Nilson Jaime
Nilson Jaime

Tristes infâncias

Leninha acordava às três da madrugada e cozinhava arroz-de-tropeiro e feijão-pagão com toucinho para a peonada. “Ai, se chegar o barrado do sol e não tiver boia nas marmita! Tu entra no relho!”. A pequena estremecia ao pensamento do Padrasto de botas, castigando seu corpo frágil: o pavor das lanhadas de esporas, que há meses laceravam sua carne adolescente

Óleo sobre tela (1985) de Waldirene Curado, reproduzida de obra anônima

Era por volta do Ângelus quando Leninha avistou a rua do Comércio. Já dava para ouvir a festança dos periquitos se aninhando no galhario da centenária mangueira ao final da via, seguida de breve desvio à esquerda para iniciar o beco da ponte. Estava por um tiquinho de encontrar o abrigo de ajitório, matutou apertando as pisadas curtas. Seu vestido e meias de domingo coalhavam de carrapichos beiço-de-boi, timbetes e reboleiros, pois viera se amoitando pelos pastos e capoeiras toda vez que ouvia o tropel de gente a pé ou de acavalo. Emborante aumentasse a lonjura de percorrer as duas léguas de distância do rancho de pau-a-pique em que morava – no vau do Morro Azul –, ao comércio em Mataúna, não corria risco ser avistada pelo Padrasto, que nessora já se dera que escapulira. “Se fugir, se amoite com Seo Rosolpho, na Rua do Cumerço. Ele vai te recolher”, dissera Dindinha, única pessoa que lhe restara nessa vida, indesde que a mãe morrera de teto de aborto, um ano antes.

A bactéria do tétano “Clostridium tetani” era um flagelo para a humanidade, nos tempos da Segunda Guerra. Parente de outro micróbio do mesmo gênero – “Clostridium botulinum” –, que causava o botulismo no gado de boi. O primeiro matava silenciosamente, quando a ferida sarava verde, de fora pra dentro: faltava oxigênio e o esporo germinava. Surgia a toxina mais mortal existente na Terra. Toda família perdia alguém para a moléstia, naqueles dias da Guerra contra Mussolini. Bastava um ferimento no arame farpado, um estrepe de cerca no dedo, um espinho de tucum, uma pereba inframada de timbete, um bicho-de-pé, ou pisar em prego enferrujado, e o desinfeliz ia conhecer São Pedro mais cedo. Dizer do povo, espinho de luiz cacheiro também dava teto. O esporo da bactéria tetânica resistia a seis horas de fervura em água de pelar porco. Estava espalhada no solo e em todas as superfícies desse planeta. “Sabe o Goloso? Aquele que tinha uma ursa no nariz? Pois é! Morreu de teto!”

O segundo micróbio matava o gado que lambia carcaças pestilentas de vaca morrida por raio, ou ofendida de cobra cascavel com chocalho erado. O alimal apodrecia no pasto, se entufava de toxina “nos osteosporos dos ossos” e aparecia a mardita. “O bortulismo levou a mimosa!”, vaquinha que Leninha ganhara do Major Aliboro por ocasião do batismo da menina, aos dez anos. “Não batizo criança sem pai e nem aponho santo sacramento da Igreja. É sacrilégio contra Deus!”, dissera o vigário quando sua mãe, abandonada parida de miúdo pelo marido Geneso, envindo do Norte, quis batizá-la com um mês de nascença. Vastira virou mulher largada “por mode não consegui lhe dar um filho home”, explicou ao padre. Teve que esperar o veredito Divino, no dizer do sacerdote: “Percisa de um tempo de purgatório. Se o chifrudo não requerer o anjinho até os dez anos, daí batizo! É porque Deus é servido!”.

Primeiro Helena perdeu a vaquinha. A menina acismava tinha uma mancha esfumacenta nas orelha que o alimal ofendido por cobra não tinha. “Que azar o seu, Leninha! A vaca que lhe dei morreu no pasto e foi comida por arubu. Só sobrou as orelha e os rabo”, dissera Major Aliboro, de quem o Padrasto era agregado e meieiro na fazenda. Já o tétano levou sua mãe, aperrengada despois do coice do Padrasto na barriga: “Irra! Daí não vinga nada de bão! Muié com bucho redondo a fila é fema. Quando é home macho a pança é pontuda!”

No lusco-fusco da noite chegante, a timidez a impediu perguntar da venda de Rosolpho, mas dizer de Dindinha ficava de vista pra mangueira do largo. Mangueira que não chegava nunca! Suas pernas meninas pesavam que nem dormente de aroeira. Ouviu uns toc-tocs de ferraduras se achegando e estremeceu, coração a sair pela boca. Por certo era o Padrasto com os capataz do Major Aliboro, Prudenço e Nolasco, e os perdigueiros, que vinheram no seu rastro. Pensou ter ouvido o latido de satanás, que mordia até a sombra e jorrava uma baba viscosa quando latia grosso. Agachou-se sob o batente de uma janela e rescendeu cheiro de vela. Ouviu o vozerio de mulher a rezar novena do Divino e um choro fingido, depois outro e mais outro. Choro na brinca, não na verda, remoeu. Lembrou-se de dona Percila, carpideira de velor por vinte cruzeiros o defunto.

Teve saudades da mãe falecida e desejou seu colo quente a lhe pentear os cabelos, aroma do óleo de lavanda com pente fino de tirar piolho. Óleo-de-pau nas cabeças-de-prego e nos furunco, toicinho quente pra tirar berne. Desejou os chás de poejo, hortelã ou folha de laranjeira, quentinhos, na rabeira do fogão de lenha. Cheirinho de querosene e o “vupt” do primeiro fogo, aceso sobre os gravetos com uma binga de pedra. Dali saia cheiro de madeira queimada, que variava conforme o aroma da lenha. Estava com a Virgem Santíssima agora, sua Rainha. Como desejou se juntar à mãezinha, ouvir seus cantos e a doce voz a lhe chamar “minha menina, minha Bebé…”. Deu de por si e pressentiu apavorada a lambada da pinhola nas pernas, espora riscar suas costas, como tantas vezes ocorrera no inverno das chuvas, quando o Coisarrõe ficava em casa. A cavalhama aproximou-se e o pavor foi crescendo, até lhe faltar forgo. Parecia pesadelo, de dormença com barriga cheia, ou de enquando não rezava o “Creio em Deus Pai” antes de dormir. Valença que não era o Padrasto, mas uns rapazes das Cavalhadas do Divino, que passaram folgazentos e divertidos, fazendo afuzarca e trotando suas montarias, até desaparecerem no breu do beco. Acismada, apressou os passos com as perninhas adoloridas de cãibras, quando avistou a mangueira, já na boca da noite.

A casa de Rosolpho no largo era uma extensão do quiosque que montara debaixo da mangueira, assim que chegara ao povoado, trinta anos antes. Não se sabe quando se plantou aquela Anacardiaceae, espécie originária da Índia, que os botânicos chamam “Mangifera indica”, planta indiana que se “mângia” – do Italiano –, “que se come”. Dizer dos antigos foi nos tempos do imperador Pedro I, que teria passado pelo vilarejo com seu amigo Chalaça, ocasião em que enterrara a semente da bruta. Certo é, que não havia em Mataúna vivalma que se lembrasse da planta antes de se tornar brutela e frutificar todo ano.

Durante o dia, debaixo da mangueira, se vendia de um tudo que vinha do retiro: banda de capado, toicinho, torresmo, carne na gamela, carne de caça, banana marmel, leite de vaca e de cabra, ovos caipira, melado de cana, farinha de pau, ou de puba, farinha de milho, paçoca, moça-de-engenho batida, rapadura de cana, com mamão ou leite, geleia de mocotó, queijo fresco ou curado, mandioca, cará, açafrão da terra, taioba, abóbora, bucha vegetal, sabão de bola – de sebo ou de arroz –, e leite, ordenhado ali na hora, quentinho, na frente do freguês. Se perguntavam a Seo Rosolpho se o leite era puro, respondia com ironia que o nome da vaca era cisterna. Se pediam “um de menos”, dizia que só se pesasse com o quilo de 900 gramas. Mas o freguês levava o que quisesse e anotava na caderneta, trazida de casa. Pagava na safra, ou quando Deus desse bom tempo. Assim criavam, Rosolpho e a cabloca Indeia, os três filhos naturais e os diversos acolhidos, que ajudavam nos afazeres dos negócios.

No quiosque, pela madrugada, a partir das quatro, ali se reuniam o guarda noturno da prefeitura e do fórum, o fiscal de posturas, que passara a noite laçando cavalos soltos pela rua, ou gado criado à larga, e toda a elite política e administrativa da cidade. Se reuniam para beber café coado no coador de pano, ou chocolate quente espumoso, acompanhado de quebrador, bolo de fubá, biscoito de queijo assado na hora, ou de polvilho, saído quentinho da panela. O quiosque de Rosolpho era o único local em que partidários da situação e da oposição conversavam, antes debatiam, e até brigavam entre si, contando novidades da Guerra e da política federal e estadual, que ouviam pelo rádio. Antes do primeiro raiado de sol, ali se encontravam o farmacêutico, Doutor Zacarias com seu anel de formatura, o Bacharel em Direito, o retratista, o meirinho, o escrivão, o promotor, os edis da situação e seus contrários, o alcaide, o rábula, o “meretíssimo” juiz, e até Jeromo Dentista, que diziam ser comunista vermelho, querer confiscar as fazendas para uma tal reformagrária. Daí a pouco chegava o Padre –, seguido do Cura babento e do Sacristão –, que se alongava nas conversas caso não encontrasse algum protestante, pentecoste ou maçom: “A única religião deixada por Nosso Senhor é a Católica”, ensinava o vigário. “Se há segredo, boa coisa não há de ser!”, discursava as indiretas, confundindo alhos com bugalhos. Quem acabava com a roda era o Polonês, sempre que a contava mentiras sobre seu batalhão na Primeira Guerra, antes de emigrar para o Brasil.

Ao adentrar o portal do velho casarão de 15 cômodos, Leninha era um fiapo de gente. Estava exausta e faminta. A luz de lamparina alumiava a porta de entrada, sempre aberta para os roceiros passantes, caixeiros-viajantes, cometas, bobos e peregrinos de toda sorte, aos quais era oferecida mesa farturenta com arroz feito na banha, feijão-pagão, carne de lata, ou de cateto, que Rosolpho caçava pessoalmente, com sua felobé, ou com dardos preparados por Indeia. “Fulano! Já almoçou? Se achegue! Indeia, arruma a boia pro Agnelo!”, gritava Rosolpho diversas vezes ao dia. Só havia uma preceito: “Bebo não entra porta adentro, come no passeio, de coque, até sarar a cachaça!”.

A menina adentrou timidamente o longo corredor com chão de tábuas, ouvindo o tum-tum das próprias pisadas e o tunc-tunc de seu coração disparado: “Ô, de Casa!”, balbuciou. Passou por uma, duas, três portas dos quartos, na penumbra, rumo à luzinha bruxuleante rodeada de aleluias. “Ô, de Casa!”, falou mais alto. Na porta ao fundo apareceu a figura esquálida de uma mulher com lamparina na mão. Era Indeia, cabloca Tapuia do Carretão. A cunhã fez a saudação de costume: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Os anjos te guardem se vem e paz!”. A infante nada respondeu. Apenas enveredou-se cozinha adentro, chorando copiosamente e desfaleceu.

Quando acordou, às nove da noite, estava deitada numa cama alvíssima, com colchão de palha e travesseiro de paina. Cheiro de cânfora no ar. A tapuia catava os bigatos de mosca verde de suas costas meninas e os depositava em uma vasilha, com os olhos marejados pela triste sina daquela criança. À medida que retirava as larvas arroziformes, passava um pano úmido, esverdeado com a infusão da mistura de ervas que preparara, herança do saber ancestral indígena. Tendo pensado as feridas das costas da menina, ofereceu-lhe canja quente de mulher parida. Comeu avidamente, primeiro, segundo e terceiro pratos que lhe foram servidos. Após isso adormeceu brevemente, por minutos, que lhe pareceram horas.

Leninha sentiu um sacolejo breve, delicado, e viu o rosto de um casal ao lado da cama. Era a tapuia que lhe cuidara e um homem de bigodes largos, que imaginou ser Rosolpho. Queriam ouvir sua história para tomar providências. Perguntaram por seus pais e tudo que ouviram foi um choro baixinho e incontido. Por uma longa hora Leninha contou ao casal os detalhes dos quais se lembrava.

O Padrasto, que sempre pensara fosse seu pai, era cerqueiro de madeira de lei: aroeira, jatobá, ipê, pau-ferro… principalmente aroeira. Homem rústico e sem estudos, adotou a pua, o enxó, o serrote, o formão e a grosa como ferramentas de ganhar a vida, trabalhando de empreita. Afora isso, era agregado de fazenda em fazenda. Com Major Aliboro estava indesde que a menina se entendia por gente, para ela uma eternidade. Como agregado, tinha direito a casa de pau-a-pique com telha de barro e até janelas. Na casa, filtro de argila para filtrar os micróbios da água de beber, fogão de lenha barreado, bica d’água na porta, quintal com poleiro para a galinhama, chiqueiro, e um pequeno mangueiro de criar capado piau e caruncho. Ela ganhara uma porquinha de brinco, a Barbela, a quem cuidava de dar o trato de milho ou lavagem, todo dia. O terreiro era farto de galinhas, marrecos e cocás, muito atentadas, mas que espantavam lacraia e escurrupião. O Padrasto plantava roças de ameia: arroz, feijão andu, abroba, o miu das galinhas e de pipoca. De disproposto tinha que dividir tudo com o fazendeiro, que levava carroçada de melancia amarela, mamão, banana, e ainda disfitiava o capiau, que apenas assuntava, contrariado. A menina dessabia a idade do Padrasto, mas completava ano na enchente de São José.

Dona Vastira também vivia para a labuta, cozinhando para os peões e vaqueiros do Major, e os serventes por adiária do marido no serviço de acercagem. Quando a menina acordava, no raiar da manhã, a boia já estava pronta, o café passado e servido com biscoito frito de polvilho ou pamonha de sal. Podia ouvir o tum-tum ritmado da mão de madeira no pilão, onde a mãe pilava arroz, milho de fubá, amendoim e paçoca de carne, para completar a marmita. Resto do dia era no batedor, em arredor da bica lavando roupa pra fora, com sabão de bola, quarando no quarador de folha de bacuri, fervendo no fogão de trempe, batendo no batedor de tábuas e pondo pra secar, no arame ferpado. Hora de passar as roupas de fora era na frescança da noite, quando dona Vastira balançava o pesado ferro de passar, pra mode espantar as cinzas e atiçar as brasas, que soltavam fagulhas crepitantes como fogueira de São João. A menina nunca via a mãe dormir, já noite feita, mas se sentia feliz e confortável, quando a matriarca estendia o lençol e a cobria com coberta de algodão, depois de rezar o Pai Nosso e a oração de afastar pesadero: “Não te’medo de pesadero, nem das suas mãos furada. Nesse quarto tem quatro canto, cada canto tem um Santo. Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, Amém!”. “Durma com Deus, Leninha!”, despedia a mãe, antes de assoprar a lamparina e voltar para passança de roupas. Leninha demorava um pouco pra dormir, com medo de morcego, que dizem era rato de asa.

Tudo mudou pouco depois de Leninha completar onze anos. A mãe pegou a anojar. Anojava de um tudo. Enjuou da comida e dava ansa de gômito. Depois passou a gomitar por qualquer cheiro ou comida. Dindinha perguntou pelas regras e disse que estava pançuda. “Vai ter um irmãozinho, Leninha!”, dissera a madrinha. Da doença que levou a mãe, a menina não se lembra muito. Vastira foi ficando buchuda, amarelenta e tristonha. A barriga apareceu com uma mancha roxa, que depois ficou preta, “de um tombo”, segundo a matriarca. Já não cantarolava as canções tristes, quando batia com força a roupa sobre o batetor de tábua. Não teve valença as garrafadas de dona Cantilha, as benzeções, as Ave-Marias e os responsos. Certo dia apareceu defunta, verde, dura e fria, aos 33 anos. Não houve velório. Nem Major Aliboro, nem o Vigário, nem o Cura, nem dona Percília, a carpideira, apareceram. Apenas o Padrasto, caladiço, Dindinha e Leninha, chorosa, cuja vida morria junto daquela cruz, fincada no terreiro do rancho.

Madrugada seguinte, a menina foi sacolejada ao primeiro canto do galo, com o Padrasto parecendo raivento à beira da cama: “Acorda! Daqui pra diante vai tê que cozinhá, lavá e passá, se quisé comê. Bem-te-vi cantô, boia na marmita da peonada!”. Sua vida passou a ser a trempe, o fogão de lenha, a bica, o batedor de roupa e todo o trabalho que a mãe fizera a vida toda. Nada de pentear cabelo de milho que fingia sua boneca; nada de sonhar rebanho de gado com sabuco de milho; nada de brincar de casinha e fazer cozinhadinho. Tinha que fazer comida de verdade, em panelões de ferro, pra gente grande. Apanhava por qualquer caso: “arroz tá salgado”, “arroz tá sem sal”, “feijão queimou”, “quase quebrei o dente na pedra no feijão”…

Não tinha um dia que não levasse coice, safanão, cusparada. Expermentou pinhola, vara de goiabeira, taboca e cinto de couro. Até que um dia apanhou de espora. O excomunguento chegou passado, cheirando a cachaça, com hálito azedo e voz emplastrada. Como em todo dia, a menina tinha que tirar a bota de couro do Padrasto e lhe trazer a precata de casa. Nessas horas tremia como vara verde, na expectativa de algum maltrato ou xingo. Ao agachar-se, para lhe tirar as botas, desceu por suas perninhas adolescentes um líquido quente e vermelho, que parecia sangue. Lembrou-se de mãe em hemorragia, perdendo líquido todo dia, até definhar e morrer. Foi nessa hora que o bruto, fazendo cara de anojado, cortou suas costas com espora pela primeira vez: “Pestilenta! Vai procurar sua madrinha!”, vociferava para a menina que gritava de dor e se embebia em sangue, da ferida, e da primeira regra.

Os maltratos foram se intensificando, aumentando a cada dia. A triste infância da pequena fora roubada pelo trabalho e pelos maltratos, não havendo para quem reclamar. Certa noite, o desgracento roubou sua inocência. Passou a bolir com a menina sempre que tomava cachaça.

Leninha acordava às três da madrugada e cozinhava arroz-de-tropeiro e feijão-pagão com toucinho para a peonada. “Ai, se chegar o barrado do sol e não tiver boia nas marmita! Tu entra no relho!”. A pequena estremecia ao pensamento do Padrasto de botas, castigando seu corpo frágil: o pavor das lanhadas de esporas, que há meses laceravam sua carne adolescente. Já não suportava tanta dor, sofrimento e humilhação, quando Dindinha lhe falara de Seo Rosolpho.

A índia chorava em cântaros e Rosolpho mostrava cara de revolta quando, quase chegando meia-noite, a criança terminou seu relato desolador. “Fiinho! Vai na cocheira e sele dois animais! João, vá buscar seu tio Joãozico. Não demore! Pé lá, outro cá!”. Era beirando uma hora quando os dois irmãos saíram madrugada afora, rumo ao Vau do Morro Azul, armados e preparados. Precisavam resolver as coisas antes que o maldito viesse cheio de razão, tirar satisfação, alegar com o Juiz, ou reclamar direitos de pai com o promotor. Partidários do Governo, magistrado e promotor nada decidiam que contrariasse Major Aliboro. Contrários na política, Rosolpho e seu irmão Joãozico, que fora nomeado recentemente delegado de polícia pelo Governo, falavam a mesma língua, quando se tratava de fazer justiça.

A pequena Helena foi criada como filha pelo casal Rosolpho e Indeia. A firmeza e diligência do comerciante, e o pendor maternal da tapuia, desenvolveram na adolescente grandes dotes pessoais e sensibilidade humana. Passados os primeiros meses, as feridas do corpo se curaram, ficando apenas as cicatrizes das costas lanhadas por espora. As feridas da alma foram curadas com o ambiente de aceitação e amor, ao lado de quase dez irmãos postiços. Em alguns meses, cessaram os pesadelos e os gritos durante o sono. Aos 19 anos Leninha casou-se com um Cometa vindo de São Paulo, que a cada seis meses passava por Mataúna. Dizem ter filhos, netos e bisnetos, na capital bandeirante.

 – “E o Padrasto de Leninha, Seo Rosolpho?”, perguntavam de vez em quando, curiosos.

– “Fugiu pro Norte!”, era a resposta.

8 respostas para “Tristes infâncias”

  1. Avatar pablo disse:

    Peofessor Nilson, aguardando ansioso a publicação da coletânea de contos. Quiçá seu livro de romance.

  2. Avatar Sandra disse:

    Triste realidade brasileira de muitas infâncias do passado que nos dias de hoje em alguns lares mudam apenas o cenário da vida rural para vida urbana, mas que muitos também encontram final feliz na compaixão e justiça.

  3. Avatar Glaydes Silva disse:

    Que maravilha de conto! Muita riqueza de vocabulário do senso comum. Parabéns Nilson.

  4. Avatar Nonatto Coelho disse:

    Prezado Nilson, li o seu conto emocionante, me fez voltar em alguns cantos de meu passado, e refletir sobre nossas crianças, depois que a gente se torna pai, temos uma outra dimensão emocional dos desafios inerentes à vida. Eu fui pai depois dos meus 40 anos, e isso me transformou, mesmo nessa faixa etária, me fazendo ter outro parâmetro emocional diante das crianças…

    Esse conto escrito com facilidade e rica linguagem sertaneja, não necessito ter um tradutor, mesmo porque acho que ainda não tem um “tradutor on line” para essa linguagem já quase tão rara como quem fala o latim. E olha que conheci um personagem fantástico, e me tornei seu amigo na Itália, um jornalista e crítico de arte ( que faleceu há menos de um ano, infelizmente), que tinha uma intimidade impressionante com o latim e com o grego antigo. Olha que raridade era meu amigo de nome Lino Cavallari, que Deus o tenha na luz da eternidade. Sou muito grato à ele, pois abriu algumas portas importantes no meu ramo artístico na península Itálica, e escreveu vários artigos em efemérides italianos à meu respeito…

    Mas voltando ao seu conto, onde tive o prazer de receber em primeira mão, eu li em um fôlego só, entendi a trama e senti a atmosfera familiar à todos nós que temos uma sensibilidade e observação da natureza humana.

    Eu sou diametralmente contra o trabalho infantil, o conto remete à muitas reflexões sobre a condição da criança, a fragilidade de nossos pequenos. O grande poeta de Osasco Tico Lee, em uma das cartas que ele carinhosamente me endereçou quando eu morava em Atenas escreveu algo que me colou na memória: “a criança é o pai do adulto”, e em um lado oposto, uma frase que li no livro de Nikos Kazantzákis (considerado o maior escritor grego do século passado) um livro sobre a história de São Francisco de Assis denominado “O Pobre de Deus”, lá ele disse “enquanto houver pássaros, flores e crianças, não temas, tudo irá bem”, assim eu acredito que as crianças são seres especiais…

    Agora entendi que aquela imagem que escolhestes é perfeita para a ilustração do conto, uma criança introspecta, olhando para o chão.

    Parabéns por seu talento singular na literatura, essa ramificação da expressão artística no qual, para mim é a mais importante dentre todas as manifestações do espírito humano, a partir da literatura, a vida tem a possibilidade de ser menos misteriosa, ou, mais entendida…
    Abraço fraterno!

  5. Avatar VERA LÚCIA ALVES MENDES PAGANINI disse:

    Que texto MARAVILHOSO!

    Parabéns, senhor Nilson Jaime!

    Eu voltei à minha infância com a linguagem desse belo conto. Senti-me em casa dos avós paternos.

    Que regionalismo perfeito! Obrigada por compartilhar o seu grande conhecimento de “goianês” e a sua capacidade poética!

    Perfeito!

  6. Avatar fleurymar de souza disse:

    Trágico e lancinante, um conto que nos põe em contato com a face cruel das relações humanas, sobretudo no meio rural. Triste é imaginar que ainda hoje fatos assim ocorrem. Parabéns, prezado Nilson Jaime.

  7. Prof Nilson Jaime, seu conto ainda é muito real infelizmente. Seu regionalismo é forte e muito importante. Esse conto precisa ser bastante divulgado, inclusive ajudando a pais denunciarem e orientarem seus filhos a falarem o que de mal acontece . Parabéns pela coragem de publicar um conto como esse q abrange o regionalismo e situa-se no tempo atual. É também uma denuncia.

  8. Avatar Rosy Cardoso disse:

    Meu escritor, as horas que antecedem meu descanso noturno são coroadas pela literatura, e especialmente as que brindo a piscadela no toque de minhas pestanas com seus textos guardo o descanso nas campinas verdes e balançantes.Hoje em especial me coloco em mesuras diante de tal sensibilidade. Do linguajar ( resgatado) e rico de nossas raizes à denuncia dos maus tratos tão comuns em nossas histórias. Parabéns!

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