Cezar Santos
Cezar Santos

Dilma foge da realidade mais uma vez

Ao se dizer “estarrecida” com relatório do FMI sobre o Brasil, presidente finge não saber que o governo dela é que empurra a economia para o abismo

Presidente Dilma no encontro do PDT: sem admitir culpa pela crise | Foto: Antonio Cruz/ABr

Presidente Dilma no encontro do PDT: sem admitir culpa pela crise | Foto: Antonio Cruz/ABr

Não tem escapatória: cada vez que Dilma Rousseff faz um pronunciamento público ela proporciona incongruências, atos falhos, frases inconclusas, pensamentos tortos. Mesmo quando não tropeça na formulação do que lhe vai pela cabeça, Dilma diz coisas que nem de longe batem com a realidade.

Não foi diferente na sexta-feira, 22, quando ela disse ter ficado “estarrecida” com a avaliação feita pelo Fundo Monetário Internacio­nal (FMI), que revisou as projeções para a economia brasileira em 2016 e 2017 em sua atualização do relatório World Economic Outlook (Perspectiva Econômica Global).

O cenário para a nova “dilmada” foi a reunião do diretório do PDT, seu antigo partido, em Brasília, para o qual Dilma foi convidada. Dilma pôs em destaque o que lhe interessa ao destacar que o FMI atribui à incerteza do cenário político e ao prolongamento das investigações de ilícitos cometidos na gestão da Petrobrás como motivadores da recessão.

“Eu fiquei recentemente estarrecida com uma frase que li no relatório do FMI. Nós sabemos que o FMI fala muita coisa. No último relatório dele avaliando a economia internacional, diz que três fatores são muito relevantes no atual cenário e explica as dificuldades que o mundo enfrenta: a diminuição do crescimento da China e instabilidade no Oriente Médio e o terceiro era a continuidade da situação crítica no Brasil”, afirmou Dilma.

“Ao que ele [FMI] atribuía a si­tu­ação crítica do Brasil? Não era da economia, mas à instabilidade política e o fato de as investigações quanto à Petrobrás terem prazo de duração maior do que eles esperavam”, disse a presidente.

Lembrando que o FMI aumentou a projeção de queda da economia brasileira este ano de 1% para 3,5%. Para 2017, a expectativa é de estabilidade, com a estimativa de crescimento zero para o Produto Interno Bruto (PIB). Em outubro do ano passado, o FMI projetava crescimento de 2,3%, em 2017.

Ou seja, Dilma não reconhece que a “situação crítica do Brasil” é provocada pelos erros crassos em sequência que ela vem cometendo ao longo do primeiro mandato em que ela se arvorou a ser ministra da economia sem ter a mínima capacidade para tanto. Não reconhece que a instabilidade política é causada por ela mesmo, que não tem a mínima noção de trato político com aliados e oposição.

Mesmo no primeiro ano do segundo mandato, ela não teve força política para deixar Joaquim Levy fazer o que era necessário para começar a corrigir os rumos da economia. Com isso, mais um ano ou dois anos de recessão estão garantidos.

A presidente disse que o país retomará o crescimento, mesmo diante da alta do dólar e da queda no preço do petróleo, e do baixo crescimento da China. “Nós vamos voltar a gerar emprego e renda e a desenvolver esse país. Vamos voltar a investir mesmo diante dessa crise internacional que se vê agora de forma mais clara. O Brasil vai voltar a crescer porque nós temos as bases bem assentadas, fundamentos sólidos.”

Certamente que retomar o crescimento, voltar a gerar emprego e renda e a desenvolver o pais é possível e desejável, urgente mesmo, mas dificilmente acontecerá com uma presidente que fez parceria com a inépcia.

Getúlio Vargas

Na parte essencialmente política da conversa, Dilma não se saiu melhor. Mais irrealidade, mais devaneios, mais avaliação em desconformidade com o real.

A petista novamente atacou os que querem seu impeachment, criticando o processo instalado contra ela no Congresso Nacional. Dilma lembrou as tentativas de destituição de Getúlio Vargas do cargo, comparando as duas situações. “O impeachment que tentaram impor ao Getúlio é prenúncio do que está acontecendo no Brasil: um governo não pode ser objeto de golpe por razões que chamam de políticas”.

Bom lembrar que Getúlio Vargas se matou na onda de escândalos que não chegam nem perto do que acontece atualmente nos governos petistas.

A presidente chamou de “golpistas” aqueles que defendem seu afastamento. “Não tenho na minha vida, no tempo que passei no PDT ou PT, nenhuma acusação de uso de dinheiro público, conta no exterior. Tenho uma vida ilibada. Não há nenhuma base para impeachment e eles sabem disso, mas não ligam. E ainda não gostam de ser chamados de golpistas.”

Por sinal, o PDT fechou na sexta-¬feira questão contra o processo de impeachment e a favor do afastamento de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) da presidência da Câmara.

Lava Jato

Mais cedo, em entrevista à “Folha” em seu gabinete no Palácio do Planalto, Dilma Rousseff afirmou que “há coisas que não acha corretas” na Lava Jato, como os vazamentos de trechos das delações premiadas, e que há “pontos fora da curva” na investigação “que têm de ser colocados dentro da curva”.

A presidente disse que é “im­pos­sível” alguém ser questionado [du­rante os interrogatórios] com base no “diz que me diz”. “Isso que não dá certo. Isso é o mínimo que a gente espera, que quando falarem uma coisa que forem perguntar para uma pessoa, que provem. Porque depois não é verdade e tá lascado, né?”

Apesar dos tais “pontos fora da curva”, a petista defendeu com veemência a operação deflagrada a partir do esquema de corrupção na Petrobrás. “Tenho de preservar o fato de que o Brasil precisa dessa investigação.”

Oposição

Dilma Rousseff afirmou que seu governo buscará o apoio da oposição a partir de uma agenda mínima para fazer o Brasil voltar a crescer. Disse, porém, que não será um apelo, mas uma espécie de chamado à responsabilidade não só aos partidos adversários, mas a todos os agentes políticos.

‘Todos têm de se juntar”, defendeu.

Presidente e Lula saem de propaganda para “limpar” imagem do PT

Tirar as nódoas da corrupção e da incompetência que estão grudadas no PT. Certamente é esse o objetivo do partido, preocupado com sua imagem num ano de disputa pelas prefeituras e câmaras de vereadores. E a providência mais drástica que o partido tomou foi tirar o ex-presidente Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff de suas inserções na TV.

Eles não aparecerão nos comerciais que o PT levará ao ar nas duas primeiras semanas de fevereiro. A cúpula do partido tomou a decisão para priorizar a defesa da imagem da sigla, abalada pelos escândalos do mensalão e do petrolão.

Com a medida, os petistas acreditam que podem depurar a sigla de duas marcas que já estão coladas ao petismo: a corrupção que, está clara nas delações na investigação da Lava Jato, marca todos os passos de Lula, e a incompetência de Dilma na gestão de governo.

Em agosto do ano passado, a aparição de Lula e Dilma na TV foi acompanhada por uma onda de panelaços em 16 capitais e no Distrito Federal. A “Folha de S.Paulo” informou que embora tenha decidido não expor suas maiores estrelas, o PT ainda não concluiu o formato das inserções, que serão exibidas nos dias 2, 4, 6, 9 e 11 de fevereiro, algumas em meio ao carnaval.
Já o programa maior, de dez minutos e com apresentação prevista para o dia 23, segundo integrantes da cúpula do PT, vai depender do clima político no país após a volta dos trabalhos no Congresso.

Panelaço

Os petistas disseram que a decisão de tirar Lula da Silva e Dilma Rousseff das inserções não foi tomada por temor de novos panelaços e buzinaços, como tem ocorrido todas as vezes que eles aparecem na TV. “Os panelaços podem acontecer mesmo sem eles”, justificou à “Folha” o presidente do PT-SP, Emídio de Souza.

No Dia da Mulher, 8 de março, em pronunciamento de rádio e TV, a presidente foi alvo de panelaços em ao menos 12 capitais, incluindo Goiânia. Depois disso, Dilma evitou aparecer na televisão. Ele se limitou a gravar vídeos para a internet no Dia do Trabalho e se pronunciou em redes sociais no Dia das Mães, em maio.

A presidente também ficou de fora do programa nacional do PT exibido no mesmo mês. A peça, no entanto, trazia o depoimento do ex­presidente Lula e foi recebida com protestos em 11 capitais. Eles voltaram a aparecer em rede nacional somente em agosto, em um novo programa partidário que ironizava os panelaços. E novamente houve panelaço.

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