Com o advento da tecnologia, diversas áreas passaram por profundas transformações para não se tornarem obsoletas. Empresas privadas adotaram diferentes ferramentas, inclusive a Inteligência Artificial (IA), para otimizar processos que antes levavam horas ou até dias para serem concluídos.

Diante desse avanço, o poder público também precisa adotar medidas que facilitem a vida dos cidadãos. Do agendamento de uma consulta à emissão da guia para pagamento de determinado imposto, passando pela aceleração da análise de uma certificação, a modernização mostra-se indispensável em tempos de tamanha praticidade.

Mas, para que isso saia do papel, o governante também precisa se mostrar aberto e disposto a aprender mais sobre o assunto e se debruçar sobre tudo o que envolve tecnologia, entendendo como ela pode fazer sentido e trazer resultados concretos à população. Afinal, uma tecnologia empregada de maneira equivocada pode ser mais nociva do que resolutiva.

Por isso, reforça-se a importância de o governo estar ciente dessas transformações e, claro, apresentar, na prática, os benefícios que determinada ferramenta traz ou pode trazer para a administração pública. Essas informações precisam ser palatáveis ao eleitor. Não dá para ficar apenas no campo subjetivo. As pessoas querem saber como a tecnologia pode resolver problemas do dia a dia, e não apenas conhecer seus aspectos técnicos.

Trazendo esse debate para o âmbito estadual, nota-se que o candidato ao Palácio das Esmeraldas pelo PSDB, Marconi Perillo, está recorrendo constantemente ao saudosismo em relação aos seus governos, mas esse movimento tem flertado muito com o analógico. Em determinados momentos, parece que o tucano ficou parado no tempo ao apresentar propostas a um público que irá às urnas em uma realidade completamente diferente daquela de seus primeiros mandatos.

Em seu plano de governo, Marconi Perillo propõe retomar programas como o Cheque Moradia e o Cheque Reforma. Ao formular o documento, parece que os envolvidos se esqueceram de que o cheque, enquanto instrumento de pagamento, caiu em desuso há muito tempo. Não faria sentido reviver um meio de pagamento que praticamente desapareceu do cotidiano da população. Após ser questionado sobre isso, o ex-governador passou a falar em Pix Moradia e Pix Reforma.

Entretanto, para além da forma de implantação, permanece uma dúvida: como ficará a fiscalização para garantir que o benefício chegue efetivamente a quem precisa e seja utilizado para a finalidade prevista?

O questionamento não surge do nada. Este que escreve já presenciou situações em que o antigo Cheque Reforma era utilizado como moeda de troca entre moradores de um bairro da capital contemplado pelo benefício. Algumas pessoas, para sustentar vícios em álcool e drogas, vendiam cheques de determinados valores por quantias irrisórias. Uma pessoa chegou a comprar mais de R$ 2 mil em Cheques Reforma por apenas R$ 50. Casos semelhantes, segundo relatos da época, não eram isolados.

Posteriormente, já no governo de Ronaldo Caiado, a política habitacional estadual passou por mudanças e ganhou um novo formato, com programas voltados à construção de moradias, reformas e transferência de renda para famílias em situação de vulnerabilidade. A proposta de construção de casas também avançou para municípios do interior, ampliando o alcance da política habitacional para além dos grandes centros.

O leitor pode perguntar: “Onde está a tecnologia nesta questão?”. Em praticamente tudo.

Ela pode estar desde o monitoramento das obras e dos materiais destinados às construções até a concentração de informações em plataformas capazes de permitir ao poder público acompanhar, em tempo real, o andamento dos empreendimentos espalhados pelos municípios.

Outro exemplo de inovação tecnológica está na possibilidade de disponibilizar ao morador informações digitais sobre a planta completa da residência. Por meio de recursos como QR Code, o beneficiário pode ter acesso à localização das instalações hidráulicas e elétricas do imóvel, facilitando futuras intervenções e reduzindo o risco de acidentes durante reformas.

Marconi Perillo volta a flertar com o analógico quando afirma que pretende retomar o Vapt Vupt de portas abertas e propõe criar o Vapt Vupt da Saúde e o Vapt Vupt do Idoso. Entretanto, ao ler essas propostas em seu plano de governo, a impressão que se tem é a de uma estrutura mais pesada, com atendimento presencial para demandas que, em muitos casos, poderiam ser resolvidas diretamente pela tela do celular.

Ao anunciar essas medidas como sinônimo de eficiência, Marconi Perillo corre o risco de propor justamente o contrário: tornar mais burocráticos serviços que poderiam avançar ainda mais no ambiente digital.

O atendimento de portas abertas no Vapt Vupt perde sentido se significar o retorno aos cenários de longas filas e demora registrados no passado. O agendamento, difundido principalmente a partir da pandemia, também representa organização e respeito ao cidadão. Ter dia e hora marcados permite que quem precisa do serviço se programe, compareça no horário previsto e tenha sua demanda resolvida sem precisar passar horas esperando por atendimento.

Além disso, com o auxílio da Inteligência Artificial e de outras ferramentas digitais, diversos serviços oferecidos pelo Estado podem ser solicitados pelo celular e resolvidos de maneira mais rápida. É justamente isso que o cidadão espera quando precisa, por exemplo, emitir um documento, solicitar uma segunda via ou resolver uma pendência administrativa.

Nesse contexto, o Vapt Vupt do Idoso também precisa ser mais bem explicado para não se transformar apenas em uma nova estrutura burocrática. O mesmo vale para o Vapt Vupt da Saúde, cuja proposta ainda precisa detalhar de forma clara como funcionará e, principalmente, qual problema concreto pretende resolver.

Recorrer ao saudosismo pode até funcionar como estratégia para Marconi Perillo. Afinal, relembrar realizações de seus governos é uma forma de apresentar ao eleitor aquilo que considera seu legado. O próprio candidato tem colocado programas como Vapt Vupt e Cheque Moradia entre as marcas de suas administrações. Mas recuperar o passado não significa necessariamente reproduzi-lo.

Um governante que pretende comandar Goiás a partir de 2027 precisa apresentar respostas para uma sociedade muito diferente daquela encontrada por Marconi Perillo quando chegou ao Palácio das Esmeraldas pela primeira vez. O cidadão mudou, os serviços mudaram e a tecnologia mudou a relação das pessoas com o poder público.

O desafio de Marconi Perillo, portanto, talvez esteja justamente aí: transformar o discurso de experiência em uma proposta que dialogue com o presente e o futuro. Do modo como algumas ideias têm sido apresentadas, o tucano deixa margem para uma dúvida que deveria estar resolvida a poucos dias das urnas: sua proposta é recuperar experiências do passado utilizando as ferramentas do presente ou simplesmente trazer o passado de volta?

O Marconi Perillo de 2026 é o mesmo de 1998? Vale frisar que, em 1998, ele tinha 35 anos — era um jovem moderno e ambicioso. Agora, aos 63 anos, parece que ainda não percebeu a hegemonia do mundo digital. Sua rejeição tem a ver com o desgaste político — fadiga de material, dizem —, mas tem a ver também com a falta de atualização de suas pautas.

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