Eram 7 horas da manhã do dia 27 de outubro de 1965 e Brasília não tinha dormido. Os militares instalados no Palácio do Planalto queriam saber do presidente Castello Branco quais medidas constariam no novo Ato Institucional. Naquele começo de manhã, o ministro Juracy Magalhães telefonou para o governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, com os informes do novo AI. A previsão do ministro era que, entre 11 e 11 meia da manhã, o país saberia de tudo. “E a posse de Israel?”, perguntou o governador.  A resposta não veio, pois Juracy já tinha desligado o telefone.

Magalhães Pinto se referia a Israel Pinheiro, governador eleito de Minas Gerais no pleito realizado no começo daquele mês. Aliás, a vitória de Israel em Minas e a de Negrão de Lima na Guanabara foram os principais fatores que fizeram Brasília perder o sono naquele 27 de outubro. Magalhães Pinto e Carlos Lacerda, governadores daqueles Estados, não conseguiram fazer seus sucessores nas eleições estaduais. Seus candidatos foram derrotados por dois aliados do ex-presidente Juscelino Kubitschek que, naquela época, já estava cassado e respondia a vários Inquéritos Policiais-Militares, os famigerados IPMs. Dar posse a Israel e a Negrão era um absurdo para a linha dura militar. Era permitir a volta ao poder daqueles que representavam a política finalizada com o golpe de 1964.

A situação de Castello Branco estava complicada. Seu ministro da Guerra, o Marechal Arthur da Costa e Silva, agia mais como um “Chefe Supremo da Revolução” do que um auxiliar seu. Os jovens oficiais da Vila Militar, no Rio de Janeiro, ameaçaram derrubar o governo caso os eleitos tomassem posse. A Revista Manchete, edição 0706, trouxe uma imagem chocante: um busto de Kubitschek no chão sendo pisoteado. O ex-presidente voltou do exílio assim que as urnas foram fechadas. Ele mal desceu do avião e um oficial do Exército o esperava para entregar uma intimação para depor em algum quartel do Rio de Janeiro.

O segundo Ato Institucional foi publicado reforçando o Poder Militar sobre o Poder Civil. As eleições presidenciais se tornariam indiretas, os partidos políticos foram extintos, as cassações continuavam até mesmo no Supremo Tribunal Federal. A Praça dos Três Poderes que foi projetada por Oscar Niemeyer para dar o equilíbrio entre os poderes republicanos já não exibia mais essa conjuntura. O lado do Palácio do Planalto estava mais pesado do que os demais lados da praça. Era o predomínio do Executivo sobre o Legislativo e o Judiciário.

Murilo Melo Filho assinou uma reportagem para a Revista Manchete noticiando a publicação do AI-2. Ele trouxe um diálogo entre um assessor e um ministro presente no Palácio do Planalto enquanto o novo ato era divulgado:

— Será que os senhores não estão arriscando muito?, disse o assessor

— Risco muito maior correríamos nós se não promulgássemos logo esse Ato, respondeu o ministro.

A partir do AI-2, os militares permaneceram no poder por longos vinte anos. Foram duas décadas de atos institucionais, censuras, cassações e o povo assistindo as eleições presidenciais pela televisão ou pelo rádio. Muitos aliados do movimento de 1964 se afastaram dos militares após o segundo ato. Outros permaneceram unidos ao poder como foi o caso de Magalhães Pinto. Porém, muito mais atento ao telefone, pois não seria apenas um diálogo entre duas pessoas. Alguém estaria na escuta. Em tempos críticos como os de outubro de 1965, escutava-se aliados e inimigos ao telefone