Cezar Santos
Cezar Santos

O Iris Rezende tocador de obras ficou no passado

Imagem de grande realizador que o decano do PMDB construiu teve pouca sustentação nos dois últimos mandatos como prefeito de Goiânia

Iris Rezende em seu escritório político | Foto: Fernando Leite

Iris Rezende em seu escritório político | Foto: Fernando Leite

O peemedebista Iris Re­zende quer ser candidato a prefeito de Goiânia, mais uma vez. Por mais que ele faça, como sempre fez, negaças de ser candidato, todos sabem que ele será sim, o postulante do PMDB, que tem pouquíssimas alternativas. Ademais, a Prefeitura da capital é muito importante para as pretensões futuras da sigla.

E Iris candidato a mais uma vez dirigir a cidade se sustentaria em grande parte na imagem de realizador, de grande tocador de obras, o que ele realmente foi. Nesse sentido, Iris é — ou foi — um ícone da política goiana, não há dúvida.

Não teria como não ser com o vasto currículo dele, desde líder estudantil, vereador na capital, deputado estadual, prefeito de Goiânia (1965/69), governador de Goiás por duas vezes, ministro da Agricultura (1984/89), senador da República, ministro da Justiça (1997/1998) e novamente prefeito de Goiânia por duas vezes (2005/2008 e 2009/2012).

Aos 82 anos de idade, Iris é o político goiano que mais disputou mandatos, numa carreira de muitas vitórias e algumas derrotas — perdeu a disputa pelo governo estadual três vezes para o tucano Marconi Perillo, em 1998, 2010 e 2014; e perdeu a disputa ao Senado em 2002, quando as duas vagas ficaram para Demóstenes Torres (DEM) e Lúcia Vânia (PSDB).

Nesse intervalo de derrotas, ele ganhou duas vezes a Prefeitura de Goiânia, em 2004 e 2008, e foi o responsável direto pela reeleição de seu vice-prefeito em 2012. Essas vitórias deram ânimo novo ao decano peemedebista, que muitos consideraram “morto” politicamente após as derrotas de 1998 e de 2002, quando, diziam, ele entrou num processo depressivo e se recolheu a suas propriedades rurais.

Em seu primeiro mandato como prefeito (1965/69) — e nos dois como governador (1982/84 e 1991/94), Iris forjou a imagem de realizador, de grande tocador de obras. E, de fato, a fama se fez merecida. Na primeira passagem como prefeito, ele construiu obras que marcaram e continuam marcando a cidade, como o Parque Mutirama, a Vila Redenção, a Vila União, a Vila Alvorada e a Vila Canaã.

O Iris prefeito pela primeira vez também duplicou a Avenida Anhanguera até o Dergo, construiu a Praça do Avião, a Praça Universitária (projetada nos anos 1930 por Attilio Corrêa Lima), asfaltou os bairros Popular, Vila Nova, Campinas, Universitário e Setor Coimbra, construiu a sede da Prefeitura de Goiânia na Praça Cívica (que depois ficou conhecido como “barracão da prefeitura”).

O rol de realizações de Iris Rezende nos dois mandatos como governador também é considerável. A mais vistosa, que obteve alcance nacional (houve reportagens até em jornal do exterior) foram as mil casas construídas em Goiânia em um dia, no sistema de mutirão. Depois, a construção, também em um só dia, de 3,3 mil casas em 49 cidades do interior.

Além disso, o peemedebista fez 8 mil quilômetros de rodovias pavimentadas, 100 postos de saúde e mil salas de aula em um mês no sistema de mutirão. Os registros dão conta de que 300 mil empregos foram gerados através do Programa Fomentar, que Iris implantou; 40 distritos agroindustriais; 150 ginásios de esporte; construção da quarta etapa da Usina de Cachoeira Dourada; eletrificação em 200 mil novas propriedades rurais; construção do Terminal Rodo­viário, do Centro de Convenções e do Palácio da Justiça (Fórum), todos em Goiânia.

A forja de grande realizador que Iris construiu foi merecida, mas a história parece ter começado a mudar quando ele ganhou a prefeitura pela terceira vez, em 2003. O grande mote da campanha foi asfaltamento de todas as ruas sem pavimento. E Iris asfaltou 1,6 mil km em muitos bairros afastados do Centro, principalmente na região noroeste da capital. Também construiu 16 parques ambientais, praças e Centros Municipais de Educação Infantil.

Se ele fez muito asfalto, o problema é que o serviço foi de baixa qualidade, o que causou sério problema ao sucessor, que teve de consertar muito pavimento estourado pouco tempo depois de inaugurado. O peemedebista realizou também duas obras vistosas, os viadutos na Avenida 85 (Praça do Ratinho e Praça da T-63), que a população batizou de “espetos do Iris”.

Esse mandato deu alta popularidade a Iris Rezende — certamente os goianienses estavam com saudade de alguém trabalhador, uma vez que o gestor anterior tinha sido Pedro Wilson (PT) — e ele foi reeleito com grande facilidade. Mas no segundo mandato, a verve de tocador de obras ficou amortecida. Iris se limitou a tocar a folha de pagamento, de olho na candidatura ao governo.

E, de fato, o peemedebista renunciou no dia 1º de abril de 2010 e entregou o cargo para o vice Paulo Garcia (PT), para ser candidato ao Palácio das Es­meraldas no mesmo ano — e de novo ser derrotado por Marconi Perillo. Iris deixava ao sucessor algumas “bombas armadas”, por exemplo, na desestruturação do sistema de coleta de lixo e uma pesada dívida sobre a qual, num primeiro momento, nada se falou.

No resumo do que foi escrito até agora pode ser feito numa pergunta: qual é o legado que Iris Rezende deixou aos goianienses, em seus cinco anos e três meses gomo gestor da capital?
Ele poderá dizer que asfaltou muito bairros, como foi escrito antes. Ele poderá dizer que implantou muitos parques ambientais. Mas, pavimentação é ação de rotina para qualquer prefeito. Parque é uma das realizações mais fáceis de fazer. A verdade é que asfalto e parque são muito pouco para um gestor de uma cidade da dimensão de Goiânia.

Obra do BRT em Goiânia: Paulo Garcia encarou o desafio de realizar algo para melhorar o transporte coletivo na cidade | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Obra do BRT em Goiânia: Paulo Garcia encarou o desafio de realizar algo para melhorar o transporte coletivo na cidade | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Na campanha de 2004 e 2008, Iris Rezende propôs resolver os problemas do transporte coletivo e do trânsito da capital. Se tivesse realizado os compromissos assumidos no palanque e na propaganda eleitoral, aí sim, seria um legado extraordinário. Mas, no transporte coletivo, nada. No trânsito, os dois viadutos foram muito pouco. A questão é que Iris fez essas promessas a seu modo populista, não como um gestor de fato, e não as cumpriu. Tanto que os problemas continuam.

Em contraste, Paulo Garcia encarou essas questões, mesmo com as dificuldades financeiras que ele herdou de Iris Rezende. O prefeito levou em frente os corredores exclusivos de ônibus, medida que sofreu resistência no início, mas que depois ficou provado que contribuíram para melhorar o transporte coletivo. E está construindo o BRT, uma obra que, essa sim, ficará com um legado dos mais importantes para os goianienses.

São fatos que mostram que o mito de Iris Rezende como grande tocador de obras entrou em colapso. E aí cabe a questão: Goiânia precisa mais de gestão ou de populismo?
O eleitor vai decidir. l

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