Cezar Santos
Cezar Santos

Lula se impõe a missão de “salvar” Dilma pelo bem do PT

Nas conversas com aliados, ex-presidente admite que sua sucessora é um desastre, mas agora não tem jeito: está obrigado a defender o mandato dela

Dilma Rousseff, a criatura, não dá conta de governar; Lula da Silva, o criador, tem de defendê-la custe o que custar | Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

Dilma Rousseff, a criatura, não dá conta de governar; Lula da Silva, o criador, tem de defendê-la custe o que custar | Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

Se a “grande maioria” dos brasileiros está decepcionada com Dilma Rousseff – sintomaticamente três meses depois que uma “pequena maioria” a reelegeu –, tem alguém particularmente insatisfeito com a presidente. E esse alguém é nada menos que Lula da Silva, o responsável direto por criar as condições políticas para fazer com que Dilma o sucedesse como titular do Palácio do Planalto e, pior ainda, por reconduzi-la ao cargo no ano passado.
Mesmo na campanha da reeleição, Lula manifestou a dificuldade por causa do desastroso mandato dela, mas foi a campo para minorar os estragos de quatro anos de um governo medíocre que jogaria o País no encalacre econômico que está hoje. Lula foi o maior responsável por virar o jogo, visto que o adversário tucano esteve em vias de ganhar aquela eleição.

Reeleita Dilma, Lula esperava que ela se desse conta de que não poderia mais continuar abusando do direito de errar. Qual o quê!

A capacidade que tem a presidente de cometer erros é fenomenal. Não bastaram os quatro anos do primeiro governo, sem contar o tempo em que os cometeu na condição de ministra. E Dilma tem um talento especial para arregimentar para perto de si gente que é tão ou ainda mais inepta que ela. É o caso dos ministros Aloizio Mercadante e Pepe Vargas, colocados para fazer articulação política.

O resultado, claro, é constrangedor. Com tais articuladores, as crises políticas vão pipocando aos montes, se já não bastasse a corrupção no governo federal, via assalto à Petrobrás (comandado diretamente pelo PT e pelos aliados PMDB e PP), que afeta diretamente a popularidade da sucessora de Lula. Recente pesquisa Datafolha detectou: a presidente Dilma “tinha conhecimento da corrupção na Petrobras” (77% dos entrevistados); “sabia dos desvios e deixou continuar” (52%); “sabia e nada pôde fazer” (25%).

Não é por acaso o clima belicoso entre PT e PMDB no Congresso Nacional, principalmente com os caciques peemedebistas Renan Calheiros e Eduardo Cunha, respectivamente presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados. A situação está se avinagrando a cada dia, sem que Mercadante e Vargas tenham a mínima noção do que fazer para serenar os ânimos. Principalmente Mercadante, volta e meia faz movimentos que fragilizam ainda mais a aliança e a posição do governo no Congresso.

Aliás, o PMDB de Renan e E­duar­do está governando o País neste momento. Faz e acontece, devolve emendas provisórias, trunca matérias. A ação do partido chega quase à beira de um “golpe” parlamentar, uma vez que paralisou o governo Dilma. A presidente se acha esperta – e esse seja talvez o maior defeito dela, não reconhecer suas fragilidades, sua absoluta inépcia para fazer política – e tentou se livrar do “encosto” peemedebista, inventando com Gilberto Kassab um partido novo, o sempre de aluguel PL, que seria refundado em aglutinação ao PSD, formando a maior bancada do Congresso. Se desse certo, muitos deputados do PMDB poderia migrar para a nova sigla sem risco de perder o mandato. O novo partido esvaziaria o poder de fogo do PMDB.

Pois bem, o que aconteceu? Ora, o óbvio. Uma proposta do DEM estabelece um período mí­nimo de cinco anos para a fusão de partidos. O texto ganhou regime de urgência após uma costura de Cunha – a proposta ainda depende do aval do Senado para entrar em vigor, mas é fácil adivinhar que o veto será confirmado; Dilma e seus articuladores políticos não têm nenhuma chance nessa questão. O sonho de Dilma e Kassab se esvaiu.

Voltando a Lula, nas conversas com amigos petistas e aliados mais próximos, mesmo de outros partidos, o ex-metalúrgico já não deixa de verbalizar sua insatisfação com a pupila. E o faz às vezes com palavras nada gentis, no típico vocabulário que lhe é peculiar. Volta e meia desabafa, lembrando que Dilma não é petista e que só a lançou na sua sucessão para tirar José Dirceu da jogada.

Enquanto Dilma fez besteiras sem colocar em risco a continuação do PT no poder, tudo bem. Mas, agora, há um perigo a mais no ar. A palavra impeachment deixou de soar tão absurda e já é falada e escrita em análises disparatadas umas, mais fundamentadas outras. Num suposto impeachment, haveria um risco consequente: a abertura da caixa negra do petismo em 12 anos de poder. Isso, sabe Lula muito bem, destruiria o que ainda há de decente de seu legado, dificultando sobremaneira a continuação do partido no Palácio do Planalto.

Lula reclama de Dilma Rous­seff. Notadamente e não por coincidência, da articulação política. Animal político que é, ele sabe que se houvesse um mínimo de competência nessa área, a situação do governo e do petismo não estaria tão em risco como está. Dilma não tem jogo de cintura, não tem paciência, não faz o jogo político. O contrário de seu criador.

E, atenção, leitor! As informações que se seguem não são apenas suposições do analista; foram ouvidas por um editor do Jornal Opção, há quatro dias em Brasília, de uma alta autoridade federal. Uma pessoa que convive e transita com integrantes da cúpula do atual governo – embora não faça parte dele – e de governos anteriores do PT e do PSDB. Segundo essa fonte, Lula disse em recente encontro com correligionários: “Temos de salvar Dilma, senão o PT está ferrado (a palavra não é bem essa)”.

O ex-presidente se arrogou a missão de manter o mandato de sua cria política. E ele tem feito movimentos nesse sentido. Lembre-se que há poucos dias, numa reunião fechada com companheiros petistas da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Federação Única dos Petro­leiros (FUP), num ato em “defesa” da Petrobrás (seria risível se não fosse trágico), ameaçou levar a milícia do MST, “o exército de Stédile”, para enfrentar os “inimigos” da presidente.

Mas mesmo aí se pôde perceber uma crítica à sucessora, quando vociferou: “Nossa querida Dilma tem de levantar a cabeça e dizer: eu ganhei as eleições. E governar o país. Não pode ficar dando trela senão ficamos paralisados”.

Lula, de forma mais explícita do que talvez ele mesmo tenha se dado conta, disse o que os brasileiros razoavelmente informados sabem: Dilma não está governando o País. E não governa pela razão muito simples de que não sabe como fazê-lo.

“Defender” a Petrobrás, como se não fosse justamente os desmandos do PT que a colocaram na situação em que ela se encontra – é atualmente a empresa com a maior dívida do mundo – é uma estratégia imperiosa para o partido, e particularmente para Lula, neste mo­mento. É dali que pode — repita-se, pode — vir o impeachment de Dilma Rousseff. Na concretização do impedimento, o castelo de cartas petista vem abaixo.

Lula está em campo, agindo na surdina, mas às vezes de forma escancarada. É preciso “segurar” o mandato de sua sucessora, mesmo que a qualidade de seu governo seja a pior possível e ele mesmo, Lula, várias vezes tenha se referido a isso. Sintomático nesse sentido que a presidente, por influência direta de Lula, tenha terceirizado a condução de economia para um “virtual tucano”, o ministro Joaquim Levy.

O imbróglio da Operação Lava-Jato complica tudo. O PT está encalacrado. O tesoureiro do partido está envolvido. Delatores já abriram o bico: foram repassados para o PT 200 milhões de dólares de dinheiro desviado da petroleira. O temor de Lula é que isso descambe, principalmente agora que uma nova CPI foi aberta no Congresso. Pode chegar a Dilma, que tem culpa sim, afinal era presidente do conselho de administração da empresa quando se deu, por exemplo, a compra de Pasa­dena, num escândalo dos mais escabrosos de que se tem notícia.

Interlocutores de Lula atestam que o ex-presidente já disse que se a Lava-Jato “vingar”, vai pegar todo o mundo. Se for apenas o problema de Pasadena, só Dilma cairia. Dilma caindo, caem as chances do PT continuar dando as cartas no poder. Portanto, salvar a presidente é a missão a que o ex-presidente se impôs. Dilma Rousseff é uma mala pesada demais, mas esse é o fardo que Lula da Silva tem de carregar neste momento, até para salvar a si mesmo…

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wellnghton

Nossa a mídia sabe tanto sobre Lula e Dilma que nem eles mesmos sabem .

Hoje a mídia poderia ser chamada GOLPISTA CONTRA A DEMOCRACIA.

Blei Xyko

E como pensa agora?

JOSELITO TELES DA SILVA

vergonha nacional Dilma, tire os deficiêntes da miseria

Jose Roberto Bonaparte

A operação lava a jato esta avansando em direção ao Lula, logo chegara a todas as
manobras politica e financeira que Lula tanto fez para beneficiar a odebrech, com
cotratos bilionarios usando o dinheiro do BNDS, e se beneficiando do jeito que o PT
sabe fazer, acho que desta vez a casa cai.

JORGE ALMADA

Previsões em 2012/2014 feita por diversos economistas já
demonstravam total incompetência administrativa da Presidenta. Eu mesmo fiz
inúmeros comentários sobre o desenrolar da economia administrada por ela e pelo
ministro Mantega. ( Vide site correiobrasiliense comentários econômicos sobre
Mantega, feito por jorgealmada.

Para quê aumentar os juros se a inflação não foi causada
pelo consumo indiscriminado e sim por preços represados, energia elétrica,
combustíveis, gastos desnecessários com estádios de futebol ( copa), a perda de
receita pelas bondades do governo para com redução de IPI dos carros e linha branca.