Cezar Santos
Cezar Santos

A China pode arrastar o mundo para o buraco?

Algo estranho está acontecendo com o gigante asiático, do qual a economia brasileira depende visceralmente

Cidade fantasma na China: milhões de imóveis foram construídos em todo o país e estão sem ocupantes | Foto: Divulgação

Cidade fantasma na China: milhões de imóveis foram construídos em todo o país e estão sem ocupantes | Foto: Divulgação

As principais notícias sobre economia mundial nos últimos dias referem-se à queda dos dois principais índices das Bolsas de valores chinesas (Xangai e Shenzen), de 32% e 40% respectivamente, desde um pico em meados de junho. Há sinais de desaceleração da economia chinesa. É o que bastou para as especulações sobre o reflexo disso na economia mundial, principalmente para os países ditos emergentes, como o Brasil.

A queda nos preços das ações na China provocou uma baixa nos preços de commodities, principalmente minérios e metais, produtos em que aquele país é o maior mercado global. É real o risco de que esses produtos caiam ainda mais. Lembrando que a queda no preço de minérios afeta países como Canadá, Austrália e Brasil. E a redução da atividade chinesa reduz o comércio internacional como um todo.

Os chineses são grandes compradores de petróleo, soja, minério de ferro e outras commodities brasileiras e o nosso país fatalmente será afetado por uma redução de importações da China. O temor é que o gigante asiático arraste o mundo para uma crise também gigantesca.
O que está acontecendo com a China?

A coluna dá espaço para um artigo de David Stockman, ex-congressista americano e ex-membro do governo Ronaldo Reagan. Este artigo foi publicado no Brasil em 23 de maio de 2014, no site do Instituto Ludwig von Mises – Brasil, associação voltada à produção e à disseminação de estudos econômicos e de ciências sociais que promovam os princípios de livre mercado. Não há indicação de publicação original nem é creditado o tradutor do texto.

O artigo, intitulado “Por que a China vai implodir” dá informações importantes para entender o que está acontecendo com o gigante chinês. No site, há link (https://www.youtube.com/watch?t=170&v=2yL7t0j_4tQ) para a reportagem “Cidades fantasmas – A farsa do crescimento chinês”, com legendas em português.

A opinião deste colunista, leitor, pode ser sintetizada numa palavra: estarrecedor!

Boa leitura.

“O segredo para se entender a China é que o país não é apenas mais uma economia emergente que vivenciou um forte crescimento e que, agora, está momentaneamente se esforçando para conter seus excessos. Também não se trata de mais uma economia que incorreu em uma farra de investimentos errôneos em ativos fixos, como imóveis, e que agora quer fazer uma transição para algum tipo mais “normal” de economia, como uma baseada no consumo.

“Não.

“A China é uma grotesca aberração econômica, cujo modelo econômico simplesmente não tem semelhança a nenhum outro modelo econômico já adotado por algum outro país em algum momento da história — nem mesmo ao modelo mercantilista de estímulo às exportações originalmente criado pelo Japão, e que já se comprovou insustentável.

“O governo chinês está nas mãos de um grupo de velhos comunistas que foram criados sob o regime de Mao. Eles acreditam em planejamento central, ainda que de uma maneira mais diluída. Eles enviaram seus jovens mais inteligentes para estudar economia nas universidades americanas. Esses jovens retornaram para a China keynesianos.

“A economia chinesa é hoje uma mistura maluca de empreendedorismo de livre mercado, de investimentos subsidiados e dirigidos pelo Banco Central, de mercantilismo keynesiano, e de planejamento central comunista. Trata-se de um acidente monumental que está na iminência de acontecer.

“A China é uma nação que, em decorrência de uma monumental bolha de crédito, incorreu em uma insana mania especulativa direcionada majoritariamente para a construção civil. As implicações desse endividamento (todo crédito é um endividamento) e dessa especulação imobiliária estão sendo resolutamente ignoradas por analistas que ainda estão iludidos pela noção de que a China criou um modelo econômico singular chamado “capitalismo vermelho”.

“Quando a dívida total (pública e privada) de um país explode de US$1 trilhão para US$25 trilhões em apenas 14 anos, isso não é capitalismo, nem mesmo vermelho. Trata-se de insanidade monetária conduzida pelo estado.

“Há ocasiões em que uma imagem vale mais que mil palavras. Eis a seguir um gráfico que apareceu em uma matéria do Financial Times que falava sobre a rápida deterioração do mercado imobiliário chinês. Ao que parece, de acordo com dados da US Geological Survey e do Comitê Nacional de Estatísticas da China, durante um período de apenas dois anos, 2011 e 2012, o qual representou o ápice da tão aclamada “agressiva política de estímulos” do governo chinês em resposta à recessão do mundo desenvolvido, a China consumiu mais cimento do que os EUA consumiram durante todo o século XX!

“Esse fato insano tem de ser corretamente digerido. Eis uma maneira de colocar as coisas em suas devidas proporções.

“Pense em todo o processo de urbanização ocorrido nos EUA ao longo dos últimos 100 anos. Pense na construção de todos os edifícios comerciais, de todos os prédios residenciais, de todas as casas, de todos os arranha-céus, e de todos os shoppings que adornam as milhares de cidades americanas da costa leste à oeste. Pense também na construção de toda a infraestrutura do país, desde as simples ruas e avenidas das cidades até as grandiosas represas Hoover, TVA e Grande Coulee, passando por toda a malha de rodovias, aeroportos, portos, rodoviárias, estações de trem, de metrô. Pense em todos os estádios de futebol americano, de beisebol, de basquete, de hóquei; em todos os auditórios e estacionamentos que já foram construídos no país.

“Todo o volume de cimento gasto nesse processo de 100 anos foi o mesmo que a China gastou em dois anos.

“O resultado? Cidades completamente vazias.

“Eis o busílis. É impossível olhar apenas para os frios números do PIB chinês e ter qualquer compreensão sobre o estrondoso colapso que irá ocorrer quando todo esse frenesi de obras acabar. A noção de que o governo, de maneira indolor, será capaz de reduzir os investimentos em ativos fixos de seu atual valor de 50% do PIB para “apenas” 25% — o que ainda seria consideravelmente alto — ignora o que realmente é a economia chinesa: um projeto de construção civil de dimensões continentais, na qual tudo está relacionado a transportar, fabricar, erigir e vender infraestrutura — públicas e privadas, varejista e industrial.

“Portanto, quando as construções pararem — seja porque os preços inflados dos imóveis estão caindo ou porque a expansão creditícia não mais será capaz de continuar sustentando a bolha —, a implosão será trovejante. A produção de cimento pode cair dos atuais 2 bilhões de toneladas por ano para meros 500 milhões; o consumo de aço irá despencar proporcionalmente; frotas industriais de caminhões de cimento e de transporte de aço ficarão ociosas; a demanda por pneus, por componentes de motores, e por combustível para caminhão irá evaporar; empreendedores que fornecem os serviços que suprem este gigantesco fluxo de cimento e aço irão à bancarrota; os apartamentos vazios — ainda chamados de investimentos” — em posse de seus proprietários serão inúteis.

“E quando essa implosão ocorrer, mais de um bilhão de pessoas irá vivenciar em primeira mão como planejamento central, expansão do crédito e inflação monetária produzida por um Banco Central são eficientes em destruir recursos escassos.

“Esse será o maior desafio dos oligarcas comunistas. Os chineses conhecem apenas dois sistemas econômicos: o sistema comunista sob Mao e o atual sistema, que é baseado na inflação monetária gerenciada pelo Banco Central e na alocação keynesiana de capital. As massas depositaram sua fé nesse sistema econômico. Quando ele entrar em colapso, as consequências serão interessantes.

“Atualmente, há aproximadamente 90.000 manifestações populares por ano na China. O governo é relativamente eficaz em escondê-las do mundo. Quantas mais ocorrerão quando houver a implosão?”

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Everaldo Leite

Muito boa essa matéria do jornalista Cezar Santos, para o Jornal Opção. Eu penso que a China pode diminuir a sua dinâmica de crescimento, mas não deve ser o pivô de uma crise maior. Ainda é um país com promessas econômicas muito alvissareiras, e com oportunidades gigantescas face ao seu imenso e crescente mercado consumidor. Os fatores de produção são baratos para quem produz lá e o seu alcance de mercado é global. Os parceiros comerciais estão hoje fortemente vinculados ao seu desempenho e farão todos os esforços para manter intacta esta relação. A política da China não tem sido… Leia mais