Cezar Santos
Cezar Santos

Dilma começa a tomar um ippon

Finalmente tornada ré, a presidente afastada provisoriamente vai sofrer o impeachment, imperativo para que o País retome a normalidade institucional

Sessão do Senado que torna Dilma ré no processo de impeachment: foram 59 votos contra 21 | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Sessão do Senado que torna Dilma ré no processo de impeachment: foram 59 votos contra 21 | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Michel Temer não é o presidente escolhido pelos brasileiros. Mas ele foi o companheiro de chapa de Dilma Rousseff e, no caso de impedimento da titular, teria o dever constitucional de assumir o posto, como de fato assumiu, ainda provisoriamente. O peemedebista será “titularizado” se a petista for afastada de vez.

A troca de Dilma por Temer em definitivo está cada vez mais perto de ocorrer. O plenário do Senado deu na madrugada de quarta-feira, 10, mais um passo para enterrar de vez o mandato de Dilma Rousseff, colocando ponto final na era PT no comando do País. Com a votação, a presidente afastada tornou-se ré e será julgada por crime de responsabilidade por causa das chamadas pedaladas fiscais.

Tirada da cadeira presidencial desde 12 de maio, Dilma terá o mandato definitivamente interrompido se condenada, tornando-se inelegível por oito anos. Para que isso ocorra, são necessários dois terços dos votos do plenário do Senado, ou seja 54 dos 81 parlamentares.
A conta é simples: os 59 votos que autorizaram o julgamento indicam, portanto, que a presidente afastada será derrotada também no último passo do processo. Será muito difícil que alguém que votou por tornar a petista ré recue e vote a favor dela.

A última fase do impeachment deve ter início no final deste mês. E mesmo no PT, ninguém acredita na volta de Dilma ao Palácio do Pla­nalto. E já que os petistas falam tanto que Dilma sofreu golpe, e aproveitando o clima de jogos olímpicos, pode se dizer que será o golpe final, um ippon, em Dilma Rousseff. Ippon é o golpe “perfeito” nas artes marciais, quando o contendor que o sofre perde a luta de forma inapelável.

O julgamento final do impeachment começará na manhã do dia 25 de agosto, conforme notificação entregue ao advogado de Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo, na sexta-feira, 12. Cardozo foi informado do cronograma ao protocolar a peça de defesa de Dilma — o libelo da acusação já tinha sido entregue na quarta-feira. A notificação é assinada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, que será o responsável por presidir a sessão que dará o ippon, digo, que selará o destino de Dilma na Presidência da República. Na notificação, Lewan­dowski convoca os advogados da petista a comparecer ao plenário do Senado às 9 horas do dia 25.

O afastamento definitivo da petista é um imperativo para que Michel Temer deslanche nas medidas que precisa tomar para que o País retome a normalidade política e econômica. As medidas do ajuste tão necessárias estão travadas, em suspenso, juntamente por causa da indefinição sobre o volta-não-volta de Dilma Rous­seff. Para o bem do Brasil, que ela não volte ao posto que, na verdade, nunca deveria ter ocupado, uma vez que provou diversas vezes que não tem a mínima capacidade para exercê-lo.

Por sinal, Michel Temer assistiu em seu gabinete, no Palácio do Planalto, à sessão do Senado que decidiu tornar ré a presidente afastada. Não arredou pé enquanto a sessão não terminou, às 2h30. “Correu tudo conforme o esperado”, disse o interino, conforme os jornais. Ao seu lado, o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, lembrou que, mais uma vez, suas estimativas chegaram bem perto do resultado da votação. Padilha previu de 58 a 60 votos a favor do parecer do relator, Antonio Anastasia (PSDB-MG) — o resultado final marcou 59 a 21.
“É que aqui existe articulação política”, teria dito Padilha, numa crítica velada à gestão de Dilma. “O presidente Michel Temer sempre falou com deputados e senadores e continua falando. A grande marca desse governo é a pacificação.”

E o poder de articulação da turma de Temer é mesmo grande, como diz Padilha. Prova é que seis senadores que já foram ministros do governo Dilma Rousseff votaram para transformá-la em ré no processo de impeachment. Destes, cinco senadores já tinham votado em maio pela abertura do processo de impedimento. O sexto voto foi o do ex-ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga (PMDB-AM), que se au­sentou da votação de 12 de maio, por questões de saúde.

Os cinco ex-ministros que mantiveram voto contra Dilma foram Edison Lobão (PMDB-MA), que foi ministro de Minas e Energia de Dilma; Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE), ex-ministro da Integração Nacional; Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), ex-ministro da Previdência; Marcelo Crivella (PRB-RJ), que já comandou o Ministério da Pesca; e Marta Suplicy (PMDB-SP), ex-ministra da Cultura.

Três ex-ministros de Dilma votaram favoravelmente à presidente afastada: Gleisi Hoffmann (PT-PR), que já foi ministra chefe da Casa Civil, Armando Mon­teiro (PTB-PE), ex-titular da pasta de Desenvolvimento, In­dústria e Comércio Exterior, e Kátia Abreu (PMDB-TO), que chefiou a Agricultura.

Ex-ministros de Lula

Três ex-ministros de Lula votaram entre os 59 senadores que optaram por tornar ré a presidente afastada: Cristovam Buar­que (PPS-DF), ex-ministro de Educação; Eunício Oliveira (PMDB-CE), ex-ministro das Comunicações; e Romero Jucá (PMDB-RR), que foi ministro da Previdência.

Dois ex-ministros de Lula – Humberto Costa (PT-PE/Saúde) e José Pimentel (PT-CE/Previdência) — votaram contra a pronúncia da presidente afastada.

Pós-Dilma

O PT já pensa no pós-Dilma, de olho nas eleições municipais de outubro. As sucessivas descobertas de envolvimento de petistas em episódios de corrupção e a própria situação de Dilma estão minando o partido. A legenda terá 1.135 candidatos a prefeito nas eleições, número que representa uma redução de 35,5% em relação aos 1.759 candidatos petistas que disputaram prefeituras nas eleições de 2012. É a menor número de petistas em um pleito municipal nos últimos 20 anos.

A relação do PT com a presidente prestes a ser defenestrada sempre foi conturbada. Dias antes do julgamento que a tornou ré, Dilma defendeu uma “transformação” do PT em função das denúncias de corrupção reveladas pela Operação Lava Jato e de seu próprio afastamento da Presidência.

Ela também sugeriu que o uso de dinheiro sujo em sua campanha era um problema do PT, não dela. Em resposta, o presidente nacional do partido, Rui Falcão, afirmou que não vê “nenhuma viabilidade” na proposta de consultar a população para a realização de novas eleições, ideia que vem sendo estudada por Dilma, que estaria preparando uma carta para defendê-la publicamente. A carta seria enviada aos senadores na tentativa de angariar votos por sua permanência.

Como se vê, nem os petistas querem Dilma de volta à Presi­dência da República.

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