Cezar Santos
Cezar Santos

Fato principal da eleição foi o cartão vermelho ao PT, e não abstenção e votos nulos e brancos

Partido que usou o poder para promover a maior escalada de corrupção da história recebeu um rotundo não do eleitor brasileiro

Historiador Marco Antonio Villa: “Eleitor disse  não ao projeto criminoso de poder do PT”

Historiador Marco Antonio Villa: “Eleitor disse não ao projeto criminoso de poder do PT”

“Nível de abstenção é o mais alto desde 1998.”
“Abstenção no primeiro turno das eleições municipais supera 17,5%.”

A primeira frase foi uma manchete do portal G1 após a eleição de 2014, em 6 de outubro. A segunda, manchete do mesmo G1 no dia 3 de outubro passado. O articulista as colocou aí apenas para evidenciar que a grita em relação a altos índices de abstenção (não comparecimento às urnas) e de votos nulos e brancos é recorrente. Acontece em praticamente todas as eleições.

No domingo passado, dia 2, mais de 25 milhões de eleitores (17,58%) não compareceram às urnas para votar no primeiro turno das eleições municipais em todo o país. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de faltosos totalizou 25.330.431. No total, 118.755.019 eleitores foram às urnas. No pleito de 2014, no entanto, a abstenção foi ainda maior, de quase 20%.

Na eleição agora, também vem se ressaltando que os grandes campeões do primeiro turno foram os votos inválidos (brancos e nulos) ou ausências. Segundo o TSE, a soma de votos nulos, brancos e abstenções superou o primeiro ou segundo colocado na disputa para prefeito em 22 capitais.

Mas eu pergunto: e daí? O que isso importa? Em eleição o que conta é o que está colocado na urna, o registro real e numérico do eleitor que se preocupou em fazer esse registro. Fora daí é conversa mole, questiúnculas para sabichões, que lascam a dizer platitudes, como “o eleitor protestou”, o eleitor não quer os políticos que estão aí”, o eleitor não está se sentindo representado” e coisas assim.

Ora, desde quando eleitor gosta de político? Não gosta, nunca gostou. A imensa maioria dos eleitores vota porque tem de votar. A obrigatoriedade é lei, mas na medida em que as pessoas vão se apercebendo que não votar praticamente não implica nenhuma sanção (a multa é de míseros 3,51 reais por turno), muitos não se preocupam.

Muitas coisas ou coisa nenhuma pode levar o cidadão a se abster de votar. O cientista social, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo e professor de teoria política na Universidade Estadual Paulista Marco Aurélio Nogueira tem um posicionamento interessante sobre isso.

Em sua rede Facebook, na semana passada, Nogueira postou o seguinte: Podem ser tantos os motivos que é difícil concluir muita coisa. … Porém, aceitando o pressuposto de que a vontade do eleitor deve ser soberana, não há porque desconsiderar que uma pessoa que anula está emitindo uma mensagem: não consegui me posicionar, não me interessei, não fui atingido por nenhuma proposta, o sistema não conseguiu me sensibilizar e prefiro protestar contra ele. Há também aqueles que, no segredo tenso da cabine eleitoral, esquece o número de seus candidatos, entra em pânico e aperta as teclas ‘malditas’.

Em suma, anular o voto não significa ficar fora do jogo, mas jogar o jogo como espectador, eventualmente como crítico e muitas vezes como alguém que não encontrou brechas ou motivos para se envolver. O anulador, sem querer ou sem querer querendo, marca uma posição. Desse ponto de vista, votos nulos ou em branco não são votos perdidos. Nenhum voto é inútil. Voto é algo que não se esgota nos números.”

Neste momento pós-primeiro turno, há um evidente jogo de fumaça perpetrado por parte da imprensa — eu diria a maioria —, quando enfatiza que o grande fato do processo eleitoral em curso foram a abstenção e votos brancos e nulos ocorridos no dia 2. E isso acontece com o respaldo de cientistas políticos e analistas outros, sempre com ar grave e semblante sisudo. A maioria dessa gente é simpática, quando não totalmente adepta, do governo defenestrado do PT.

O fundamental nestas eleições não é abstenção-brancos-nulos, mas sim o cartão vermelho que o eleitor deu ao PT em todo o Brasil. É o que o historiador Marco Antonio Villa enfatiza, ao dizer que o ponto central desta eleição foi mesmo o voto anti-PT, o voto daqueles que se posicionaram contra o projeto criminoso de poder, para usar a expressão que o decano ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), inaugurou para classificar o que o PT e seus aliados fizeram no mensalão.

“Se em 13 de março deste ano, o Brasil assistiu a maior manifestação popular de sua história, na Avenida Paulista, organizada pela sociedade civil, longe de partidos políticos e da estrutura estatal, ninguém imaginaria que cerca de um semestre depois, não teríamos mais na Presidência Dilma Rousseff e, no dia 2 de outubro, teríamos uma data histórica com um não rotundo ao projeto criminoso de poder”, disse Villa na banca do “Jornal da Cultura, na semana passada.

Marco Aurélio Nogueira: “Muitos motivos, ou motivo nenhum, podem levar à abstenção”

Marco Aurélio Nogueira: “Muitos motivos, ou motivo nenhum, podem levar à abstenção”

Segundo Villa, o fundamental neste momento político que vive o Brasil foi mesmo a derrota petista nas urnas, lembrando que nas 26 capitais (em Brasília não há eleição municipal) o PT só venceu em uma, Rio Branco, no Acre, um colégio eleitoral pouquíssimo expressivo. Já no maior colégio eleitoral do País, São Paulo, a derrota petista foi acachapante, pois o prefeito petista Fernando Haddad, candidato à reeleição, nem conseguiu ir ao segundo turno, obtendo apenas 16% dos votos. O tucano João Dória venceu em primeiro turno, com 53% dos votos, o que não acontecia na cidade desde 1992.

O historiador dá mais exemplo da derrota petista no ABCD paulista, reduto tradicional do petismo, como em São Bernardo do Campo, Santo André, São Caetano e Diadema. “Em Ribeirão Preto, o candidato petista ficou em quinto lugar. E Palocci (ex-ministro de Lula e de Dilma) não votou lá porque está preso. Aliás, se tivesse uma urna na cadeia de Curitiba, certamente o PT ganharia os votos na cela com larga margem (risos).”
Villa lembra ainda que em São Bernardo, cidade onde mora Lula da Silva, chefe máximo do PT, não conseguiu reeleger o filho Marcos Lula para a Câmara Municipal. O filho do ex-presidente teve apenas 1.504 votos, menos da metade do que teve no pleito de 2012.

Outra amarga derrota para o PT também aconteceu em São Bernardo do Campo, onde Tarcísio Secoli, candidato da sigla a prefeito, só conseguiu o terceiro lugar e nem para o segundo turno conseguiu ir.

Marco Villa diz que os números não deixam margem para tentativas de desviar o foco do que realmente é importante. “O eleitor deu um tapa na cara dos criminosos, daqueles que destruíram o Brasil durante 13 anos e 5 meses. Portanto, não há como tergiversar sobre a questão central, que não é abstenção e votos brancos e nulos. O PT sofreu uma derrota histórica, em São Paulo foi praticamente varrido”, diz, lembrando ainda outros Estados e cidades em que o partido sofreu revés, como Porto Alegre (RS).

O historiador lembra que a maioria dos jornais, no dia da eleição, em matérias claramente “plantadas” pelo lulopetismo, diziam que Lula seria o grande vitorioso da eleição. “Manchetes diziam que Lula iria sair fortalecido para presidente em 2018. Ele saiu fortalecido sim, mas para Presidente Bernardes”, disse, em alusão à cidade paulista que sedia famosa penitenciária de segurança máxima.

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