Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Anápolis dá exemplo de organização na vacinação de idosos

Priorizar a imunização dos velhinhos é salvar vidas dos mais vulneráveis a Covid-19

A Covid-19 é uma doença que resguarda pouca lógica. A forma diferenciada com que ela afeta cada pessoa e os motivos que leva isso ainda são incógnitas para cientistas e autoridades no assunto. As sequelas deixadas em quem se infectou com coronavírus são tão diversificadas que os médicos ainda se intimidam com os diagnósticos. O único padrão registrado até agora é que ela é mais letal entre idosos.

É diante dos dados sobre as mortes causadas pela Covid-19 que a absoluta maioria dos países têm optado por proteger antes os idosos do que os demais. A aplicação da tão aguardada vacina chegou primeiro aos nossos velhinhos, como determina o Plano Nacional de Imunização contra a Covid-19. Os critérios para prioridade nas doses são claros, primeiro os trabalhadores da saúde e idosos a partir que vivem em instituições de longa permanência (como asilos e instituições psiquiátricas). No segundo momento, pessoas com que tenham 80 anos ou mais. 

Ao receber as doses em seus municípios, cabe aos prefeitos das cidades organizar essa logística para aplicação da vacina. E tão logo as doses chegaram, já pipocaram as denúncias de “fura-filas”. Pessoas que não se enquadram em nenhum dos grupos, mas que por ansiedade ou por puro mau-caratismo se usam de artimanhas para passar a frente das prioridades sanitárias. Saiu de Goiás o caso mais emblemático dessa situação  – secretário de saúde de Pires do Rio, que há menos de 20 dias à frente da pasta usou seu poder para mandar vacinar a esposa, que não soube esperar sua vez. 

Mas esse texto não é para elencar os “fura-filas”. Para estes, o Ministério Público de Goiás já tem voltado sua atenção – muito trabalho à vista para os promotores. 

O intuito aqui é ressaltar um bom exemplo. Anápolis apresentou um plano que tem se diferenciado dos demais municípios. A prioridade zero, conforme demonstrado até aqui, têm sido os idosos. É emblemático o fato da cidade ter sido a primeira em Goiás a aplicar as doses. A primeira vacinada foi a idosa Maria Conceição, residente de um lar de longa permanência da cidade. Quem aplicou a vacina foi o próprio governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM).

O prefeito de Anápolis, Roberto Naves (Progressista), até parece ter se inspirado na dona Maria Conceição, tanto que seguiu aplicando as doses em idosos –  inclusive já partindo para aqueles que estão fora de asilos, para assim ampliar a imunização entre os velhinhos. Mas não só de uma inspiração ou desejo pessoal. Ele se baseou em dados e ciência –  algo que tem sido repetido desde o início da pandemia.

Em Anápolis a taxa de letalidade da Covid entre idosos acima de 80 anos é de 27%. Trata-se do maior percentual de mortes quando separado por faixa etária. Esse fator é determinante para que se busque uma organização que privilegie esse grupo. Afinal, parafraseando a  superintendente de Vigilância em Saúde, Flúvia Amorim, quando viu as vacinas chegando a Goiás: “cada dose é uma vida salva”. A afirmação é ainda mais certeira quando se vacina idosos.

Para priorizar os idosos anapolinos, Roberto Naves foi um dos poucos prefeitos que decidiu adaptar o Plano Estadual de Vacinação. Foi assim que ele conseguiu ampliar a imunização para idosos que não estão em abrigos de longa permanência –  como previsto inicialmente. É importante destacar que as doses foram distribuídas de forma proporcional à população de cada cidade. Assim, Anápolis contou com 12 mil doses da CoronaVac para vacinar 6 mil pessoas. O plano inicial previa imunizar idosos acima de 80 anos que moram em abrigos e os profissionais da saúde que atuam na linha de frente.

Os mais de 500 idosos que estavam em abrigos da cidade foram imunizados, outros mil que tem 85 anos ou mais também receberam a primeira dose, além dos mais de quatro mil trabalhadores da saúde que lidam diretamente com pacientes contaminados. Tudo feito sem nenhuma confusão ou suspeita de “fura-filas”. Sobraram no estoque da cidade 2.500 vacinas e assim, ao invés de se curvar a pressões políticas ou classistas, Roberto Naves decidiu ampliar o grupo prioritário e começou a vacinar os idosos acima de 85 anos.

Da mesma forma que a atitude foi exemplar, a organização serviu de modelo para outras cidades. Por meio de um aplicativo de mensagens os idosos foram cadastrados e receberam a vacina em casa. Para acelerar o processo, foram montados drive-thru para imunizar. Até durante o fim de semana as doses foram aplicadas.

O modelo já é copiado em outras cidades. O exemplo parece ter inspirado até o governador, que já anunciou que com a chegada de uma nova remessa de doses, a próxima etapa da vacinação será destinada a idosos acima de 80 anos – cerca de 111.453 pessoas no Estado.

A continuar assim, Anápolis além de dar o exemplo, entrará para história como a cidade que iniciou a vacina no estado e a primeira a imunizar todo o grupo de risco. Com um detalhe: segue sem suspeitas de “fura-filas”.

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