Cezar Santos
Cezar Santos

Dilma pode renunciar sim

Senadores têm o poder de dar ao País a chance de voltar ao caminho da racionalidade política e econômica, o que só é possível com impeachment ou renúncia da petista

Presidente afastada Dilma Rousseff: ela diz que não, mas a renúncia está em seu horizonte | Foto: Ricardo Stuckart Filho/ABR

Presidente afastada Dilma Rousseff: ela diz que não, mas a renúncia está em seu horizonte | Foto: Ricardo Stuckart Filho/ABR

Estamos em meio à finalização do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Salvo um cataclismo ou chicanas — e a abertura para que elas ocorram se tornam cada vez menores —, a questão deve ser concluída nesta semana, com o resultado que todos esperam, mesmo os petistas: o afastamento definitivo da petista.

Por sinal, o julgamento do impeachment tem rendido momentos até divertidos. Na sexta-feira, 26, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, ouvido como informante na sessão o Senado, afirmou que a presidente afastada cometeu uma “despedalada”. Não ria, leitor, é isso mesmo. Segundo Belluzzo, o problema de Dilma é o excesso de virtuosismo.

“Vou tratar isso com um pouco de bom humor, porque eu acho que, em 2015, não houve uma pedalada, houve uma ‘despedalada’”, afirmou Belluzzo. “No momento em que a economia estava se contraindo, estava perdendo receita, a presidente fez um contingenciamento de mais R$ 8,5 bilhões em cima de um contingenciamento que já tinha ocorrido, de R$ 70 (bilhões)”, disse o economista.

Pedalada fiscal é como ficou conhecida a prática de atrasar o repasse de dinheiro a bancos públicos responsáveis por programas federais. Essa é umas das irregularidades cometidas por Dilma Rousseff e que estão dando motivo ao impeachment.

O economista Belluzzo, afinado com as ideias e práticas petistas desde sempre, afirmou que, em sua visão, Dilma Rousseff não cometeu crime de responsabilidade, elemento necessário para que um presidente sofre o impeachment, e que o afastamento é um “atentado à democracia”.

“Eu só aceitei vir aqui testemunhar porque considero que o afastamento da presidente pelos motivos alegados é um atentado à democracia”, afirmou Belluzzo, anotando a pérola de que Dilma teve “excesso de responsabilidade fiscal”.

“Ao contrário, eu vou repetir, do que aconteceu da suposição de que ela cometeu um crime de responsabilidade, na verdade, ela procurou correr atrás da queda, e correr atrás da queda não deu certo”, disse Belluzzo. “Foi o contrário: ela foi excessivamente responsável, excesso de responsabilidade fiscal.”

Belluzzo foi o primeiro dos depoentes apontados pela defesa da presidente a falar na última etapa do julgamento do impeachment.

O fato é que o impeachment de Dilma Rousseff é um imperativo para que o Brasil vote a trilhar o caminho da normalidade institucional, tanto na política quanto na economia. Enquanto ela não se torna ex em definitivo, de fato e de direito, o País continua inerte. O Congresso não vota o que precisa votar. Os agentes econômicos continuam em compasso de espera. Está nas mãos dos senadores resolver a questão. Ou da própria presidente, com a renúncia.

Sim, a petista pode renunciar, embora sempre tenha feito questão de dizer que não. A renúncia sempre esteve no horizonte mental de Dilma Rousseff. Lem­brando: no início de maio ela cogitou enviar ao Congresso uma proposta de emenda constitucional (PEC) para que novas eleições presidenciais fossem realizadas ainda neste ano. As condições para isso seria a renúncia dela e do vice, Michel Temer.

Era uma tentativa desesperada de parar o processo de impeachment, que estava prestes a ser aceito no Senado. A coisa não prosperou. O Senado aceitou seguir com o processo, Dilma foi afastada temporariamente e Temer assumiu interinamente.

Há poucos dias, reportagem do “Estadão” deu que aliados do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), levaram à presidente afastada a proposta que pode evitar maiores traumas na institucionalidade: a renúncia antes da votação do impeachment no plenário da Casa. A estratégia negociada nos bastidores seria posta em prática na ida dela ao Congresso nesta segunda-feira, 28, ou seja, 24 horas antes do desfecho do processo. Os termos do acordo chegaram a ser detalhados.

Pela proposta apresentada a Dilma, ela, durante o discurso no plenário do Senado, anunciaria a renúncia ao cargo de presidente da República. Com o gesto, caciques peemedebistas tentariam evitar a soma de 54 votos pelo impeachment na terça-feira, o dia marcado para a votação. Pensou-se que Dilma aceitaria a proposta.

A verdade é que pedir para sair pode dar muitas vantagens a Dilma Rousseff, embora não o que ela tanta preza, a certificação do papel de guerreira “coração valente”, o que na verdade ela nunca foi. Para os aliados da presidente, a renúncia seria — ao contrário do que a própria petista considerava —, uma saída honrosa, que na pior das hipóteses garantiria a manutenção dos direitos políticos, caso o processo do impeachment fosse derrubado no plenário.

Um dos argumentos era de que, no futuro, Dilma pudesse sair do PT, buscar filiação no PDT e até mesmo voltar a se candidatar em 2018. Aliados de Renan chegaram a falar de uma disputa ao Senado pelo Rio Grande do Sul.

Dilma é absolutamente inepta pa­ra governar. Mostrou-se totalmente incapaz para o cargo que ela ganhou de mão beijada de Lula da Silva. Mas em que pese suas flagrantes deficiências intelectuais e políticas para o exercício de tão alto cargo, ela não é boba. Dilma diz que não, mas a renúncia pode acontecer sim.

Posar de firme é um dos esportes favoritos da presidente afastada. Bradar que não renuncia alimenta-lhe o ego. Por isso, ela afirmou várias vezes que não sai por ato próprio e repetiu a cantilena na semana passada, em entrevista ao repórter Roberto Cabrini, no Palácio da Alvorada. Ao ser questionada sobre a possibilidade de pedir a renúncia, Dilma afirmou: “Não tenho a menor intenção de renunciar. Não dou esse presente a eles [adversários políticos]”. Ela afirmou que “jamais vai jogar a toalha”.

Ela disse ainda que “a conversa” é a forma de tentar reverter votos a favor dela no Senado e que o governo atual tem pressa de encerrar o processo de impeachment porque seus adversários “temem alguma delação”, referindo-se às investigações da Lava Jato, sem dar detalhes sobre eventuais delatores e acusados.

A presidente afastada afirmou que há uma campanha contra ela, que motivou o impeachment, com o objetivo de “descontruir” sua imagem e “engendrar um golpe de estado”. “Sou vítima de um julgamento fraudulento, que tem como objetivo fazer uma eleição indireta”, afirmou.

Dilma voltou a dizer que as pedaladas e a assinatura dos decretos que hoje a colocam na marca do pênalti da destituição do cargo na Justiça tinham sido praticados nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva e em seu primeiro mandato, mas que somente agora viraram crime. “Ou é crime para todo mundo ou não é para ninguém”, reclamou ela.

Indiciamento de Lula, finalmente

Na sexta-feira, 26, a Polícia Federal (PF) indiciou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a mulher dele, Marisa Letícia, e mais três pessoas por crimes como corrupção ativa, passiva e lavagem de dinheiro. Os cinco são investigados por supostas irregularidades na aquisição e na reforma de um apartamento tríplex do Edifício Solaris, no Guarujá, no litoral de São Paulo, e no depósito de bens do ex-presidente.

Mais três indiciados pela PF: o ex-presidente da OAS, José Adelmario Pinheiro Filho (conhecido como Léo Pinheiro); o arquiteto Paulo Gordilho; e, por fim, o presidente do Instituto Lula Paulo Okamotto.

Os crimes pelos quais cada um foi indiciado:

  • Lula – corrupção passiva, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro
  • Marisa Letícia – corrupção passiva e lavagem de dinheiro
  • Léo Pinheiro – corrupção ativa, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro
  • Paulo Gordilho – corrupção ativa e lavagem de dinheiro
  • Paulo Okamotto – corrupção passiva, falsidade ideológica e lavagem de capitais
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Leonardo

Primeiramente fora Temer, tudo não passa de uma farsa. Cadê Cunha que ainda nao foi cassado e talvez nem será. A delação ta OAS envolve também Aecio e Serra.