Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Com volta de Lula, PT goiano ganha ânimo para encabeçar chapa oposicionista para o governo

Todos apostaram numa eleição estadual polarizada entre DEM e PSDB, mas PT reúne hoje melhores condições para agrupar oposição

Os petistas que concorreram no pleito de 2020 viveram um dilema: usar ou não a imagem de Lula da Silva. Houve candidatos que foram até mais “conservadores”, optando por retirar de suas peças publicitárias de campanha a predominância do vermelho — cor característica do Partido dos Trabalhadores. Ninguém afirmou abertamente, mas havia um temor de não conseguir transcender o fardo que a imagem que o ex-presidente carregava até então: ficha-suja (fora até preso). Agora o líder petista está novamente no páreo, recebeu de volta a elegibilidade e revelou a bipolaridade dentro do partido — depositam nele a missão de sustentar a retomada do PT como agente que vai tentar unir a esquerda (frise-se que Ciro Gomes, do PDT, está rebelado e o PSB está em busca de candidato).

Tão logo o Plantão da Globo anunciou que o ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin havia anulado as condenações de Lula, os petistas goianos correram para atualizar suas táticas e estratégias para 2022. Com razão. Lula da Silva voltou com força ao cenário político e demonstrou que continua sabendo mobilizar e causar barulho ao seu redor. Nos últimos dias, coube ao decano do PT o domínio das redes sociais por meio de aliados e opositores.

A transmutação de ficha-suja em ficha-limpa representa uma reviravolta que terá como resultado a proliferação de candidaturas do PT. A presidente do partido em Goiás, professora Kátia Maria, já revelou que diretórios da sigla em cidades do interior que estavam sem comando agora recebem pedidos de correligionários querendo assumi-los.

Da mesma forma que filiados desacreditados ganharam novo ânimo para voltar à militância sob liderança de Lula da Silva, outros líderes regionais também vão se colocar com mais ênfase no debate político regional e podem, sim, liderar uma chapa oposicionista em Goiás. Muitas legendas, antes refratárias ao PT, agora estão abertas para diálogo e futuras composições.

O PT já trabalha para trazer para Goiás uma polarização similar à que se desenha na corrida pela Presidência da República. Embora no Estado o ambiente de polarização fosse mais favorável a uma disputa entre DEM, em nome do governador Ronaldo Caiado, e PSDB do ex-governador Marconi Perillo, o PT agora pode modificar este cenário que estava previsto. 

O atual contexto coloca o PT em melhor posição do que o PSDB como partido que encabeçaria a trajetória da oposição em Goiás. Os fatores são: os tucanos não vão bem no processo de reestruturação que precisam executar para chegar com alguma força em 2022. As baixas nos quadros do partido são grandes. Perderam prefeitos de peso e também acabaram por promover uma divisão interna que foi exposta pela desfiliação de Jânio Darrot — um dos melhores nomes que pertenciam ao partido e que comandou a sigla com louvor até o começo deste ano, mas que agora embarca no projeto do Patriota. Quem assume a presidência do PSDB é José Eliton, que, desde que anunciado, tem sido considerado uma imposição por parte do ex-governador Marconi Perillo — o que gerou uma grande chiadeira dentro da sigla. O preferido do partido era um prefeito —como Itamar Leão, de Sanclerlândia. 

É sabido que a eleição para governo caminha muito próximo com a de presidente da República. Eleitores buscam identificação entre quem será o gestor do Estado e quem está no comando do Palácio do Planalto. Neste ponto mora outro fator em desfavor ao PSDB quanto ao desejo de liderar a oposição em Goiás, pois mesmo que o governador de São Paulo, João Doria, consiga se viabilizar candidato à Presidência, ele contará muito mais com ajuda dos tucanos em Goiás do que vai promover a chapa liderada pelo PSDB no Estado.

Já o PT, embora o partido de Lula da Silva tenha apenas três prefeituras em cidades goianas, tem uma militância que garante à sigla uma característica que poucos possuem: capilaridade. Ainda há presença de fragmentos do PT em vários segmentos da sociedade, espalhados na grande maioria das cidades goianas. Militantes petistas chegarão a 2022 com discurso defensor do legado dos governos petistas, que, embora arranhados pelas denúncias de corrupção que surgiram ao longo dos últimos anos, resguardam avanços. E ninguém duvida de que, neste momento em que se veste de injustiçado, Lula da Silva conseguirá atrair votos para um projeto de esquerda no Estado.

Lula da Silva livre e elegível permite que petistas goianos se animem. Não há dúvidas de que o partido já corre para buscar um nome que possa agregar a oposição e estar à frente numa chapa para o governo do Estado. Adriana Accorsi e Antônio Roberto Gomide ocupam atualmente cadeiras na Assembleia Legislativa de Goiás, a aposta era de que buscariam a reeleição para deputado estadual. Mas, com Lula da Silva de volta ao páreo, pode ser que um deles seja destacado para ser o nome que irá disputar o governo do Estado, em nome do PT, da esquerda e, se conseguir agregar, dos partidos de oposição ao governo de Ronaldo Caiado.

O deputado federal Rubens Otoni também é um possível nome para a disputa ao governo do Estado, embora com chances mais remotas de entrar nesta disputa. A professora Kátia Maria, que já foi candidata ao governo em 2018, pode novamente ser a escolhida para representar o PT no pleito de 2022. Há quem postule que o candidato ideal seria o reitor da Universidade Federal de Goiás, Edvard Madureira Brasil, mas ele se desfiliou do PT e certamente não deixará o comando da instituição para postular o governo de Goiás.

Os reflexos também serão sentidos na disputa ao Legislativo. Sem Lula da Silva, o PT não enfrentaria problemas para formar uma chapa para disputar cadeiras na Assembleia Legislativa de Goiás e para a Câmara dos Deputados. Mas não chegaria próximo de demonstrar a força que teve nos últimos pleitos. Com Lula da Silva, o jogo muda. A capilaridade que o partido possui é retomada e a militância ganha força para ir às ruas, e nomes que não pensavam em entrar na disputa, agora são levados a reconsiderar.

É inegável que com Lula dando a largada para 2022 o PT ganha novas energias para o pleito, podendo retomar o papel que fez muito bem durante muitos anos: liderança da oposição. O que não se tem como certo ainda é se essa nostalgia petista, dos tempos em que Lula da Silva era chamado de “o cara”, será suficiente para fazer do projeto de esquerda um projeto vencedor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.