Cezar Santos
Cezar Santos

Blitz dos partidos para tirar Cunha

Mas o PT vacila, diante da possibilidade de usar o afastado presidente da Câmara dos Deputados para desgastar o governo do interino Michel Temer

Fotomontagem

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O peemedebista Eduar­do Cunha (RJ) põe em risco a estabilidade política do Brasil. Atualmente, afastado provisoriamente do cargo de deputado federal e, consequentemente, da presidência da Câmara dos Deputados, Cunha tornou-se um verdadeiro “boneco de Judas”, no qual todo querem bater. Não teria como ser diferente, tantas são as evidências de apropriação indébita de dinheiro público propinado durante anos e anos de mandatos e influência política em altos escalões do poder, isso desde o governo Collor de Mello e que se aprofundou nos governos petistas.

A saída em definitivo de E­du­ardo Cunha da presidência da Câ­ma­ra — não custa lembrar, um car­go na linha de sucessão do presidente da República — virou clamor nacional. Há um processo em curso para o afastamento dele na Co­missão de Ética da Casa, mas o homem vem procrastinando o quanto pode, usando para isso seu grande conhecimento do regimento da Câmara, além da influência sobre dezenas de colegas, dos quais ele sabe se­gredos cabeludos. De muito outros ele financiou as campanhas, coisas assim.

Daí porque PSDB, DEM e PPS, partidos da antiga oposição à presidente petista afastada, Dilma Rousseff, começaram a negociar uma união com os antigos adversários PT, PCdoB e Rede por um objetivo comum: afastar, por definitivo, o “Judas” Eduar­do Cunha da presidência da Câmara e realizar novas eleições na Casa.

Na articulação, ob­via­mente, está a discussão de um nome para disputar a sucessão do peemedebista contra o candidato apoiado por Eduardo Cunha. O candidato “cunhista” sairia, como não poderia deixar de ser, do grupamento sob fortíssima influência de Cunha, o Centrão, composto por 13 partidos comandado por PP, PR, PSD e PTB.

Plano é vagar o cargo

Na quarta-feira, 8, a “Coluna do Estadão” informou que o diálogo entre os dois grupos tinha sido aberto naquele dia. Os partidos discutiram alternativas para provocar a realização de novas eleições internas. No encontro, os antigos oposicionistas cobraram apoio dos petistas ao projeto para declarar vago o cargo de presidente da Câmara.

O projeto é do deputado Roberto Freire (PPS-SP) e, se aprovado, forçaria a realização de nova eleição, tirando da presidência interina o deputado Waldir Maranhão (PP-MA). O maranhense, que assumiu o comando da Casa no início de maio, após o Supremo Tribunal Federal afastar Cunha, tem dado seguidas mostras de total incapacidade para o cargo, além de se mostrar uma marionete no jogo que interessa ao presidente afastado.

Mas há um probleminha numérico no acordo entre a antiga e a atual oposição. Para aprovar o projeto, precisam de assinaturas de líderes que representem 257 deputados. A conta, até agora, chega a apenas 119 parlamentares, pois apenas PSDB, DEM, PPS e PSB apoiam a proposta. A nova oposição, formada por PT, PCdoB, PDT e o deputado Silvio Costa (PTdoB-PE), soma 90 parlamentares.

Antes do afastamento de Dilma Rousseff da Presidência o PT era radicalmente contra Eduardo Cunha, tendo patrocinado diversas manifestações contra ele tanto na Câmara como em outros locais onde o deputado aparecia. Mas, agora, o PT se recusa a assinar o pedido. O líder do partido, Afonso Florence (BA), disse ter muita dúvida da real intenção dos antigos opositores.

Florence disse desconfiar de que a antiga oposição quer aprovar o projeto em um acordo para tirar Eduardo Cunha da presidência da Câmara, mas o preservando do processo de cassação que tramita no Conselho de Ética da Casa. Resumindo a desconfiança: o plano é tirar o peemedebista da presidência, mas mantê-lo no cargo de deputado.

Segundo “O Estado de S. Paulo”, o PT os outros partidos adversários de Temer avaliam que, por enquanto, pode ser mais favorável lidar com as trapalhadas do presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão. Explica-se: embora seja aliado de Eduardo Cunha e do Centrão, Waldir votou contra o impeachment de Dilma Rousseff, é próximo de deputados do PT, PCdoB e PDT, além de ser aliado do governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). Dino é um ideólogo do “fica Dilma” — foi ele o mentor intelectual da decisão de Maranhão de anular a sessão que votou a admissibilidade do impeachment.

Mas não se pode descartar que os petistas também avaliam se não é melhor continuar “sangrando” Cunha, que é do PMDB e próximo de Temer. Dessa forma, podem usar Cunha para continuar desgastando o governo do presiente interino, um jogo rasteiro que o PT opositor sempre soube jogar bem.

Já os antigos oposicionistas não querem Waldir Maranhão. O líder do PSDB, Antonio Im­bassahy (BA), disse que o que está em questão é a normalidade da Casa e que não dá para Waldir Maranhão presidir a Câmara.

Sobre a desconfiança dos petistas, de que o acordo tem o objetivo de salvar o mandato de Cunha, apenas destituindo-o da presidência da Casa, Imbassahy afirmou que a cassação do peemedebista é consequência e, caso venha para o plenário, será inevitável.

Os dois grupos têm divergências, que ficaram explícitas na primeira rodada de conversa. Mas eles vão continuar as articulações e nova reunião está marcada para esta semana. A fogueira para assar o “boneco de Judas-Cunha” foi acesa.

Ministro libera para julgamento 2ª denúncia contra o peemedebista

E a situação jurídica de Eduardo Cunha vai piorando a cada dia. Na sexta-feira, 10, o ministro Teori Za­vascki, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), liberou para julgamento a segunda denúncia contra o presidente afastado da Câmara, que é acusado de manter contas secretas na Suíça abastecidas por dinheiro desviado do esquema de corrupção da Petrobrás.

Com a decisão de Zavascki, o mais provável é que o caso seja levado a plenário na semana que vem, no dia 23. Também serão julgados recursos defendendo que a mulher de Cunha, Cláudia Cruz, e a filha Danielle Dytz sejam julgadas pelo STF, e não pelo juiz Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato na primeira instância da Justiça Federal.

A liberação para a pauta ocorreu no dia anterior, quando Moro aceitou a denúncia contra Cláudia e a transformou em ré, por entender haver indícios de que ela se beneficiou de uma das contas na Suíça, “utilizando ainda expedientes para ocultar o seu recebimento e a sua fruição”, segundo Moro.

A denúncia contra Eduardo Cunha foi oferecida ao STF pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em março. O parlamentar é acusado da prática dos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Tam­bém em março, o peemedebista se tornou réu no processo que apura se ele recebeu propina por contratos de navios-sonda da Petrobrás.
O peemedebista também responde a pelo menos outros quatro processos no STF, um deles sobre a sua participação no esquema de corrupção de Furnas. A defesa do parlamentar tem sustentado que não há provas materiais de que o peemedebista tenha contas no exterior.

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