Nilson Jaime
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Vai fazer falta: morre aos 92 anos o biólogo Edward Wilson – um dos maiores naturalistas da Era Contemporânea

Edward Wilson foi um cientista revolucionário, digno do “Olimpo da Ciência” ao lado de Darwin, Humboldt, Wallace e Haeckel. Criador da Sociobiologia, soube integrar como ninguém as Ciências Biológicas, Humanas e Sociais

Edward O. Wilson, especialista em formigas, é o criador de uma nova Ciência: a Sociobiologia | Foto: Divulgação

Faleceu no último dia domingo (26/12/2021), de causas não divulgadas, o biólogo Edward Osborne Wilson (1929-2021), que foi considerado uma das 25 pessoas mais influentes da América, já em 1995, pela revista “Time”, e um dos mais proeminentes cientistas da atualidade. O entomólogo, nascido em 10/06/1929, na cidade de Birmingham, estado do Alabama, EUA, era tido como o maior naturalista dos últimos 100 anos, uma espécie de sucessor de Darwin. Professor da Universidade de Harvard há mais cinquenta anos, Wilson é autor de quase três dezenas de livros sobre mirmecologia, biodiversidade, ecologia, evolução e sobre a interação das ciências biológicas com as humanidades e a sociologia. Seus livros tornaram-se “best-sellers”, traduzidos para diversas línguas.

O mirmecólogo (especialista no estudo das formigas), responsável por popularizar o termo “biodiversidade” entre o público, foi Laureado com a Medalha Nacional de Ciências (1979) e uma centena e meia de prêmios de relevância internacional. É autor de uma das maiores controvérsias científicas do Século XX, anotada em seu livro “Sociobiology: The New Synthesis”, de 1975, onde defende a teoria de que o comportamento animal (extensivamente aos humanos) pode ser compreendido utilizando-se uma abordagem evolutiva. Esse livro deu origem a uma nova ciência, a Sociobiologia.

Dentre os mais de 150 prêmios por ele recebidos em todo o mundo estão dois Pulitzer de não ficção (1979 e 1991), inusual para publicações sobre ciências. Edward Wilson é doutor “honoris causa” em mais de 40 universidades, membro honorário em igual número de instituições científicas, palestrante em mais de 100 universidades em todos os continentes, e responsável pela nomeação de centenas de novas espécies de formigas, principalmente da tribo Pheidolini (Formicidae: Myrmicinae).

Obras

O Pulitzer de 1979, que se deu pela publicação do livro “On human nature” (1978), sem tradução no Brasil, é visto como “um esforço para complementar a revolução darwiniana, ao trazer o pensamento biológico para as ciências sociais e humanas”. O segundo Pulitzer viria em 1991, em razão de seu monumental trabalho sobre formigas, “The Ants” (1990) – também sem tradução para o Português – escrito em coautoria com o alemão Bert Hölldobler. Esta obra é consensual como o mais completo tratado de mirmecologia já escrito. Com dimensões de 27 cm x 31 cm, pesando quase 5 kg, e 731 páginas, o trabalho tornou-se indispensável para mirmecólogos de todo o mundo. “The Ants” foi um dos dois livros-base (ao lado de “Introducción a las hormigas de la región Neotropical”, organizado e editado por Fernando Fernández, em que Wilson é um dos coautores) para a elaboração de minha tese de doutoramento em Agronomia pela Universidade Federal de Goiás, onde discorri sobre mirmecologia.

Dentre os vários livros traduzidos para o Português, Edward O. Wilson escreveu “Naturalista” (Editora Nova Fronteira, 368 páginas, tradução de Leonardo Fróes), autobiografia que remonta à sua cidade natal e descreve sua carreira científica e acadêmica, as ações que o ajudaram a popularizar o conceito “biodiversidade”, até chegar aos princípios da “biofilia” e da Sociobiologia, esta tornada uma nova ciência.

Em “Diversidade da Vida” (Companhia das Letras, 528 páginas, tradução de  Carlos Afonso Malferrari), o mais eminente estudioso da biodiversidade analisa os processos adaptativos que derivam novas espécies e descreve os processos de extinção em massa dos últimos 600 milhões de anos. Pensador humanista, que alia as questões biológicas às relações sociológicas, Wilson propõe saídas complexas que visam conciliar preservação ambiental e sustentabilidade.

Em 1997 a Editora Nova Fronteira publicou “Biodiversidade” — organizado por E. O. Wilson em 1988, para o original “Biodiversity” —, que reuniu quatro dezenas de cientistas especialistas em biodiversidade de todo o mundo, como Paul Ehrlich, Norman Myers, Thomas Lovejoy e James Lovelock.

Alguns dos livros de Edward Wilson, dentre os quais o clássico “The Ants”, referência da mirmecologia mundial. | Fotomontagem / Nilson Jaime

Em “Consiliência: a unidade do conhecimento” (Editora Campus, 1999. 321 páginas), o professor emérito por Harvard defende “a unidade fundamental de todo o conhecimento e a necessidade de uma busca da Consiliência – a prova de que tudo no mundo está organizado segundo um pequeno número de leis naturais fundamentais”.

No ano de 2006, Edward Wilson publicou nos Estados Unidos “The Creation – an Appeal to Save Life on Earth”, traduzido no Brasil por Isa Maria Lando sob o título “A Criação: como salvar a vida na Terra” (Companhia das Letras, 2008, 192 p.), que resenhei para o Suplemento Cultural do Jornal Opção em 24/06/2017. Conciliador, neste livro Wilson busca pontos comuns entre ciência e religião, visando a salvação do planeta Terra (clique no link e acesse a resenha completa ao final deste artigo).

Também resenhado por este autor no Suplemento Cultural do Jornal Opção (Edição 2201, em 16/09/2017, veja link de acesso ao final deste artigo) “Cartas a um jovem cientista” (Companhia das Letras, 2013, 202 páginas, tradução de Rogério Galindo) é um livro de cunho autobiográfico, com objetivo claramente definido: instruir jovens em início da carreira científica sobre as possibilidades de sua vocação. Embora muitas das experiências tenham sido relatadas em seu livro “Naturalista”, já citado acima, Wilson enfatiza suas motivações pessoais para algumas das pesquisas que realizou pela vida, os percalços, dúvidas, resistências, sucessos e fracassos.

Em “A conquista social da Terra” (Companhia das Letras, 2013. 390 páginas) o cientista se concentra na vida dos insetos sociais (principalmente formigas, abelhas e cupins) para refletir sobre as respostas a questões que afligem a humanidade desde sempre: “de onde viemos? Para onde vamos?”.

Com o livro “O sentido da existência humana” (Companhia das Letras, 2018. 168 páginas), Wilson articula ciências e humanidades para refletir sobre o que faz os seres humanos tão diferentes de outros seres sociais. O autor apresenta alternativas que o Homem deverá escolher, a fim de preservar seu futuro neste planeta.

Edward Wilson foi um cientista revolucionário, digno do “Olimpo da Ciência” ao lado de Darwin, Humboldt, Wallace e Haeckel. Criador da Sociobiologia,soube integrar como ninguém as Ciências Biológicas, Humanas e Sociais. Ao falecer, deixa um legado de obras e ideias geniais, que fizeram a diferença para a humanidade. Uma mente positivista que sabia respeitar o empirismo e a força das religiões e conclamá-los a traçarem juntos uma saída para a sobrevivência de todas as espécies deste planeta. Apesar de sua herança de milhares de seguidores em todo o mundo, a ausência de E. O. Wilson será sentida. Fará falta à Ciência e à vida.

Acesse duas resenhas dos livros de Edward Wilson

“A Criação – como salvar a vida na Terra”

“Cartas a um Jovem Cientista”

2 respostas para “Vai fazer falta: morre aos 92 anos o biólogo Edward Wilson – um dos maiores naturalistas da Era Contemporânea”

  1. Avatar José Edgar de Castro Andrade disse:

    Foi um dos Grandes, da Ciência contemporânea! Gostei muito do texto! Cheio de informações detalhadas! Obrigado

  2. Avatar Carmem Gomes disse:

    Perdemos o homem. Ficou a sua obra. Os estudos e experimentos por ele compartilhados serão de extrema valia para a humanidade. A sabedoria não compartilhada de nada adianta. Aos 92 anos, Edward Wilson fez sua passagem por aqui valer a pena!

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