“Nós temos ódio à ditadura. Ódio e nojo.” Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Constituinte, fez um discurso histórico na sessão solene de promulgação da nova Constituição brasileira, em 5 de outubro de 1988. O plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília, estava lotado. Depois de vinte anos de ditadura, de governos militares autoritários, o Brasil voltava a ser um país democrático. Se Tancredo Neves foi a cara das Diretas Já, Ulysses Guimarães se transformou no rosto da Constituição Cidadã. Minha mãe é fã dos dois e, desde quando eu era pequeno, me fala da admiração por eles.

A sessão foi histórica pelo momento que o Brasil vivia, pela nova Carta que entrava em vigor, pela esperança de dias melhores. O então presidente José Sarney fez o primeiro juramento presidencial perante a Constituição. A mão direita trêmula mostrava o seu nervosismo. Ulysses foi o protagonista daquela tarde em Brasília e mais conhecido que muito ator da novela das 8. Ele saiu carregado nos braços do povo.

Ecoam até hoje o discurso de Ulysses: “A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério”.

Ao longo de sua história, o Brasil já teve muita Constituição. Já tivemos Cartas democráticas, ditatoriais. Foram sete no total. Espero que a Constituição promulgada pelo Congresso em 5 de outubro de 1988 seja a última.