iris agora, 32,8% (833.554 votos). Em 2006, o PMDB, de novo com Maguito, teve um desempenho ainda maior no primeiro turno, com 1,1 mi­lhão de votos (41,17%). E em 2010, de novo com Iris contra Marconi, o líder peemedebista obteve 36,37% (1.099.552 votos), no primeiro turno.

No caso da deputada federal Iris Araújo, a comparação é simples e direta. Ela foi a federal mais votada em 2010, com 185.934 votos. No domingo passado, quando se dava como certa sua reeleição, ela obteve apenas 65.907 votos e fica fora do Congresso. Como está na primeira suplência, talvez sua única esperança seja que o marido ganhe a disputa com Marconi, convoque ou Daniel Vilela ou Pedro Chaves para o governo e ela assuma. Difícil, né?
A conclusão é inevitável: os números do PMDB vêm minguando ao longo do tempo, consequência direta do esvaziamento político da dupla Iris-Iris.

Iris, o marido, está na lida pelo governo, todos sabemos. Além de ter perdido nos números no primeiro turno – menos de 900 mil votos (28,4%) contra os 1,4 milhão (45,8%) de Marconi —, o ex-prefeito amarga outras derrotas. Ele não conseguiu, por exemplo, eleger nenhum deputado estadual que se possa dizer que lhe seja realmente fiel.

Para a Assembleia, a aposta de Iris estava principalmente em Livio Luciano — aliás, seu primo e homem de estrita confiança – e Wagner Siqueira. Não é difícil imaginar que a estreita ligação com Iris tenha prejudicado a votação de ambos, que são bons políticos.

Alguém dirá, mas o PMDB elegeu cinco deputados (eram sete). Sim, é verdade, mas Paulo Cezar Martins, Bruno Peixoto, Adib Elias, José Nelto e Ernes­to Roller, de uma forma ou de outra têm luz própria, não precisam de Iris para fazer campanha e conquistar assento na Assembleia. Bruno Peixoto, aliás, foi um dos primeiros a aderir alegremente ao projeto de Júnior Friboi, para depois recuar. Friboi também ajudou a eleger gente de outras siglas, como Charles Bento (PRTB), entre outros.

Para a Câmara Federal, foi pior ainda. Os dois representantes do PMDB não são ligados a Iris. Daniel Vilela, o segundo mais votado para a Câmara, é fi­lho de Maguito Vilela e hoje uma das peças mais importantes do “friboisismo”. Pedro Cha­ves, re­eleito, também é ligado a Friboi.
Para a Câmara, por sinal, a derrota-símbolo para Iris Rezende foi justamente a não reeleição de sua mulher, a campeã de voto no pleito passado. E ela culpa a tudo e a todos, até o marido, pela derrota, externando isso em reuniões do partido e abrindo mais uma crise na sigla.

E não se pode esquecer que os peemedebistas do interior, principalmente, sempre reclamaram do potencial desagregador de Iris Araújo, sempre favorecida pelo ex-prefeito em detrimento dos outros companheiros. Foi esse favorecimento que a deputada reclamou não ter recebido do marido dessa vez, sem querer reconhecer que ele até fez, como pressionar o prefeito Paulo Garcia, mas não adiantou.

Caso se confirme a derrota ao governo anunciada nohorizonte, Iris Rezende pode perder o comando do PMDB no final do ano, quando se renova a direção da sigla. Enfraquecido pelos sucessivos reveses, inclusive com a torcida e até o trabalho de peemedebistas, o experiente líder deve sucumbir.

Júnior Friboi, que já conta com a maioria do partido, irá com tudo pra cima de Iris. Friboi não perdoa a rasteira que levou do velho líder na pré-campanha. O empresário está intrinsicamente ligado ao atual infortúnio eleitoral de Iris Rezende, não bastasse o apoio que está dando declaradamente ao adversário tucano.

Mas há um fato assaz interessante nessa história. O PMDB continua sendo o grande referencial como oposição em Goiás. Uma tal terceira via capitaneada por Vanderlan Cardoso (PSB) não vingou em 2010 nem agora. O PT, que estava aliado ao PMDB, entrou num delírio e chegou a imaginar que teria alguma possibilidade de sucesso num voo solo com o desconhecido Antônio Gomide e com uma risível chapa proporcional.

Restou o PMDB velho de guerra, que bem ou mal, aos trancos e barrancos, está no segundo turno. É um partido forte, com história, com lastro numa boa parte do eleitorado, embora esteja perdendo capital político dia a dia, principalmente por culpa da liderança envelhecida de Iris Rezende. Resta aguardar para ver ser o partido se renovará com novas lideranças, como Friboi e Daniel Vilela. Os Iris vão deixar?

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