Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Major Vitor Hugo adota estratégia de outsider para campanha de governador

Candidatos que adotarem discurso “fora do sistema” podem enfrentar barreiras nestas eleições

Estamos a menos de seis meses da eleição. Candidatos, chapas e partidos modulam os discursos para convencer os eleitores de seus projetos de eleição ou reeleição. Já se percebe indicativos de qual será o tom da campanha, tanto em âmbito nacional, quando regional. Em geral, a estratégia parte da defesa de ações já realizadas em mandatos anteriores, ou em projetos de mudanças nos rumos das gestões em curso no momento. Um dos questionamentos é se nas eleições de 2022 ainda caberá candidaturas outsider, ou seja, “fora do sistema político”?

Na última semana foi possível perceber qual o tom o deputado federal e agora presidente estadual do PL, Major Vitor Hugo, pretende dar a sua pré-campanha ao governo do estado. Em uma postagem em suas redes sociais o bolsonarista, que está há 3 anos e 5 meses como representante goiano no Congresso, tenta se desvincular da classe política. No Twitter ele disse que não planeja compor com o governador Ronaldo Caiado (UB) e nem com ex-prefeito de Aparecida de Goiânia Gustavo Mendanha (Patriota) o motivo alegado: “as práticas de ambos são de políticos profissionais”. Em outro texto de suas redes sociais ele diz: “Somos improváveis”. 

Não se trata de uma crítica negativa a posição assumida por Major Vitor Hugo. Afinal, qualquer político precisa ter estratégia eleitoral. Caso não esteja guiado por uma visão e uma metodologia, o candidato pode ver minguar suas chances de ter sucesso nas urnas. O deputado bolsonarista tem na memória recente o resultado das eleições de 2018, quando a figura do outsider funcionou muito bem. Ele mesmo foi um que surfaram na onda  que trazia como mote o discurso antissistema, antipolítico e anticorrupção. 

Cientistas políticos explicam que a eleição de 2018 é classificada como “crítica”. Essas eleições são caracterizadas por cenários de crises sociais, econômicas e políticas agudas, de elevadas polarizações ideológicas, além das emergências de candidatos de “terceira via”, alternativos às forças tradicionais do sistema político em questão. A avaliação é de que em 2022 a eleição seja  a dita “normal”, em que prevalece os candidatos também considerados “normais”, ou seja, aqueles que precisam de um partido com boa estrutura, recursos, tempo de Rádio e TV, além de apresentar planos de governo palpáveis o eleitorado.

A estratégia de se posicionar como um outsider para as eleições de 2022 enfrentará barreiras. Diferentemente de 2018, quando a população queria e precisava, sobretudo, externar descontentamento e indignação, neste ano critério tende de ser outro para a escolha do candidato. A sociedade está em busca de candidatos que demonstrem capacidade de resolver problemas objetivos. A crise sanitária gerada pela pandemia, os problemas sociais decorrentes da Covid, a inflação que reduz o poder de compra dos brasileiros, a economia que segue a deriva, a distribuição de renda e o combate miséria que empurrou o Brasil de volta para o Mapa da Fome, são temas que vão se decisivos para o eleitorado. São essas as prioridades atuais da sociedade.

Os temas socioculturais — feminismo, conservadorismo, defesa da família, posse de armas — desempenharam um papel muito central na campanha de 2018. Mas, ao que indica até o momento, não encontrarão campo fértil esse ano. As pesquisas de opinião demonstram que, frente aos reflexos da pandemia e da guerra na Ucrânia, a maior preocupação está na economia e no social. 

A polarização e a disputa acirrada vão continuar e são inevitáveis, mas o êxito eleitoral deverá ser definido por quem demonstrar capacidade de enfrentar as dificuldades que preocupam o eleitor. A população percebe o aumento das dificuldades, e é neste clima que ela vai para as eleições. Na campanha, os eleitores tendem a buscar candidatos que possuam mais condições de enfrentar os problemas objetivos. Naturalmente a sociedade tende a buscar busca por nomes que simbolize boas expectativas.

O outsider que foi eleito em 2018, neste ano faz parte do sistema. O que se pretende apontar é que esses políticos agora têm pelo quê serem avaliados. Pode haver aprovação ou rejeição, mas não vão entrar no processo eleitoral “zerados”.

As eleições municipais servem de exemplo de que os candidatos outsiders podem ter barrerias a transpor. Em 2020 partidos de centro-direita como o MDB, DEM, PSD e Podemos foram apontados como os grandes expoentes, contrariando expectativas de que nomes do núcleo duro bolsonarista viriam com mais força. O MDB chegou a eleger 10 prefeitos no conjunto das 100 maiores cidades do país. Esse é um indicativo de que há uma reconciliação do eleitorado com a política. Este rumo tende a ser repetido em 2022 pelo eleitorado. Especialmente depois de uma pandemia e de desequilíbrios na economia, a busca será por um nome capaz de entregar gestão e resultados. A tendência é o eleitor buscar este nome entre figuras conhecidas.

Apesar de os sinais dados pelos eleitores serem contrários aos outsiders, certamente nomes de fora do espectro político podem tentar êxito nas urnas. Major Vitor Hugo tende a incorporar esse discurso para sua campanha de governador e cabe aguardar como o tom será recebido pelos eleitores goianos.

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