Cezar Santos
Cezar Santos

Lula não depõe porque não dá conta de se defender

Manobra para não ter de prestar depoimento a promotor indica que o ex-presidente não tem respostas para as perguntas que lhe serão feitas

O casal Lula e Marisa Letícia não sabe como explicar o “rolo” do tríplex

O casal Lula e Marisa Letícia não sabe como explicar o “rolo” do tríplex

Certo, digamos que Lula conseguiu ganhar uma batalha, ao adiar o depoimento que ele e a ex-primeira-dama Marisa Letícia teriam de prestar ao Ministério Público de São Paulo, na quarta-feira, 17, sobre o tríplex no Guarujá (SP). Mas, na verdade, ele apenas adiou o que fatalmente vai acontecer. Logo ou um pouco mais adiante, Lula e sua mulher terão de responder às perguntas que lhes forem feitas.

A suspensão do depoimento, como não poderia deixar de ser no quadro atual da política brasileira, ocorreu num lance estranhíssimo, graças a uma decisão liminar do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). A Promotoria decidiu suspender as investigações contra Lula até que o plenário do conselho tome uma decisão final sobre o caso, o que deve ocorrer em 29 de março.

O ex-presidente e sua mulher estavam intimados a prestar depoimento sobre o tríplex no condomínio Solaris, em Guarujá (SP), e sobre suspeitas de irregularidades na transferência do condomínio da cooperativa Bancoop para a empreiteira OAS. O conselheiro Valter Shuenquener de Araújo acatou um requerimento do deputado petista Paulo Teixeira (SP), em que ele alegou que o inquérito teria que ter entrado no sistema de distribuição do Ministério Público paulista. O deputado falou ainda em “flagrante perseguição política”.

O deputado petista questionou a atuação do promotor Cassio Conserino, afirmando que ele não era o promotor natural para conduzir a investigação, uma vez que Conserino já havia declarado ver indícios suficientes para denunciar Lula.

Reportagem da Folha registrou que Paulo Teixeira teve orientação de pessoas do entorno do ex-presidente (leia-se o time de advogados) para entrar com o pedido de liminar. A ideia inicial era que Lula prestasse o depoimento, mas depois de muitos alertas de aliados, a questão passou a ser ponderada.

Alguma dúvida de que Lula não queria de jeito nenhum ficar frente a frente com o promotor Casio Conserino?

Também foram suspensos os depoimentos de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, e de Igor Pontes, engenheiro da mesma empreiteira, igualmente marcados para a quarta-feira. A defesa dos dois executivos ingressou com um pedido para que o interrogatório fosse adiado.

Não se pode esquecer que Léo Pinheiro e o engenheiro visitaram o tríplex com Marisa Letícia no ano passado, segundo testemunhas ouvidas pelos promotores. Há, sim, a empreiteira fez uma big reforma no local, acompanhada por Marisa, instalando elevador e mobiliando o imóvel.

Segundo o deputado Paulo Teixeira, o caso do tríplex está sendo apurado atualmente na 5ª Vara Criminal do Foro Central Criminal de São Paulo, sendo que é a 1ª Promotoria de Justiça a responsável pelos casos dessa área. Conserino seria da 2ª Promotoria. Para Teixeira, se não fosse direcionado para a 1ª Promotoria, o caso deveria ter tido, ao menos, livre distribuição.

O conselheiro Valter Shuenquener afirmou que a representação criminal foi feita “de forma nominalmente direcionada ao requerido [Conserino] e a dois outros membros do Ministério Público, sem que se tenha notícia de qualquer distribuição ou mesmo decisão ministerial no sentido de que o requerido seria efetivamente o promotor de Justiça com atribuição na matéria”.

Valter Shuenquener avaliou que é melhor paralisar o caso até mesmo para não colocar em risco as investigações. O conselheiro alegou também que as notícias que grupos favoráveis e contrários a Lula protestariam em frente ao Fórum da Barra Funda poderia “comprometer o regular funcionamento e a segurança” do local.

A decisão vale até que o plenário do CNMP avalie o caso.

Desistiu

Sobre o imóvel, Lula tem dito que comprou uma cota da Bancoop que dava direito a uma unidade no condomínio, mas desistiu de comprar o apartamento. A suspeita é de que o tríplex, que está em nome da OAS e foi reformado pela empreiteira, foi reservado para a família do ex-presidente e seria uma forma de favorecê-lo.

A linha de defesa do ex-presidente sobre o tríplex e o sítio em Atibaia, no interior de São Paulo, ainda está sendo traçada por sua equipe de advogados, por isso, qualquer pronunciamento precipitado é considerado arriscado. Aliados e envolvidos na defesa do petista estão tomando o máximo de cautela em relação a manifestações públicas sobre as suspeitas.

A verdade é que Lula está ganhando tempo para ver se seu time de advogados consegue inventar alguma história plausível sobre esse tríplex para que o ex-presidente conte aos promotores.

Enquanto isso, o PT vai tentando embaralhar o cenário. Foi o que ocorreu com a extemporânea denúncia da ex-jornalista Miriam Dutra contra o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso. Se há alguma dúvida, Miriam veio à cena depois de estar com o ex-ministro Franklin Martins (ou com a mulher deste), em Portugal. A denúncia é uma cortina de fumaça, uma forma de dizer à opinião pública que FHC e Lula são iguais.

Fernando Henrique e Lula podem até ser iguais no mau gosto para escolher amantes, mas não se trata disso. É sobre Lula que há fartas evidência de corrupção e de ter se enriquecido com tráfico de influência no exercício do cargo de presidente da República. É Lula que está sendo investigado.

Uma dor de cabeça que poderia ter sido evitada

O jornalista carioca Nelson Motta escreveu um texto curiosíssimo sobre os contratempos que Lula da Silva está sofrendo por causa do sítio de Atibaia e do tríplex de Guarujá. O ex-presidente não precisava estar passando por esse calvário. Segue o texto, intitulado “Quando o barato sai caro”, publicado em “O Globo”, na sexta-feira, 19.

Com uns sete ou oito milhõezinhos, Lula poderia comprar uma cobertura em Ipanema e um sítio em Campos do Jordão, e sobrariam 20.

Além de oito anos de salários de presidente e despesas zero, Lula ganhou R$ 27 milhões fazendo palestras no exterior, tudo com nota fiscal, declarado à Receita Federal e com impostos pagos. Teria todo o direito de comprar o tríplex ou o sítio que quisesse, sem dar satisfações a ninguém. Ainda que as palestras não fossem compradas por interessados internacionais, mas pagas por empresas brasileiras que queriam fazer bons negócios e resolver problemas complicados com governos locais, seria, digamos, apenas lobby. Mas isto ainda está sob investigação e, até prova em contrário, os milhões de Lula são tão limpos como os de Bill Clinton.

Com uns sete ou oito milhõezinhos, ele poderia comprar uma boa cobertura, não um muquifo na cafona Guarujá, mas em Ipanema, e um belo sítio em Campos do Jordão. Sobrariam-lhe uns 20 milhões, e ele não teria que enfrentar o calvário imobiliário que o humilha publicamente, desmoraliza sua liderança e ridiculariza o seu maior patrimônio: a “alma viva mais honesta do país”.

Mas, sabe-se lá por que, já que burro não é, Lula preferiu fazer tudo escondido, para se aproveitar de vantagens oferecidas por “amigos” e empresários com interesses no governo, enrolar-se numa mentira atrás da outra, tudo para não gastar uma pequena parte do seu patrimônio.

Seus 20 milhões, se investidos por Henrique Meirelles (por Mantega ou Dilma jamais!), lhe renderiam uns R$ 250 mil por mês, além de suas gordas aposentadorias e bolsa-ditadura, sem contar com futuras palestras, que, agora, ninguém quer de graça. Poderia viver como a mais luxuosa e odiosa elite brasileira. Ou como um craque de futebol.

Claro, viver de renda no luxo ia pegar meio mal para a militância do PT, mas logo tudo seria visto como o heroico triunfo de um torneiro mecânico sobre a burguesia.

Não consigo entender como um cara tão inteligente colocou em risco sua reputação e sua carreira por tão pouco, talvez por arrogância e soberba, ou malandragem barata, em jogadas ilegais e perigosas, ou tudo isso para não gastar o que — diante de seu patrimônio pessoal — seria coisa de pobre. Um barato que está lhe custando caríssimo.

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