Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

Aliança entre Caiado e Daniel deixa oposição ainda mais fragilizada

Quem mais lamenta chapa DEM/MDB são os tucanos que ainda contavam com possiblidade trazer os emedebistas para uma aliança oposicionista

A mais complexa articulação política em Goiás já tem os indicativos de que está muito próximo de se consolidar. O governador Ronaldo Caiado (DEM) abriu as portas para o MDB de Daniel Vilela e a chapa para reeleição do democrata ganha contornos mais sólidos – e projetos futuros que tenham DEM e MDB como aliados já são vislumbrados. Embora ainda haja alguns emedebistas resistentes, se a democracia prevalecer dentro da sigla, a aliança está a um passo de ser concretizada e enfraquece ainda mais uma oposição, que em Goiás ainda só assiste aos movimentos governistas.

Quem mais sente o golpe da aliança entre Caiado e Daniel é o PSDB. Os tucanos representam a oposição natural em Goiás, mas após duas décadas de mandatos à frente do Estado, o grupo liderado pelo ex-governador Marconi Perillo perdeu o poder em 2018 e abriu um grande vácuo na política goiana. Como sabemos, em política os espaços não ficam vagos por muito tempo. O DEM, liderado pelo governador, soube se articular, atrair líderes e ocupar estes espaços.

Muito desgastado, o núcleo político que era liderado por Marconi Perillo se afastou dos principais debates políticos do Estado pelos últimos dois anos. Assim, o PSDB deixou de ser visto como alternativa viável para encabeçar a chapa oposicionista no ano que vem. Alguns tucanos esperavam se reorganizar a partir de 2022 estando em uma aliança da oposição encabeçada por outro partido – o desejo mais profundo era de que pudessem contar com o MDB de Daniel Vilela.

Os analistas políticos avaliam que no momento não cabe mais nada ao PSDB a não ser assistir aos movimentos e aguardar os próximos passos. Não que esta seja uma estratégia, mas porque os tucanos saíram enfraquecidos das eleições municipais e mesmo que ainda seja o partido que represente a principal oposição ao grupo caiadista, por certo falta um nome que lidere esse projeto e que coloque em prática um discurso antagônico para 2022. 

“O psdb deixou de ser uma potencial que disputa os primeiros lugares, para ser um partido que vai tentar reconstruir uma base, talvez até de nível médio em termos eleitorais, haja visto a evasão de quadros, cujo muitos foram para o DEM”, aponta o cientista político Guilherme Carvalho. “A maior dificuldade do PSDB neste momento é apresentar quadros para a sociedade, que sejam conhecidos, que  tenham capilaridades eleitorais e  que tenham capacidade suficiente para bancar palanques a nível local e nos municípios”, complementa. 

Sabendo das dificuldades que Marconi Perillo enfrenta para entrar na disputa –  principalmente após ser um dos alvos da operação Cash Delivery – Guilherme aponta que o PSDB encontra barreiras para encabeçar uma chapa. A aposta dos tucanos seria uma migração do prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha (MDB) para o PSDB. De fato ele não esconde o desejo de ser candidato ao governo, inclusive está entre os descontentes com a decisão de Daniel Vilela. Porém, o cientista político se mostra cético com essa movimentação. “Seria positivo para o PSDB e poderia reacender alguma chama, mas neste momento eu não apostaria”, afirma. 

O também cientista político, Pedro Célio, concorda que a aliança de Caiado com Daniel enfraquece a oposição, principalmente o PSDB, e aponta outros dois fatores que dão mais peso à base caiadista. “Estamos em um quadro de muita desmobilização popular e desmobilização oposicionista com vistas às eleições. O sistema partidário ainda fica muito quieto e a opinião pública ainda está difusa. A possibilidade de reeleição permite que a iniciativa do jogo sempre fique na mão de quem está  no governo”, aponta. “Outro fator é a maneira que vão se dar as vinculações e conexões entre os processos regionais e nacional. O governador mantém uma afinidade, compromisso orgânico e eleitoral com o presidente Bolsonaro. O MDB não tem problemas com isso”, diz. Por outro lado, estariam os tucanos dispostos a apoiar Lula numa polarização nacional? Quais os reflexos das alianças nacionais para formação da oposição em Goiás? São questionamentos que ainda seguem em aberto. 

Agora, próximo do anúncio da formação da chapa de DEM e MDB, Ronaldo Caiado consolida uma articulação muito bem conduzida que lhe garante uma força extra em sua base, e atende aos anseios do maior líder emedebista em Goiás. Falo de Iris Rezende, que atuou por essa aliança, mas antes disso já dizia que não queria ver o MDB cair nas garras do PSDB. Mesmo hospitalizado –  se recuperando de um AVC –  o ex-prefeito de Goiânia já deve estar ciente dos movimentos desta aproximação com DEM que ele ajudou a construir.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.