O jornalista José Renato Assis fez questão de citar em sua reportagem no “Diário da Manhã” de 20 de outubro de 1983 sobre a morte de Tia Amélia que poucas pessoas compareceram ao seu enterro. “Não havia mais de cem pessoas. Apenas os familiares e alguns amigos.”

Por que essa ênfase na quantidade de pessoas que foram ao Cemitério Jardim das Palmeiras prestar a última homenagem para aquela senhora falecida com 86 anos? Porque Tia Amélia tem seu nome escrito na história da música brasileira. Porque ela enfrentou preconceitos e se fez famosa ao tocar seu piano para o Brasil e o mundo ouvir. Porque Roberto Carlos lhe dedicou a canção “Minha tia” e Vinicius de Moraes escreveu uma crônica intitulada “A bênção, Tia Amélia”. Pelo feito daquela senhora de 86 anos, é de se questionar as poucas pessoas que compareceram ao seu velório (por sinal, o mesmo ocorreu no velório do grande pintor Di Cavalcanti).

Tia Amélia: exímia pianista | Foto: Reprodução

Desde cedo, a pernambucana Amélia Brandão Nery se interessou por música. Sua casa em Jaboatão dos Guararapes respirava notas musicais já que seus pais tocavam vários instrumentos. A mãe era pianista e logo a menina Amélia se interessou pelo piano. Com 12 anos compôs sua primeira valsa. Ela começou na música clássica, mas logo se dedicou à música brasileira, em especial o choro. À medida que ia se tornando moça, crescia também a pressão para que Amélia se casasse o mais rápido possível. E isso aconteceu quando seu pai lhe apresentou um fazendeiro rico da região. O casamento durou pouco. Aos vinte e cinco anos, Amélia já estava viúva. Com quatro filhos para sustentar, ela sofreu várias privações tendo que vender seu piano para pagar as contas.

As coisas começaram a melhorar quando Amélia participou de um recital com a presença do governador de Pernambuco. Ele se encantou com a música dela e a incentivou a fazer uma turnê nacional por seis anos. Amélia foi pioneira na luta pelos direitos autorais dos músicos brasileiros. Em 1929, ela viajou para o Rio de Janeiro com o objetivo de esclarecer questões sobre a gravação de uma música sua pela Odeon sem a sua autorização.

Tia Amélia: brilhando no piano

Amélia ganhou fama na antiga capital federal a tal ponto de o Itamaraty a convidar para fazer apresentações nos Estados Unidos. Quando voltou para o Brasil, Amélia continuou suas apresentações no rádio tanto em Pernambuco como no Rio de Janeiro. Na década de 1950, foi convidada para apresentar programas de musicais na TV Tupi e na TV Record. Nessas idas e vindas ao Rio, ela conheceu os principais músicos do Brasil — como o notável Ernesto Nazareth.

Tia Amélia muda-se para Goiânia

Quando uma de suas filhas se casou, a vida de Amélia mudou a trajetória. Ela se mudou para Goiânia, onde estabeleceu residência até a sua morte em 1983. Foi aqui que surgiu a “Tia Amélia”, quando a chamaram dessa forma pela primeira vez em uma festa no Jóquei Clube de Goiás, em 1954. Todo mundo começou a chamá-la assim. O poeta, compositor, cantor e diplomata Vinicius de Moraes era um dos seus admiradores e lhe dedicou a crônica “A bênção, Tia Amélia”. O rei Roberto Carlos reverenciou a nossa pianista ao compor “Minha tia”.

“Titia Amélia

Há quanto tempo a gente não se vê

Mas, acredite

Eu me lembro sempre muito de você

Eu não esqueço aquele tempo e

A saudade me machuca

Quando eu ficava em sua casa

Numa Vila da Tijuca”

É por essa trajetória tão rica, é pelo reconhecimento por tudo o que fez pela nossa música que o jornalista José Renato Assis fez questão de ressaltar as poucas pessoas que estiveram presentes no velório de Tia Amélia. Roberto Carlos sentiu saudades dela. Se Vinicius de Moraes pediu bênção para Tia Amélia, quem somos nós para não fazer o mesmo?