O capixaba Rubem Braga, um dos nossos maiores cronistas, já dizia: “Todas as vezes que Chico Ciência resolve acender a sua luz, há um curto-circuito nas instalações democráticas do Brasil”. Chico Ciência era o apelido de Francisco Campos, jurista com ampla capacidade intelectual. Sua luz acendeu em 10 de novembro de 1937, quando a Constituição escrita por ele foi outorgada por Getúlio Vargas abrindo a ditadura do Estado Novo.

Tal qual Franscisco Campos, a Constituição de 1937 recebeu um apelido: “Polaca”, por conta da sua inspiração na Carta fascista que regia a Polônia naquela época. Vargas teria mais poderes já que o Congresso estava fechado e os partidos políticos foram extintos. A justificativa era a necessidade de manter a ordem nacional e o desenvolvimento econômico. Durante oito anos, o Brasil viveria sob uma Carta autoritária e governado por um ditador.

Mas o trabalhador não via Getúlio Vargas assim. Ele era o “pai dos pobres”, o cara que deu a CLT, que amava os trabalhadores. Bem, numa ditadura, manda quem pode, obedece quem tem juízo e ai daquele que for do contra. A mão que afagava o trabalhador era a mesma que calava a imprensa e a oposição.

Até 1945, a Constituição escrita por Francisco Campos valeu em nosso país. Engana-se quem pensa que Chico Ciência não voltaria a escrever um novo texto jurídico de peso. Dezenove anos depois, a luz do jurista provocaria outro curto-circuito nas instalações democráticas do Brasil quando redigiu o primeiro Ato Institucional de outra ditadura a se instalar em nosso país.

Francisco Luís da Silva Campos em Dores do Indaiá, em Minas Gerais, em 1891 e morreu em 1968.