Marcos Aurélio Silva
Marcos Aurélio Silva

A lealdade de Rogério Cruz é com o Republicanos

Ao remodelar o secretariado e impor suas próprias indicações para pastas estratégicas, o prefeito de Goiânia não está rompendo com MDB, e sim atendendo ao seu partido

Embora haja uma infinidade de críticas e ameaças de rompimento entre o MDB do ex-deputado federal Daniel Vilela e o prefeito Rogério Cruz (Republicanos), não há nenhuma surpresa nas trocas de secretários que acabaram por reduzir espaços dos emedebistas na Prefeitura de Goiânia. Na verdade, essas mexidas já eram aguardadas desde a posse. São até naturais, afinal, Rogério Cruz deve, do ponto de vista partidário, lealdade ao Republicanos e não ao MDB.

Em seu livro mais célebre, “O Príncipe” (Companhia das Letras, 176 páginas, tradução de Maurício Santana Dias), Nicolau Maquiavel (1469-1527) dedicou um capítulo para analisar principados conquistados pelas armas de outros. O filósofo italiano anotou: “Aqueles que, mercê simplesmente da fortuna (sorte) passam de simples cidadãos à condição de príncipes, é com pouca dificuldade que a alcançam, mas com muita que a mantém: não enfrentam obstáculos ao longo da estrada, visto que voam, porém, todas provações sobrevêm à sua investidura”. O trecho permite uma analogia com os motivos que levam Rogério Cruz a promover mudanças que não são desejadas pelo MDB.

Rogério Cruz só chegou ao comando do Paço Municipal devido à morte do emedebista Maguito Vilela, em decorrência da Covid-19. Nas eleições ele assumiu o lugar de vice-prefeito para preencher uma negociação entre seu partido e o MDB. Não podia imaginar, naquele momento, que seria efetivado prefeito de Goiânia. Mas foi. E tão logo assumiu sua cadeira na Prefeitura de Goiânia, as pressões vieram de todas as partes e os obstáculos a sua gestão só tendem a crescer — caso não prove sua liderança e monte sua base de poder. Daí a necessidade de promover mudanças seguindo sua própria concepção.

Rogério Cruz, assim que assumiu a Prefeitura, foi alvo de críticas da opinião pública, questionando a legitimidade do processo eleitoral que culminou com a vitória de Maguito Vilela — que passou a maior parte do período de campanha em leito do Hospital Albert Einstein, acometido de Covid-19. Outro obstáculo que o prefeito recém-empossado precisou enfrentar foi a sede de partidos aliados e vereadores por cargos na administração municipal. A pandemia também trouxe barreiras ao republicano, que precisou impor decretos impopulares para conter o avanço da doença, e teve sua capacidade de liderança questionada em várias fases do processo. Essas são algumas das provações que Rogério Cruz enfrentou, e muitas outras ainda estão por vir.

Ao remodelar o secretariado e promover mudanças nas pastas chave da gestão, o prefeito não demonstra que está abandonando o projeto de administração proposto por Maguito Vilela durante a campanha eleitoral. É preciso entender que Rogério Cruz faz parte desse projeto. Antes de ser prefeito, ele foi eleito por duas vezes vereador em Goiânia e desistiu da reeleição porque foi colocado na disputa como vice-prefeito — atendendo ao chamado de seu partido. Rogério Cruz ocupa o Paço em razão de uma aliança muito bem costurada pelo MDB junto ao Republicanos, por intermédio do deputado federal João Campos, presidente do partido em Goiás. Isso é o que torna evidente a sua lealdade ao Republicanos e não aos emedebistas.

Manter as pastas mais estratégicas da gestão municipal em mãos de indicados do MDB faz parecer que Rogério Cruz está administrando em nome do grupo emedebista comandado pelos Vilela, mas o ônus por qualquer fracasso ou insatisfação popular teria como alvo exclusivo o prefeito — sem nenhum compartilhamento de obrigações com emedebistas. Montar a sua própria base, nomeando para cargos-chave aqueles que ele próprio negociou a indicação, coloca o prefeito realmente no centro das decisões, ou, como dizem no linguajar futebolístico, chamou para si a responsabilidade e foi ao ataque. Resta, adiante, fazer os gols.

Por outro lado, o rompimento do MDB com o prefeito Rogério Cruz, embora factível, parece pouco provável. O prefeito continuará contando com o apoio emedebista na Câmara Municipal, aliás, como alguns vereadores buscam espaços para indicarem cabos eleitorais para o segundo escalão, a reforma administrativa pode reforçar ainda mais a relação de Rogério Cruz com a base governista. 

Quanto ao grupo emedebista liderado por Daniel Vilela, o herdeiro político tanto de Maguito Vilela quanto de Iris Rezende, caberá muita cautela para se decidirem se desembarcam ou não da gestão de Rogério Cruz. É preciso levar em conta que MDB vinha perdendo espaço. Com a aposentadoria de Iris Rezende, os Vilela enxergaram uma oportunidade de unificar os grupos sob comando de Daniel Vilela e o ponto de partida para esse projeto seria a Prefeitura de Goiânia. Esse é mais um ponto ao qual a morte de Maguito alterou. 

Daniel Vilela tem a opção de negociar a indicação de secretarias com menos orçamento ou que tenham grande peso estratégico, e assim continuar a parceria com Rogério Cruz. Mas, caso resolva desembarcar da gestão, o presidente regional do MDB ficará sem uma base para seu grupo e seu projeto para 2022. Isso impediria o grupo dos Vilela de buscar uma hegemonia na legenda em Goiás e de ser a liderança desse novo momento do partido — sem Maguito e sem Iris.

Hoje é mais fácil para Daniel Vilela aderir à plataforma de governo de Rogério Cruz do que remanejar seu grupo para fazer oposição à gestão da Prefeitura de Goiânia. Para chegar a essa conclusão, o líder emedebista precisa avaliar duas coisas. A primeira é que, para seguir com um projeto para as eleições de 2022, é importante o MDB ter uma base como a participação da administração da mais importante prefeitura de do Estado — Goiânia. O segundo ponto, é que ele precisa entender que Rogério Cruz está sendo leal ao Republicanos, que é quem comanda de fato o Paço.

(Sobre Maquiavel, algumas palavras a mais. Na sua época, a Itália não existia. Existiam cidades-Estados (como Gênova e Veneza), cuja língua era o italiano. A unificação da Itália — seu nascimento como país — só se deu em 1861. E a unificação, como havia previsto o filósofo florentino séculos antes, ocorreu sob o comando de um “príncipe”, que, curiosamente, contou com o apoio de Giuseppe Garibaldi. E este também lutou no Brasil, no Rio Grande do Sul, e se casou com uma brasileira, Anita Garibaldi.)

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