Cezar Santos
Cezar Santos

Meirelles é o avalista de Temer

Do homem forte da economia depende a retomada do crescimento, o que é politicamente crucial para o presidente interino

Michel Temer e Henrique Meirelles: o ministro da Fazenda potencializa o fator credibilidade do presidente interino, o que é importante para aprovar medidas no Congresso Nacional | Foto: Beto Barata/PR

Michel Temer e Henrique Meirelles: o ministro da Fazenda potencializa o fator credibilidade do presidente interino, o que é importante para aprovar medidas no Congresso Nacional | Foto: Beto Barata/PR

O goiano de Anápolis Henrique de Campos Meirelles foi o homem que Lula da Silva chamou para viabilizar seu governo. O mercado estava temeroso de que Lula cometesse desatinos na economia e Lula (que é inculto, mas é inteligentíssimo) sabia que precisava deixar claro que não, não deixaria petistas conduzirem uma das mais importantes economias do mundo, porque isso seria desastroso.

A solução foi chamar Meirelles, que no comando do Banco Central guiou a política econômica durante toda a era Lula. Lula saiu-se bem, embora no segundo mandato já começasse a desatinar, incorrendo e repetindo erros como o estímulo artificial ao consumo, o que elevou sobremaneira a dívida das famílias.

Veio Dilma Rousseff e o desastre foi completo. Com Guido Mantega na condição de ministro do Planejamento, a economia foi degringolando. Lula até pediu a Dilma que colocasse Henrique Meirelles para consertar as coisas, mas a petista não cedeu. Para ela era inadmissível um ministro com autonomia e, pior, que soubesse fazer o certo.

Henrique Meirelles não é o único economista brasileiro de bom senso, profundamente conhecedor do mercado financeiro e com experiência nas lides políticas – embora não tenha exercido nenhum mandato, já que ao de deputado federal por Goiás, conquistado em 2002, ele renunciou para assumir o convite de Lula.

Mas o anapolino é sim o grande nome para as atuais circunstâncias. Por isso Michel Temer não titubeou ao convocá-lo para o Ministério da Fazenda, dando-lhe carta branca para arrumar a economia estropiada por Dilma e sua turma. Foi uma tacada de mestre, sinalizando aos mercados interno e externo que chegou ao fim os anos de loucura e de incompetência na condução da economia brasileira.

Por isso, claro está que o sucesso de Temer em seu mandato-tampão depende do sucesso de Meirelles, a equação é direta. O goiano ministro é o avalista do paulista presidente.

“Vim para fazer um projeto para o País”

Na quinta-feira, 23, Henrique Meirelles esteve em evento da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), em São Paulo, quando fez um diagnóstico preciso da crise econômica, problema do qual é ele o responsável por dar início à solução. Ele afirmou que a gravidade do momento exige medidas firmes, que produzam efeitos de longo prazo.

“O governo é interino, mas os projetos são de 20 anos. Eu aceitei vir não para fazer um projeto de governo, mas um projeto para o país. Quem estará aqui daqui a três meses, três anos ou dez anos não me preocupa agora e é isso que todos deveriam fazer”, disse. O atual momento de crise, disse, é também uma oportunidade para resolver problemas estruturais. Ele citou a crise de 17 anos atrás como exemplo. “A crise de 1999 ofereceu a oportunidade da lei de responsabilidade fiscal, por exemplo”.

A responsabilidade no trato com a crise está no centro da preocupação do ministro. “Não podemos começar quebrando o país”, disse a respeito das críticas à limitação do crescimento das despesas de saúde e educação. Afirmou que o problema da educação no país não é de recursos, mas sim de qualidade, ou seja, de gestão. Ele voltou a defender a proposta do governo, de limitar o crescimento de gastos da União à inflação do ano anterior. “Chegamos a um momento de decisão, agudizado pela crise econômica. O quadro é dramático, setores industriais me relataram ociosidade acima de 40%”, disse.

Segundo o ministro, a solução do déficit fiscal é a chave para a recuperação econômica. “Em primeiro lugar, é preciso restabelecer a saúde financeira do país. A despesa pública não pode mais crescer 6% em termos reais como antes. Por algum tempo, alta da despesa foi financiada por carga tributária.”

Henrique Meirelles disse que sua equipe econômica partiu do princípio de apurar um déficit primário realista para, a partir daí, começar a organizar as contas públicas. Meirelles também reforçou a importância de fazer um planejamento financeiro de longo prazo. “Nossa abordagem é propor a evolução dos gastos nos próximos 20 anos. Para restaurar a confiança, o governo precisa mostrar que pode controlar despesa e de solução forte o suficiente para que dívida caia.”

Depois de propostas as medidas fiscais, o ministro afirmou que o próximo passo será analisar uma agenda microeconômica.

O ministro da Fazenda disse que a PEC que vai estabelecer regras para os gastos públicos deve ser aprovada, na avaliação otimista, em dois ou três meses. Na avaliação pessimista, afirmou, deve ser aprovada até o fim deste ano para entrar em vigor no ano que vem. “Não vou ficar fazendo previsão otimista ou pessimista, eu só quero levar a mensagem a todos de que precisa ser aprovada.”

O ministro destacou que o Congresso tem encaminhado projetos importantes. Ele exemplificou a aprovação do déficit primário de R$ 170 bilhões para o ano e o projeto de governança dos fundos de pensão das estatais. “Em resumo, tudo está encaminhado. A DRU foi aprovada por vasta maioria. Tudo indica que há disposição do Congresso e bom diálogo com o Executivo.”

E, certamente, esse é o principal diferencial de Michel Temer em relação a Dilma Rousseff: a credibilidade para fazer o Congresso aprovar medidas que, mesmo num primeiro momento, sejam impopulares. Com Henrique Meirelles no comando da economia, essa credibilidade é potencializada.

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