Cezar Santos
Cezar Santos

Confissão de irresponsabilidade

Dilma admite omissão e alheamento ao dizer que se houve caixa 2 não foi de seu conhecimento

João Santana: especialista em embrulhar produto ruim em belas embalagens

Marqueteiro João Santana confessa ter recebido dinheiro em forma de crime eleitoral na campanha de Dilma

A responsabilidade de um agente público não se resume a fazer o que deve fazer, mas também em não deixar de fazer o que tem de ser feito a bem do interesse coletivo. A presidente afastada da República, Dilma Rousseff, afirmou em entrevista a uma rádio pernambucana, na sexta-feira, 22, que não autorizou pagamento de caixa 2 a ninguém durante sua campanha. “Na minha campanha eu procurei sempre pagar valor que achava que devia. Se houve pagamento (de caixa 2), não foi com meu conhecimento.”

A fala da afastada foi em resposta ao que disseram no dia anterior o publicitário João Santana e sua mulher e sócia, Mônica Moura, que US$ 4,5 milhões recebidos em uma conta na Suíça tiveram como origem caixa 2 da campanha de Dilma em 2010. A confissão do casal foi ao juiz Sérgio Moro, responsável pelos processos da Operação Lava Jato na primeira instância, em Curitiba.

A verdade é que as declarações de Dilma são atestado de irresponsabilidade. É impossível que ela não soubesse que essa dinheirama escorria em sua campanha por dutos criminosos — sim, porque caixa 2 é apenas um eufemismo, já que não consta esse procedimento no ordenamento jurídico; trata-se de crime eleitoral.

Afinal, o que é pior: saber de um crime e participar dele conscientemente, ou saber e não estar nem aí, considerando que se está acima de qualquer suspeita pelo cargo que ocupa, no caso dela, o maior da República. Se sabia e ficou quieta, foi omissa; se não sabia, foi tonta, alheada, portanto, incapaz para o cargo de tamanha importância que pleiteava justamente pelo voto dos brasileiros.

Ao dizer que não sabia de caixa 2 em sua campanha, Dilma Rousseff confessou, no mínimo sua incompetência para o cargo.

Na entrevista de sexta-feira, Dilma disse ainda que continua lutando para retornar ao poder e ressaltou o óbvio, que o processo de impeachment só será finalizado com a votação no Senado, prevista para o fim de agosto. “Na abertura do processo, 22 senadores votaram contra o impeachment. Portanto, só faltam seis ou sete senadores para garantir que o impeachment não passa. E eu tenho conversado bastante com os senadores”, comentou, reiterando que há grande chance de reverter o impeachment, porque os senadores “têm um nível de responsabilidade muito forte”.

Dilma está certíssima. Os senadores evidentemente têm sim um nível de responsabilidade muito forte. E justamente por isso, eles sabem que seria uma tremenda irresponsabilidade patrocinar a volta de uma presidente afastada dentro dos preceitos legais e constitucionais, num processo fiscalizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Processo legítimo
Nesse sentido, é interessante a opinião de um ex-ministro do STF, Carlos Velloso, ao defender a legalidade do processo, contrariamente aos que insistem na tecla de golpe. Para ele, não há golpe na condução do impeachment. “Golpe seria o crime de responsabilidade sem punição”, afirmou.

Ainda segundo ele, o exercício de um mandato, ainda que legitimamente eleito, deve atender ao interesse público. “Se o chefe do Executivo falha, se comete crime de responsabilidade, a palavra é dada ao povo por seus representantes.”

Mesmo um atual integrante do STF, que no passado atuou como advogado do PT e era ligado ao corrupto José Dirceu, rebateu a tese de golpe. O ministro Dias Toffoli afirmou que o processo de impeachment contra Dilma é previsto na Constituição e nas leis brasileiras. “Não se trata de um golpe. Todas as democracias têm mecanismos de controle e o processo de impeachment é um tipo de controle”, disse numa entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo.
Portanto, se os senadores têm um nível de responsabilidade muito forte, como disse Dilma, por isso mesmo ela será afastada em definitivo.

Na entrevista em Pernambuco, a afastada negou que já esteja fazendo sua mudança do Palácio do Alvorada para Porto Alegre, onde vive sua família. “O que eu tenho está no Palácio da Alvorada, pouca coisa está em Porto Alegre. Espero levar as minhas coisas para lá em janeiro de 2019, e assim como o Lula, eu vou ter alguns tantos contêineres.”
Ela negou a possibilidade de manter a atual equipe econômica caso volte à Presidência, mas elogiou o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. “Não vejo nenhum defeito na pessoa do Henrique Meirelles, ele é capaz e competente”, disse.

A frase soa estranha, porque quando a economia com Dilma e sua equipe inepta, Guido Mantega à frente, já era um caso de descalabro crônico, Lula da Silva quis interceder para que ela nomeasse Meirelles. Dilma não aceitou, sabedora que alguém com mais competência e credibilidade iria deixar evidente os erros que ela vinha cometendo.

Rasgando o veú da hipocrisia
Na quinta-feira, 21, o marqueteiro João Santana, que atuou nas campanhas de Lula (2006) e Dilma (2010 e 2014), admitiu ter recebido 4,5 milhões de dólares do caixa 2 da campanha da petista em 2010. Interrogado pelo juiz federal Sergio Moro, Santana disse que é necessário “rasgar o véu da hipocrisia” que envolve as doações eleitorais no Brasil.

“Você vive dentro de um ambiente de disputa, competição profissional. Se termina tendo que ceder, ou faz a campanha dessa forma ou não faz”, afirmou o marqueteiro.

João Santana disse ainda que a situação não ocorre somente no Brasil, mas no mundo todo. “Os profissionais de eleições no mundo sempre sabem que existe caixa 2 que decorre de aposta no mercado futuro, de fazer amizades com governos. Eu não considero dessa forma ‘dinheiro sujo’, mas como dinheiro de negociação política”, respondeu ao ser questionado por Moro se não tinha conhecimento que se tratava de dinheiro de corrupção.

O marqueteiro foi ouvido na ação penal contra ele e outros sete acusados de receber propinas nos contratos da Petrobras com a empresa de Keppel Fels e também nos contratos da Sete Brasil com o estaleiro da Keppel que teriam somado 216 milhões de dólares em propinas. Dessa quantia, 4,5 milhões de dólares da cota que era destinada ao PT teriam sido repassados ao casal de marqueteiros em 2013 na conta na Suíça da offshore Shellbill Finance, que não era declarada por eles às autoridades brasileiras.

Esse valor, segundo admitiu o casal ao juiz da Lava Jato, era decorrente de dívidas da campanha de 2010 de Dilma Rousseff, também feita pelos dois marqueteiros, e que teria deixado, segundo Santana, uma dívida de 10 milhões de reais. Santana explicou que foi o próprio tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, que teria indicado o operador de propinas Zwi Skornicki para fazer o pagamento. “Se (o PT) não pagasse nós teríamos um grave problema de liquidez e eu não assumiria fazer a campanha”, afirmou o marqueteiro.

Santana disse que não confessou antes o recebimento do dinheiro por achar que isso poderia prejudicar profundamente a presidente Dilma. “Eu que ajudei, de certa maneira, a eleição dela, não seria a pessoa que iria destruir a presidente. Nessa época, já se iniciava um processo de impeachment, mas ainda não havia nada aberto. Sabia que isso poderia gerar um grave problema.

Sergio Moro perguntou a Mônica porque ela não falou a verdade. Ela também mencionou a preocupação em proteger Dilma: “O país estava vivendo uma situação muito grave institucionalmente, todos sabem o que estava acontecendo em torno da presidente Dilma. Para ser sincera, eu não quis incriminá-la, eu achava que ia piorar a situação do pais. Queria apenas poupar de piorar a situação”.

Com a confissão do casal de marqueteiros, fica difícil senão impossível para Dilma Rousseff negar que a campanha dela teve dinheiro do assalto à petroleira.

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